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sexta-feira, 29 de março de 2013

A Hora Mais Escura - Oscar 2013

★★★★★
Excelente


Muito se esperava do novo filme de Kathryn Bigelow. Há 3 anos ela ganhou o Oscar de direção por seu filme anterior, "Guerra ao Terror" — que também levou o prêmio de Melhor filme ao bater "Avatar". A diretora mostrou que sabia contar uma história sobre guerra e, em "A Hora Mais Escura", ela repete a dose, mas dessa vez numa escala muito maior.
O filme narra, sob o olhar da jovem agente Maya (Jessica Chastain), os 10 anos da caçada da CIA a Osama Bin Laden, o líder da Al Qaeda e responsável pelo ataque ao World Trade Center, em 2001.

Indicando que não será um filme fácil, a primeira cena da produção é de tortura. Maya, que foi contra vontade designada à missão no Oriente Médio, mostra claro desconforto com a sessão de tortura ministrada, por assim dizer, por Dan (Jason Clarke). É uma sequência bem gráfica, e até revoltante. Dan não economiza na violência e, entre sessões de golpes e humilhações, repete a frase "Quando você mente para mim, eu te machuco", que deve ser a pior coisa a se ouvir para um torturado, culpado ou inocente.

Mas apesar de toda brutalidade nos interrogamentos, Dan não é um monstro. O roteiro de Mark Boal (também premiado no Oscar por "Guerra ao Terror"), mesmo não se aprofundando na vida dos personagens, faz questão de expor a habilidade das pessoas de cometerem atos bons e maus, seja por crença, desespero, ou trabalho (como os torturadores). Tanto que mais tarde Dan se cansa de viver torturando e sente necessidade de fazer algo normal por um tempo. Ele continua na CIA, mas se afasta das missões de campo. Ele sabe a hora de parar, ao contrário de Maya, que cada vez se torna mais obssessiva com a investigação do paradeiro de Bin Laden, vivendo exclusivamente para isso.


Com o passar dos anos Maya fica mais experiente e "durona". E, de observadora, ela começa a comandar sessões de tortura — inclusive repetindo o discurso de Dan, sobre seguir, estudar e conhecer o prisioneiro. Seu nome vai se tornando importante e ela ganha experiência e confiança, inclusive para peitar seus superiores. Mas, apesar de todo o seu esforço, a Al Qaeda continua sua onda de terror ao redor do mundo. Outros atentados terroristas supostamente causados pela organização também estão presentes no filme, como o de Londres, em 2005, e o no Hotel Marriott (Paquistão), em 2008 — onde Maya, convenientemente, estava com Jessica (Jennifer Ehle).
Esses atentados, somados com a ineficiência em conseguir pistas reais, começam a causar uma certa raiva, ou melhor, desespero, entre os agentes da CIA. Mas uma ficha achada que estava há anos no arquivo da Agência, pode mudar isso tudo, o que dá mais esperança a Maya.

Se há uma coisa que o roteiro de Mark Boal falha é tentar transformar Maya numa personagem badass demais. Um dos momentos que reflete isso é a frase "I'm the motherfucker that found this place, sir" dita por Maya ao chefe da CIA que daria ou não o sinal verde para a invasão à mansão de Bin Laden. É compreensível que ela, na reunião, estivesse se sentindo excluída e ignorada, mas ela realmente precisava falar assim para tentar ganhar respeito? Sem falar que é meio inverossímil que alguém faça isso na vida real sem receber ao menos uma advertência.
Porém, o roteiro tem mais acertos do que defeitos e esses vacilos não diminuem o ótimo trabalho de Mark Boal.

"A Hora Mais Escura" é tecnicamente excelente. O filme só levou o Oscar de Edição de Som (dividido com "Skyfall"), mas a montagem e a fotografia são fundamentos de prima importância para o sucesso da narrativa. Até pequenas coisas foram pensadas para combinar com o clima que Kathryn Bigelow queria aplicar no filme, como a câmera quase sempre no ombro, levemente tremida, que ajuda a passar uma ideia mais realista e até um clima de tensão — o que seria mais difícil com a leveza da steadicam.
Não sabemos até que ponto os eventos narrados foram reais, mas a diretora faz um belo trabalho ao estudar com cuidado os fatos e personagens que fizeram parte dessa história. Ela em nenhum momento sacrifica a boa narrativa para transformar o filme numa produção de ação, por exemplo. Tudo que é mostrado tem uma razão para estar ali.


Com a estreia do longa, as polêmicas envolvendo a tortura no filme começaram a surgir. Acusaram Bigelow de apoiar a tortura, o filme de mostrar que essa prática foi fundamental para a chegar a Bin Laden, etc. É bem verdade que no filme há muitas cenas de interrogamentos em que a tortura é utilizada, mas acusar Bigelow de ser a favor desse tipo de ação é injusto com ela, além de entender mal o filme. Contar uma história, como ela supostamente aconteceu (com suas devidas licenças poéticas, naturalmente), não é ser a favor dos eventos narrados. Sabemos que a tortura realmente foi utilizada pelos Estados Unidos. Agora, se isso foi essencial para a captura de Bin Laden, provavelmente nunca saberemos com certeza, pois é algo que os responsáveis não admitiriam facilmente. Sim, é uma obra de ficção baseada numa história real. Sim, foi criado todo um material em volta dos fatos conhecidos (como os próprios diálogos). Mas o que "A Hora Mais Escura" faz, na sua essência, é isso: narrar os fatos importantes que levaram à captura de um dos maiores terroristas que o mundo já viu.
Uma curiosidade sobre o filme é que, originalmente, era pra ser sobre os 10 anos de caça sem resultados a Bin Laden. Quando ele foi morto, o roteiro teve que ser reescrito. Se o filme tivesse sido lançado há 2 anos, com certeza o discurso não seria "Bigelow mostra que as torturas levaram a Bin Laden", e sim "Bigelow mostra que APESAR das torturas, Bin Laden não foi encontrado". O filme seria uma crítica a prática.

Outra prova que Bigelow de maneira nenhuma apoia a tortura está numa cena que pode ter passado despercebida para muitas pessoas (principalmente para as que a acusam).
Depois de fazer um establishing shot (plano que apresenta onde a próxima ação irá se passar) de uma prisão da CIA no Afeganistão onde prisioneiros são postos em celas individuais ao ar livre, a diretora mostra Dan alimentando pequenos macacos e, não satisfeita com isso, ainda faz questão de colocar num mesmo plano os macacos na gaiola e os prisioneiros "enjaulados", claramente fazendo uma analogia e crítica ao tratamento sub-humano que eles recebem. Portanto, acusar "A Hora Mais Escura" de apoiar a tortura é tão estúpido quanto acusar "Django Livre" de ser racista.


Pode-se até discutir se "A Hora Mais Escura" conta a história verdadeira ou toma liberdades em criar situações fictícias, mas o certo é que a dupla Bigelow/Boal teve sucesso em impor um clima de "investigação" real ao filme, que parece ser um grande documentário, contando todas as etapas que levaram à descoberta do abrigo de Bin Laden, inclusive as pistas que, pelo menos a princípio, não levaram a lugar nenhum. E, como um documentário, o roteiro se priva de explorar a vida particular de seus personagens. Pouco sabemos sobre Maya, ou Dan, por exemplo. O que na maioria dos filmes, seria visto como um ponto "contra" no roteiro, aqui essa característica se revela um "pró", pois num filme com mais de duas horas e meia e com as características documentais de "A Hora Mais Escura", se ater a algo além da História poderia acabar apenas sendo uma distração e atrapalhando a pretensão do filme e o resultado final.

Apesar de ser um filme investigativo, Bigelow sabia que não poderia deixar a invasão à casa de Bin Laden de fora do longa, já que é o momento mais esperado pelo público. E em "The Canaries", o sexto e último capítulo do filme, a diretora entrega uma sequência de ação recheada de tensão. Num breu quase total, claro apenas o bastante para nos permitir enxergar alguma coisa, acompanhamos o ataque (com vários imprevistos) dos Seal Team Six. A sequência é muito bem montada e vale ressaltar o impressionante trabalho de mixagem e edição de som. Imagino a experiência que deve ser ver aquela sequência — e, por que não o filme todo? — com um Home Theater.


A morte de Bin Laden desperta sentimentos variados nas pessoas envolvidas na operação. O membro dos SEALs que o matou, mal acredita — afinal ele acabara de fazer história — enquanto os outros do grupo ficam eufóricos. Já Maya por outro lado, após reconhecer o corpo do terrorrista, não consegue esboçar um sorriso. Depois de dedicar os últimos dez anos de sua vida apenas caçando um homem que virou sua obssessão, ela se sente aliviada, porém perdida quando tudo acaba. Ela não saber o que responder quando o piloto a pergunta onde quer ir é o retrato perfeito disso. A vida dela era o dever cívico que aos poucos foi virando um desejo de vingança (ela deixa bem claro seu objetivo de Matar Bin Laden). Não havia nada além disso. E o filme termina exatamente onde a vida da personagem principal deve realmente começar.

Se em "Guerra ao Terror" Kathryn Bigelow trabalhou o vicío de um soldado na guerra, em "A Hora Mais Escura" é a vez de mostrar a obessessão da América, retratada na figura de Maya, em vingar a morte de seus cidadãos mortos nos atentados cometidos pelo grupo de Osama Bin Laden. E a diretora o faz com louvor.

Zero Dark Thirty
Estados Unidos, 2012 - 157 min.
Drama/Suspense
Direção: Kathryn Bigelow
Roteiro: Mark Boal

Elenco: Jessica Chastain, Jason Clark, Kyle Chandler, Jennifer Ehle, Harold Perrineau, Joel Edgerton, Reda Kateb
Indicações ao Oscar: Melhor filme, Melhor atriz, Melhor roteiro original, Melhor montagem, Melhor edição de som

quarta-feira, 6 de março de 2013

Amor - Oscar 2013

★★★★☆
Ótimo

Michael Haneke sabe como poucos fazer filmes que mexem com o psicológico das pessoas. Em "Violência Gratuita", sem mostrar muito, ele consegue deixar o espectador em constante angústia ao narrar a história de uma família que sofre nas mãos de dois jovens sádicos. Em "Caché", um casal que começa a receber fitas gravadas secretamente mostrando a casa deles, e desenhos com significados, inicialmente, desconhecidos. Isso só para citar os seus dois filmes mais conhecidos.

Em "Amor", mais uma vez o diretor foca em um casal, agora de idosos, que tem como inimigo não a maldade ou desejo de vingança de pessoas, e sim o temido e inevitável final da vida, e tudo que ele traz.
Geoges e Anne são um casal de músicos aposentados que vivem uma vida simples, porém alegre... Até que Anne tem um derrame que vai mudar completamente o modo que eles vivem.

Haneke mais uma vez mostra que é mestre em criar cenas interessantes. Já começando com uma ironia mórbida colocando o título "Amor" pra aparecer logo depois do cadáver no início. E a ideia do amor virar, aos poucos, uma prisão é no mínimo corajosa — assim como toda a filmografia do diretor. Na minha visão, o marido não fez o que fez no final pela mulher e sim por ele. Todo mundo tem um "breaking point", aquele momento em que não aguenta mais. Há cenas poéticas também, como nas vezes que Georges ajuda Anne a se levantar da cadeira de rodas, o casal parece estar "dançando", e eles deixando a casa, no final.

Assim como em seus outros filmes, Haneke utiliza planos longos e diálogos comuns, ainda mais para retratar o dia a dia simples de um casal idoso. Porém, uma vez que a doença de Anne se manifesta, as coisas ficam complicadas. Os planos não são mais dominados por conversas corriqueiras de um casal, e sim pelas dificuldades trazidas pela doença — como Georges ter que ajudar Eva a ir no banheiro. Por um momento pensamos que a situação não poderia ficar mais difícil, porém, num corte bruto, Haneke surpreende o espectador mostrando como a doença de Anne deteriorou-se. Agora ela deitada, com soro na veia e mal conseguindo falar e organizar seus pensamentos. O amor do casal será testado como nunca antes.

A fotografia do filme é simples, mas muito eficaz. Todo o filme se passa na casa do casal, porém não fica uma impressão de claustrofobia e sim de... aconchego. A direção de arte aposta em tons alaranjados e azuis para compor o ambiente do filme. Desde as roupas dos personagens (na maioria das vezes azuis), até detalhes nos móveis e objetos na casa.

Emmanuelle Riva não ganhou o Oscar, mas merecia. Que atuação espetacular. Ela interpreta com perfeição cada momento de Anne, não só os difíceis e tristes, mas também um dos únicos momentos leves do filme, quando ela testa uma cadeira de rodas elétrica — parece uma criança com seu novo brinquedo. Sem querer desmerecer o ótimo trabalho de Jennifer Lawrence, a derrota de Emmanuelle Riva será uma daquelas injustiças que será sempre lembrada por muitos anos. E Jean-Louis Trintignant não ter sido indicado a melhor ator é um mistério para muito gente. Ele era tão merecedor quanto Riva.

Ainda que "Amor" não tenha causado em mim o efeito assolador que tem causado na maioria dos seus espectadores, não dá para negar que é um ótimo filme, com cenas belíssimas, discussões interessantes e que desperta sensações incômodas em vários momentos. Se "O Lado Bom da Vida" foi o filme mais fell good que concorreu ao Oscar 2013, "Amor" pode ser considerado como o mais devastador. Michael Haneke nos apresenta uma imagem muitas vezes poética, mas não muito feliz sobre o fim da vida. É um filme sobre não só o amor, a face mais bela da vida, mas também sobre a mais temível e triste — a morte.

Amour
França/Alemanha/Austria, 2012 - 127 min.
Drama
Direção: Michael Haneke
Roteiro: Michael Haneke 

Elenco: Emmanuelle Riva, Jean-Louis Trintignant, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud, William Shimell
Indicações ao Oscar: Melhor filme, Melhor atriz, Melhor diretor, Melhor roteiro original, Melhor filme em língua estrangeira

*Em negrito os prêmios ganhos

sábado, 2 de março de 2013

O Lado Bom da Vida - Oscar 2013

★★★☆☆
Bom

Num ano em que a categoria principal do Oscar foi dominada por filmes densos, que falam de assuntos como tortura, racismo, terrorismo, fim da vida, etc, "O Lado Bom da Vida" é o mais "fell good". O filme, que conta a história de duas pessoas com problemas psicológicos e as consequências desses problemas no relacionamento com os familiares, tinha tudo para ser mais um drama pesado. Mas o roteiro e a direção de David O. Russel, não permitem que o filme seja tomado por um clima dramático.

O mais legal do filme é mostrar o relacionamento de dois personagens desajustados, e como eles vão se consertando no decorrer do filme. Pat e Tiffany separados são uma bagunça, mas juntos, se aproximam da "normalidade". Um é a âncora que mantém a sanidade do outro. E a forma como os dois vão contruindo um relacionamento é bem interessante.

Pat, que sofre de transtorno bipolar, ficou 8 meses internado numa clínica psiquiátrica por bater no amante de sua esposa, e sai decidido a fazer as pazes com ela (de um jeito meio obssessivo, por sinal), não tendo olhos para nenhuma outra mulher. Mas quando ele conhece Tiffany, uma jovem viúva também com problemas psicológicos, as coisas mudam. No começo ele não a vê com olhar além da amizade. Pior ainda, ele a vê como um meio de se comunicar com sua esposa. Mas ela vai crescendo nele aos poucos. Note que numa cena, depois de ensaiar a dança com Tiffany, Pat chega exausto em casa e cai na cama, onde estavam todos os livros que a esposa ensina (e ele lia para se aproximar dela), os jogando no chão. Esse momento, a princípio sem significado, mostra que Tiffany começa a ocupar mais lugar na sua vida do que a esposa. Mais tarde ele ainda demonstra sinais de ciúme quando Danny (Chris Tucker, voltando ao cinema após 5 anos) dança com ela.

Bradley Cooper e Jennifer Lawrence estão perfeitos. Eles conseguem interpretar os seus personagens em suas complexidades, de um jeito leve, humorado, mas sem soar ofensivo ou falso. A sequência em que eles se conhecem ou a do restaurante onde Tiffany conta suas experiências e Pat a julga mostra que não faltou química entre os dois. Jennifer Lawrence, com 22 anos, foi premiada com o Oscar de Melhor atriz (ela já tinha sido indicada por Inverno da Alma). E como é bom ver o Robert De Niro atuar tão bem um bom personagem novamente. Deu gosto de vê-lo. Jacki Weaver também faz bem a mãe de Pat. Tanto De Niro como Weaver foram indicados ao Oscar por papés coadjuvantes, porém não ganharam.

"O Lado Bom da Vida" é uma comédia com tons românticos, que vai agradar até quem não gosta do gênero (como eu), já que o mais importante nem é a exploração dos dois personagens principais como casal e sim tudo o que leva a isso. O filme tem seus defeitos (a piada da nota 5 explicada desnecessariamente, o clichê da câmera girando na hora do beijo), mas diverte bastante com seus personagens interessantes e situações engraçadas.

Silver Linings Playbook
EUA, 2012 - 122 min.
Comédia/Drama
Direção: David O. Russel
Roteiro: David O. Russel
Elenco: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Jacki Weaver, Chris Tucker, Shea Whigham, Julia Stiles, John Ortiz, Anupam Kher
Indicações ao Oscar: Melhor filme, Melhor ator, Melhor atriz, Melhor ator coadjuvante, Melhor atriz coadjuvante, Melhor diretor, Melhor roteiro adaptado, Melhor montagem


*Em negrito os prêmios ganhos

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Lincoln - Oscar 2013

★★★☆☆
Bom

Lincoln entrou na temporada de premiações como o favorito ao Oscar. O filme tinha tudo para faturar o prêmio esse ano: é o líder de indicações (com 12), traz um tema anti-racismo, exalta um herói americano e tem um grande diretor a frente do projeto. E não é um grande diretor qualquer, e sim Steven Spielberg, que já tem dois Oscars por Direção e teve 7 dos seus filmes indicados a Melhor filme, embora apenas "A Lista de Schindler" tenha ganhado por melhor filme junto com Spielberg, por Melhor direção..
Porém, enquanto as premiações foram acontecendo, Lincoln foi perdendo a força, enquanto Argo crescia. Hoje, o prêmio na categoria principal do Oscar está entre os dois filmes, mas Argo tem vantagem por ter ganhado premiações como SAG e PDA, onde os votantes também votam no Oscar.

A produção conta como o presidente Abraham Lincoln, em meio à Guerra Civil, travou sua própria batalha política para conseguir que a 13ª Emenda, que libertaria os escravos, fosse aprovada na Câmara.
Muitos pensavam no início que veríamos grandes cenas de guerra nos campos de batalha como as de "O Resgate do Soldado Ryan", mas o que Spielberg corajosamente nos entrega, é um filme extremamente político, que não agradará a muita gente.


Visualmente o filme é muito bom. A direção de arte, design de produção e figurinos fizeram um trabalho inegavelmente excelente. A fotografia de Januz Kaminski, que trabalha com Spielberg desde "A Lista de Schindler", tem tons sombrios, usando bastante iluminação natural, combinando com os ambientes fechados que o filme explora.
Spielberg também cria várias belas, e simples, cenas, como o sonho de Lincoln logo no início e a comemoração dele com o filho atrás de uma cortina após a aprovação da Emenda.

Mas é quando focamos no roteiro e direção do filme, que temos os maiores problemas. Além de ser um filme lento, com muitos termos políticos, comete um grande erro ao perder muito tempo explorando os problemas familiares de Lincoln. É esposa (Sally Field) que não superou a morte do filho, é o outro filho, Robert (Joseph Gordon-Levitt, mal utilizado), que quer se alistar contra a vontade dos pais. São sub tramas desintessantes, que tiram o foco da trama principal. E ver como o presidente mais famoso da história americano conseguiu passar essa Lei é muito interessante, até para quem não gosta de história ou política. Lincoln estava disposto até a oferecer "proprinas", em forma de empregos, a políticos que perderiam seus assentos na câmara com a nova gestão do governo. Em termos históricos, o filme faz muito bem o seu trabalho, mesmo cansativo.


Daniel Day-Lewis, como era de se esperar, tem atuação espetacular e provavelmente ganhará o Oscar de Melhor ator. Ele interpreta um Abraham Lincoln fisicamente cansado, com movimentos lentos e pesados e voz carregada, mas no auge de sua sabedoria. É uma figura agradável que as pessoas gostavam de ouvir. Mais um belo trabalho de um dos melhores atores da atualidade. Tommy Lee Jones também brilha no filme interpretando um político rabugento e irônico que compartilha dos ideais de Lincoln e o ajuda a conseguir os votos para passar a Emenda. Já Sally Field faz uma personagem caricata que tem momentos over acting. Sinceramente, se ela não fosse indicada a Melhor atriz coadjuvante, ninguém sentiria a falta do seu nome lá.

Falando de forma bem cru, "Lincoln" é o filme mais maçante dentre os 9 indicados a Melhor fillme (e isso é dito por alguém que adora história, inclusive a dos Estados Unidos.), mas isso não quer dizer que seja ruim. É um filme político, difícil, com problemas de ritmo... E mesmo assim suas qualidades são maiores que seus defeitos. A história do filme conta como a História foi feita — e não foi facilmente e de maneira tão limpa como a maioria pensa. O próprio Thaddeus Stevens (personagem de Tommy Lee Jones) afirma que foi uma medida aprovada por corrupção — ele fala ironicamente, mas se pensarmos, a frase tem fundamento.

"Lincoln" é uma bela e cansativa aula de história que vale a pena ser vista.

Lincoln
EUA, 2012 - 150 min.  
Drama
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Tony Kushner
Elenco: Daniel Day-Lewis, Tommy Lee Jones, Sally Field, David Strathairn, John Hawkes, Hal Holbrook, Joseph Gordon-Levitt, Jared Harris, Lee Pace, Jackie Earle Haley, James Spader
Indicações ao Oscar: Melhor filme, Melhor ator, Melhor ator coadjuvante, Melhor atriz coadjuvante, Melhor diretor, Melhor roteiro adaptado, Melhor trilha sonora original, Melhor fotografia, Melhor figurino, Melhor direção de arte, Melhor montagem, Melhor mixagem de som

*Em negrito os prêmios ganhos

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis - Oscar 2013

★★★★☆
Ótimo

Meu primeiro contato com "Les Miserábles" não foi a obra original, romance de Victor Hugo, nem o premiado musical da década de 80, mas sim a versão cinematográfica de 1998, com Liam Neeson e Geoffrey Rush. O romance ainda teve mais duas adaptações cinematográficas, uma em 1935 e outra 1958, além de uma miniserie, com Gérard Depardieu e John Malkovich. Depois de 14 anos a obra do poeta e dramaturgo francês volta para a telona numa versão, agora musical, dirigida por Tom Hooper.

Tom Hooper começou sua carreira dirigindo episódios de séries britânicas, mas começou a aparecer mesmo ao ser escalado para dirigir os 7 capítulos da ótima minisérie da HBO "John Adams". A minisérie foi muito elogiada e faturou quatro Globos de Ouro. Porém, foi com "O Discurso do Rei" que ele foi realmente reconhecido em Holywood, sendo premiado com o Oscar de Melhor Diretor pelo filme.
Apesar de já ter um Oscar em mãos, o diretor está longe de ser unamidade na área. Suas manias visuais, como Dutch Angles (planos inclinados) e enquadramentos em que deixa seus atores em cantos da tela ou com bastante espaço sobre suas cabeças e, às vezes, tudo junto, incomodam muita gente. Da primeira vez que se assiste um filme assim, até pode soar interessante. Depois, só esquisito.

E em Os Miseráveis, primeiro filme após sua vitória no Oscar, essa linguagem própria reaparece, goste ou não. Sua direção é baseada na atuação, mostrando os atores em primeiríssimos planos (close ups), muitas vezes preterindo o cenário que, por mais grandioso que seja, é esquecido — e quando aparece, é fora de foco. Em poucos momentos temos a chance de ver uma parte real do cenário, ou ele como um todo, já que planos médios e gerais são raros.


Na trama, ambientada na França no século XIX, acompanhamos a incessante caçada do inspetor Javert a Jean Valjean (Russel Crowe e Hugh Jackman, respectivamente), que ficou 19 anos presos por roubar um pedaço de pão, e suas consequências na vida de pessoas próximas ao herói injustiçado.

O filme já começa com uma sequência que mostra que veremos uma produção de proporções épicas, digna da história. E, sem enrolação, somos apresentados ao nosso herói Valjean e seu antagonista, Javert. Importante notar que logo aí vemos um conceito que será trabalho durante todo o filme: a sequência chama atenção para o herói por baixo sendo oprimido pelo vilão, em cima. Esse detalhe já demonstra que é uma história sobre injustiça, e sobre os pobres sendo tratados como inferiores pelos ricos e homens da lei. Não só o enquadramento e a montagem da sequência mostram isso, como também a primeira música que ouvimos, "Look Down" — que tem duplo significado no filme, servindo tanto para os pobres não olharem para os olhos dos ricos, e quanto para os próprios ricos que se recusam a olhar para baixo e ver a miséria do povo.

A escolha de Hooper por gravar os atores cantando ao vivo nas cenas enquanto interpretam, realmente fez diferença. Normalmente em Musicais, os atores gravam as músicas previamente em estúdio e, durante a gravação de suas cenas, apenas dublam. Mas em "Os Miseráveis", todos os atores cantaram enquanto atuavam, o que passou uma noção maior de realidade e aprimorou suas atuações.
Hugh Jackman e Anne Hathaway, que no Oscar de 2009 já tinham mostrado ao mundo que se garantem em musicais (Hathaway ainda repetiu a dose dois anos depois), brilham no filme. Não só perfeitos nas atuações, mas também cantando. Ambos foram justamente indicados ao Oscar. Russel Crowe, mesmo cantando num tom alto, não chega a comprometer e também tem seus bons momentos. Amanda Seyfried faz bonito, assim como os Eddie Redmayne e Samantha Barks, que compõe o triângulo amoroso no filme.


Porém, mesmo os atores fazendo suas partes, o roteiro de William Nicholson vacila em não trabalhar bem alguns aspectos do filme, como o relacionamento de Cosette (Seyfried) e Marius (Redmayne). É normal que em Musicais o romantismo tenha um papel maior do que numa produção mais fiél à realidade, mas esse amor devastador à primeira vista soa bobo, diferente, por exemplo, da versão de Bille August, onde o relaciomento deles dois (assim como o de Valjean com Fantine) é melhor desenvolvido. Além de não trabalhar o relacionamento do casal principal devidamente, o filme perde muito tempo explorando a parte "complementar" do triângulo, representado no amor não correspondido de Éponine por Marius. Claro que é agradável ver a bela Samantha Barks atuar e cantar, mas é uma pena que o personagem dela acabou tendo mais importância que a própria Cosette.

E esse não é o único problema do roteiro, que parece ter pressa em contar algumas partes da história que poderiam ser contadas com mais cuidado — sim, mesmo o filme sendo longo. O encontro de Valjean com o Padre que o salvou, por exemplo, é corrido, como se aquele não fosse um dos acontecimentos capitais da história. Enquanto conta alguns eventos da história com pouco cuidado, outros, menos importantes, são mais explorados. Toda a participação de Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohem é um exemplo. As partes dedicadas à dupla (principalmente a apresentação de seus personagens), servem para quebrar o clima dramático que domina o filme, porém o fazem de maneira muito forçada. Fora que os atores se tornaram caricaturas de seus personagens. Ambos parecem ter saído de "Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet" — outro Musical que gosto, por sinal.

Mas não cabe apenas críticas ao trabalho de Tom Hooper. Mesmo com sua identidade visual questionável, e os problemas do roteiro (que ele não assina, mas, como diretor, tudo tem que passar por sua aprovação) é inegável que ele também teve seus acertos. Ele consegue criar belas cenas, fazer com que um Musical de 2 horas e meia não fique (tão) cansativo, extrair grandes atuações de seus atores e criar empatia entre personagens e audiência — também, depois de esfregar na cara do espectador cada expressão facial de seus atores, se não conseguisse, eu não conseguiria descrever o tamanho do fracasso.


Outro acerto foi saber trabalhar bem as personalidades de seus personagens principais. Mesmo conhecendo-os por pouco tempo, sentimos como já o conhecessemos há muito, tendo lido ou visto outras versões da obra, ou não. Um detalhe interessante é quando, no meio da revolução, Valjean tem a chance de se vingar de Javert. Naquele momento, visualmente, os próprios personagens trocam de papéis no universo diegético (do filme) e interpretam personagens que são completamente o contrário do que representam (pelo menos legalmente): Valjean, fugitivo da lei, se finge de soldado enquanto Javert, homem da lei, de revolucionário. Só que na hora da verdade, tanto Valjean quanto Javert não conseguem trair suas verdadeiras personalidades e convicções. Valjean não mata Javert, que por sua vez, jura continuar o caçando. Foi uma sequência muito bem montada, que até pode ter na obra original, mas, se não fosse pensada com cuidado, não teria o mesmo efeito numa obra cinematográfica — o inverso também acontece, já que há cenas que parecem não funcionar no filme.

Se a direção e o roteiro têm seus defeitos, não há dúvida que o departamento mais competente foi o de Arte. Todo o design e direção, com a cenografia e figurinos, são belíssimos, montando com muito cuidado a França do Século XIX. Mas Hooper, como não podeia deixar de ser, acaba sufocando esse trabalho.
A trilha sonora, estrela do filme, é um espetáculo à parte com suas músicas que se encaixaram bem na adaptação para o cinema. Elas reforçam o clima que a história pede no momento, seja épico, emocionante, romântico ou de algo iminente, como a revolução.


"Os Miseráveis" é um filme difícil por ser um Musical com duas horas e meia. O gênero já não é muito popular, e com a duração exagerada, pode afastar ainda mais potenciais espectadores. Mas independente da preferência cinematográfica, o filme vale a pena pela sua bela história. Ainda mais por ela abrangir vários temas como romance, redenção, e até questões sociológicas — como cada classe se comporta diante da outra e como a indiferença levou a revolução. Apesar de ter um clima cético durante a maioria do filme ("Here is the thing about equality/everyone's equal when they're dead") não tem como sair da projeção com uma sensação de bem estar. E eu duvido que até o espectador com o coração mais duro não ficará mexido com o lindo e poético final que não fecha apenas a saga de Jean Valjean, mas engloba toda a história.

É um bom filme, apesar de seu diretor.

Les Misérables
Inglaterra, 2012 - 158 min.
Drama/Musical
Direção: Tom Hooper

Roteiro: William Nicholson
Elenco: Hugh Jackman, Russel Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Sacha Baron Cohen, Helena Bonham Carter, Eddie Redmayne, Samantha Bark, Daniel Huttlestone
Indicações ao Oscar: Melhor filme, Melhor ator, Melhor atriz coadjuvante, Melhor canção original, Melhor maquiagem, Melhor figurino, Melhor direção de arte, Melhor mixagem de som 

*Em negrito os prêmios ganhos

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Argo - Oscar 2013

★★★★☆
Ótimo

Apesar de já atuar desde 1981, Ben Affleck entrou definitivamente no radar de Hollywood em outra profissão: como roteirista. Junto com seu amigo Matt Damon, ele escreveu o longa "Gênio Indomável" em que também ambos atuaram. A estreia da dupla foi tão boa que eles foram reconhecidos com o Oscar de melhor roteiro em 1998. Até então Affleck só tinha atuado em papéis menores. De uma certa maneira, a sua carreira como ator se deve muito a sua de roteirista (o mesmo caso vale para Matt Damon).

A partir dali, Affleck se dedicou apenas a atuação, passando 10 anos sem se envolver com o que acontece por trás das câmeras. Porém, em 2007 ele voltou à atividade que catapultou sua carreira e roteirizou o filme "Medo da Verdade", que também foi sua estreia na direção. Três anos depois ele voltou a roteirizar e dirigir, com o filme "Atração Perigosa". Ambos os filmes foram muito bem recebidos pela crítica, colocando o seu nome entre os melhores diretores novatos.

Em "Argo", Ben Affleck dá mais um passo para se firmar no seleto grupo dos bons atores/roteiristas/diretores atuais. Dessa vez só dirigindo (o roteiro é de Chris Terrio), ele tem sido lembrado e premiado em várias premiações, porém foi "esnobado" no Oscar — seu nome, para a surpresa de muitos, não apareceu na lista de indicados a Melhor diretor. Em compensação, depois de ganhar premiações como o SAG e PDA, o filme desponta como favorito à estatueta de Melhor Filme.

O filme, baseado em fatos, conta a história de uma operação secreta da CIA para resgatar um grupo de americanos refugiados na casa do Embaixador do Canadá, no Irã, durante a revolução no País. O plano criado por Tony Mendez (Ben Affleck, que também protagoniza o filme) foi bem curioso e tinha tudo para dar errado: criar um falso filme do zero, entrar no Irã como desculpa de filmar lá e resgatar o grupo, que receberiam novas identidades com cidadania canadense, e seriam parte da equipe de filmagem do filme.


Uma das coisas mais legais em "Argo", é mostrar todo o processo de criação de um filme. Vemos a escolha de um roteiro, a burocracia na área ("Preocupado com o Aiatolá? Não conhece o Sindicato dos Roteiristas."), a produção, como os cartazes e storyboards, figurinos, e a divulgação na imprensa, inclusive com uma grande festa onde acontece um table-read (onde atores lêem o roteiro do início ao fim)tudo bancado pela CIA, vale dizer. Com 2 horas de duração e uma história que aborda um tema maior, obviamente não dá para entrar nos mínimos detalhes mas, mesmo assim, é divertido ver como o mundo Holywoodiano funciona.

Affleck tem uma atuação sóbria e contida, parecendo não querer que seu Tony Mendez apareça mais do que os outros personagens (afinal não há apenas um herói no filme, e sim vários) e a própria história. O seu elenco de apoio é de primeiro escalão. Os sempre excelentes Alan Arkin e Bryan Cranston estão ótimos, assim como John Goodman. O núcleo dos refugiados, embora composto por atores não tão conhecidos do grande público, também está muito bem, passando o clima de tensão e o estado de espírito dos personagens com perfeição.

Assim como em "Atração Perigosa" (nem tanto em "Medo da Verdade"), Ben Affleck tem sucesso em criar uma conexão entre os personagens e o público. O público consegue se importar até mesmo com personagens de menor expressão e entender o que eles sentem — mérito também dos atores, sem dúvida.
Numa sensível demonstração de ironia e olhar crítico, o diretor faz questão de mostrar rapidamente uma iraniana comendo no KFC, uma das redes americanas de fast food mais conhecidas, constrastando fortemente com o clima de perseguição a americanos. Porém, logo em seguida ele mostra uma pessoa enforcada em público, para lembar-nos que realmente ali realmente não é um dos melhores lugares para se estar.

Aliás, se há uma coisa que Affleck tem aprimorado em sua carreira como diretor é a forma como ele cria tensão em suas produções. A própria escolha por usar imagens de arquivo reais, para situar o espectador a cada desdobramento da história ajuda nisso, criando um clima de urgência, alarmismo. Esse recurso, quando bem utilizado, sempre dá mais credibilidade ao filme. E essa tensão impera durante todo o filme, desde seus primeiros minutos, atingindo o auge na sequência do aeroporto. Assim como os personagens, sabemos que cada minuto a mais que o grupo passa no Irã, eles estão mais próximos de um final não muito feliz. É claro que o filme provavelmente tem mais obstáculos que de fato ocorreu (a reserva da passagem que não aparece no sistema da companhia aérea na primeira vez, soa forçado), mas numa produção cinematográfica, isso é muitas vezes preciso. E ele cria esse clima como poucos. Mesmo já sabendo como o filme irá terminar, ficamos com o "coração na mão" ao testemunhar o que os personagens têm que passar até chegar aos seus conhecidos destinos na história.


Embora não ache que "Argo" seja o melhor entre os nove indicados a melhor filme, eu ficaria muito satisfeito se o filme levasse a estatueta. O filme é interessante, inteligente, tenso, tem seus momentos engraçados e, sem dúvida alguma, se conecta mais com o público do que o outro favorito, "Lincoln", que é um filme político, mais difícil.
A vitória de "Argo" significaria a quebra desse costume da Academia de premiar filmes mais artísticos, que não se conectam tanto com o público. Não seria a primeira vez que um filme popular ganharia, mas seria uma das poucas vezes. E numa premiação que cada vez perde mais audiência, a aproximação com o público é necessária. A Academia, que tem fama de ser conservadora, já começou a tentar falar a mesma linguagem da audiência ao aumentar a lista de indicados a melhor filme de 5 para até 10, tendo espaço para filmes mais populares. Porém, mesmo assim, continua coroando na maioria das vezes filmes "frios", que, muitas vezes, nem são os melhores.

Mesmo não tendo sido indicado a Melhor diretor, a vitória de "Argo" na maior premiação do Cinema seria um justo reconhecimento da ainda curta porém ascencional carreira de Ben Affleck.

Argo
EUA, 2012 - 120 min.
Suspense/Drama
Direção: Ben Affleck

Roteiro: Chris Terrio
Elenco: Ben Affleck, Bryan Cranston, Alan Arking, John Goodman, Victor Garber, Tate Donovan, Clea DuVall, Zeljko Ivanek
Indicações ao Oscar: Melhor filme, Melhor ator coadjuvante, Melhor roteiro adaptado, Melhor trilha sonora original, Melhor montagem, Melhor edição de som, Melhor mixagem de som

*Em negrito os prêmios ganhos 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Django Livre - Oscar 2013

★★★★★
Excelente


"Django Livre" é o filme mais difícil que Quentin Tarantino já fez. O filme já estreou sob fortes polêmicas por mostrar de forma tão crua e realista a escravidão, uma ferida que até hoje não cicatrizou perfeitamente na população americana. Em sua obra anterior, "Bastardos Inglórios", ele já tinha mexido num tema sensível como a II Guerra Mundial, porém com um olhar bem mais cômico do que é usado em "Django". Em "Bastardos" há poucas cenas dramáticas. Tudo ali é criado para exorcizar todos os sentimentos que temos em relação ao Nazismo e os atos praticados pelo movimento.
Na figura de Shosanna ou de Aldo Raine e seus subordinados nos sentimos justificados, mesmo que nosso senso de justiça condene a violência que Tarantino tanto exalta. Mas a arte tem esse efeito. Ela é capaz de subverter o nosso super ego por alguns instantes e nos fazer apreciar algo que não faríamos na vida real.

Já em "Django", antes desse "exorcismo" (iconizado na vingança do escravo liberto), somos obrigados a testemunhar uma grande dose da face mais selvagem desse período tão obscuro da história.
Durante as cenas dramáticas, Tarantino fez questão de não esconder nada. Com ações, palavras ou gestos, nós somos testemunhas dos maus tratos sofridos por pessoas que eram consideradas menores apenas por causa da cor da pele. Algumas cenas com os escravos chegam a ser incômodas de tão "cruas". Sabiamente, o diretor e roteirista trata o tema com seriedade, e guarda os seus já famosos exageros para as sequências de ação que, aí sim, são divertidas e surreais, com bastante sangue jorrando pela tela, tiros certeiros, etc.

Na trama, o escravo Django (Jamie Foxx) é liberto por King Schultz (Christoph Waltz), um caçador de recompensa que precisa dele para reconhecer suas próximas vítimas, três irmãos a quem Django servia. Terminado o serviço, Django decide ficar mais um tempo com Schultz, que o treina e os dois viram sócios no "negócio". Juntos ele bolam um plano para resgatar a esposa de Django, Broomhilda (Kerry Washington), que foi vendida ao cruél Calvin Candie (Leonardo DiCaprio).


Muita gente tem criticado o filme por supostamente "exaltar" a escravidão. Essas pessoas não vêem que é exatamente o contrário. O filme conta uma incrível história de ascensão de um escravo liberto. As cenas fortes estão ali para criar um sentimento de revolta no espectador, para que a vingança de Django seja mais "justificável", para que o público se sinta vingado. E Tarantino faz isso com muita competência — assim como no já citado "Bastardos Inglórios".
Inclusive, é interessante notar a inversão de papéis nesses dois filmes. Se em "Bastardos", o vilão (Landa) era o alemão caçador de judeus, e o americano sulista (Aldo) era o herói, em "Django" o alemão (Schultz) contra a escravidão passa a ser o herói e o americano sulista (Candie, principalmente), o vilão.
Sem dúvida algo feito propositadamente, já que o diretor já disse que os dois fazem parte de uma trilogia (ainda inacabada) de filmes históricos.

A já famosa linguagem visual de Tarantino está presente no filme, como não poderia deixar de ser. O zoom in rápido que foca na face do personagem, conhecido como Shaw Brothers's Zoom ou Eye Popping Quick Zoom (quando o personagem de DiCaprio é apresentado, por exemplo), assim como seus closes em detalhes de uma ação comum, como encher um copo com cerveja, são utilizados mais de uma vez. Os longos planos, tais como sua forma não linear de contar histórias, com vários flashbacks, também.
A trilha sonora é bem eclética. Vai desde o famoso compositor de trilhas westerns Ennio Morricone até o hip hop de Rick Ross. A mesclagem de músicas antigas com novas deu bastante certo, e todas elas muito bem escolhidas, funcionando como uma extensão direta do que é narrado.


Outra marca presente do diretor é fazer da violência uma coisa divertida e até bonita em alguns casos (como o sangue espirrando numa plantação de algodão) e sempre criar vilões carismáticos. E Leonardo DiCaprio, que interpreta um vilão pela primeira vez, está espetacular na pele de Calvin Candie. O personagem é capaz tanto de ser cativante, educado e bom anfitrião, como de ser extremamente violento e brutal. DiCaprio levou tão a sério o papel que durante a cena do jantar com Django e Schultz, ele realmente machucou a mão e, mesmo sangrando, continuou atuando. É uma pena que, de prêmios com grande reconhecimento, ele só tenha sido lembrado no Globo de Ouro.

Além de Calvin Candie, temos um outro personagem igualmente carismático e mau, interpretado perfeitamente por Samuel L. Jackson, um dos atores preferidos de Tarantino. Ele faz com perfeição o negro racista Stephen (braço direito de Candie), talvez um dos melhores personagens já criados pelo diretor.


Mas não só de bons vilões um filme vive. Tarantino também costuma criar (anti) heróis icônicos. E Jamie Foxx faz um bom trabalho como o escravo liberto, nos mostrando um Django violento, porém de certa forma inocente. Em alguns momentos, mesmo sem falar, ele consegue passar o que o personagem sente apenas com o olhar ou linguagem corporal. O modo, por exemplo, como ele se comporta e fala quando ouve a lenda alemã de Broomhilda contada por Schultz, remete ao de uma criança curiosa. Só que essa ingenuidade vai se perdendo no decorrer do filme, quando os acontecimentos da trama vão moldando sua personalidade, o tornando mais violento e sedento por vingança.

Já Christopher Waltz parece repetir o seu "Hans Landa" de Bastardos Inglórios, só que agora numa versão "boazinha", ou quase isso — quem mata um pai na frente de seu filho não é tão bom assim. A atuação é muito parecida, com os mesmos trejeitos, entonação de voz e até o jeito de falar, sempre muito cordial e eloquente. Não achei justo ele receber tantas indicações (inclusive para o Globo de Ouro, que ganhou, e Oscar) enquanto DiCaprio, que faz um personagem bem mais difícil e complexo foi esquecido. Porém, mesmo assim, é impossível não gostar de ver Waltz atuando. É um dos melhores personagens do filme.


Percebe-se que ao longo dos anos Tarantino evoluiu a sua forma de contar histórias. Em "Django Livre" isso se confirma. Ainda que em algum momentos a narrativa pareça ficar um pouco arrastada (algo normal num filme de quase três horas), ele consegue trazer o espectador para dentro do filme e fazê-lo ficar interessado durante o tempo todo. Não há nenhuma cena que eu lembre que não faça sentido, ou que pareça ser encheção de linguiçaa única, talvez, seja a do grupo que ataca Schultz e Django, mas serve como escape cômico. E ele ainda cortou mais de 30 minutos de cenas que adicionariam mais à trama. Com tanto material filmado e editado, fica a pergunta se teremos uma versão do diretor lançada para o mercado de Home Video.

Com o seu famoso timing perfeito, Quentin Tarantino mais uma vez tem sucesso em equilibrar bem drama, comédia e suspense. Em nenhuma cena uma piada corta um clima mais denso dramaticamente, parecendo forçado. Os risos fluem naturalmente, e muitas vezes causados por situações constrangedoras, recursos visuais, ações inesperadas, etc, sem necessidade de punchlines. Com todos os seus recursos narrativos e visuais, não é a toa que ele é um dos diretores mais aclamados da atualidade.

"Django Livre" realmente é um filme longo, mas vale cada minuto. E, no final das contas, mesmo tendo que aguentar muitas cenas pesadas e revoltantes, a sensação que fica é de satisfação. Sentimos que tudo que testemunhamos o personagem passar foi recompensado — e com uma boa dose de balas e muitos litros de sangue. Por mais absurdo que seja, nos sentimos bem com isso. E essa é a especialidade desse grande artista que é Quentin Tarantino.

Django Unchained
EUA, 2012 - 165 min.
Western/Aventura
Direção: Quentin Tarantino

Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson
Indicações ao Oscar: Melhor filme, Melhor ator coadjuvante, Melhor roteiro original, Melhor edição de som

*Em negrito os prêmios ganhos

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

As Aventuras de Pi - Oscar 2013

★★★★☆
Ótimo

[Com Spoilers]

A pergunta que ficava no ar após fotos e trailers de "As Aventuras de Pi" serem lançados era: será só um filme esteticamente bonito ou a trama também valerá a pena?
E a minha resposta é que, sim, o filme vale a pena como um todo. Ang Lee não deu atenção apenas ao visual, que é espetacular, mas também nos presenteia com uma bela história de fé, sobrevivência e autoconhecimento. O filme foi indicado a 11 Oscar, e só fica atrás de "Lincoln", com 12 indicações.

O filme é sobre a vida de Piscine Patel, um indiano que desde pequeno mostra um interesse acima do normal por assuntos como religião, matemática e música. Seu pai é dono de um zoológico, o que o ajudou a estar sempre em contato com animais e com a natureza. Em certo momento de dificuldades, seu pai decide levar a família para o Canadá, onde poderá vender os animais do zoológico por um preço melhor do que na Índia. Durante a viagem eles são pegos por um furiosa tempestade, que afunda o navio e só Pi consegue se salvar. Só que, para piorar a situação, ele tem que dividir o bote com uma zebra, um orangotango, uma hiena e um tigre de bengala, que tem o curioso nome de "Richard Parker".
Vale destacar o incrível trabalho feito pela equipe de efeitos especiais. Os animais, digitais, são perfeitos. Principalmente o Tigre, que é o que mais aparece no filme. Em nenhum momento parece artificial.

Apesar da maior parte do filme ser centrada nesse desafio enfrentado por Pi, a sua infância também é apresentada, e com ela os acontecimentos que moldaram o seu caráter e a sua visão do mundo.
Assim como muitos em seu país, Pi cresceu dentro do hinduismo, porém, ainda criança, começa a questionar a "singularidade" de sua religião ao entrar numa igreja católica e aprender sobre Jesus Cristo. Mas, ao contrário do que a maioria faria, Pi não pretere uma religião à outra; ele se acha em todas elas ("Thank you Vishnu, for introducing me to Christ"). Enquanto seu pai, Santosh, homem racional que é, não aceita essa multi-religiosidade do filho, sua mãe, Gita, é compreensiva com suas descobertas religiosas, mesmo concordando com o pai que acreditar em tudo é o mesmo que não acreditar em nada. Mas a verdade é que, enquanto Pi descobria as religiões, ele estava descobrindo e aprendendo sobre si mesmo no processo.


Desde sempre morando próximo a animais, Pi se sente conectado à natureza porém, como o lado mais selvagem dela sempre esteve atrás de grades, ele não a teme como deveria... até o seu primeiro encontro com o tigre Richard Parker, quando o seu pai lhe ensina uma lição que valerá para sempre. É o primeiro grande ensinamento de sua vida.

Com esses dois pontos — sua relação com a religião e natureza — devidamente trabalhados, a história avança para o acontecimento capital da trama. Após o naufrágio do navio, Pi precisa aprender a sobreviver dividindo um bote com quatro animais. Para sua sorte (ou não), os outros animais, um por um, morrem, só sobrando o tigre e ele.

Durante os dias que se seguem, Pi vai lutar pela sua vida e aprender a maior das lições sobre a natureza, sobre Deus e sobre si mesmo. Tendo que conviver com um enorme tigre num espaço pequeno no meio do oceano, ele dá valor a lição que sei pai o ensinou, que os animais não pensam como os humanos, e que há um motivo para eles serem chamados "selvagens". Mesmo assim, é importante notar que o tigre em certos momentos chega a ser quase antropomorfizado, não corporalmente, claro, mas em suas atitudes e em seu olhar bem expressivo, que nos permite saber o que ele está sentindo — provavelmente para criar uma empatia do espectador para com o animal, e não só com Pi. Inclusive, em certo momento (até engraçado) em que os dois estão "disputando" seus lugares no bote, o tigre toma uma atitude claramente provocativa em relação a Pi.
Mas o perigo não se resume a figura de Richard Parker. No mar, há os tubarões que várias vezes aparecem a espreita do bote, a lém das tempestades que Pi e Richard Parker têm que enfrentar. Porém, em todos os momentos, Pi não perde a fé. E em sinais, como o céu sempre refletido na água, percebemos que Deus (ou deuses) sempre esteve ali perto dele.


"As Aventuras de Pi" realmente é um filme que tem um certo cunho religioso, mas o legal é que em nenhum momento ele toma partido de uma religião específica. É uma salada de religiões que acaba funcionando bem tanto para a história quanto para a discussão do assunto, já que até mesmo muitos dos que não tem uma fé, não acreditam num deus, consideram que a fé é algo que dá esperança e um sentido a vida às pessoas. E na situação de Pi, acreditar que Deus sempre esteve com ele foi essencial para não desistir. Essa forte fé, que independe de uma religião específica é algo belo. Porém, ainda mais do que sua crença significar ter algo em que se "segurar", ela funciona mais como uma "ponte" usada por Ang Lee para discutir o auto-conhecimento (em sua busca para entender os mistérios da fé e do mundo, ele descobria sobre si mesmo).
E isso nos leva à parte final do filme, quando Pi finalmente é resgatado e conta tudo o que passou para dois homens mandados pela companhia do navio que naufragou para tentar descobrir o motivo do náufrago. Eles não acreditam na história e falam para Pi que precisam de uma história crível, que a empresa acreditaria. Pi então conta uma história diferente, os homens dessa vez aceitam e partem. Só que na verdade tudo o que ele conta nessa segunda história é uma analogia do que realmente aconteceu.
Muita gente tem criticado o filme por ter mastigado demais essa analogia, mas devo dizer que discordo. Um filme com tantos significados, precisa se conectar com o público médio também. Eu mesmo na hora não fiz ligação da analogia com a história original. Se o escritor não tivesse explicado, eu até poderia vir a compreender o significado, mas depois de muito tempo.

 
No final, Pi se vendo como o Tigre foi uma sacada bem inteligente, e a sua frase "(...)The whole of life becomes an act of letting go, but what always hurts the most is not taking a moment to say goodbye" é ao mesmo tempo linda, e doída (e deve ser ainda mais para quem perdeu alguém próximo). A cena final resume bem isso: ao mesmo tempo em que ele, Pi, fica triste porque vê o Tigre (o seu único companheiro durante essa aventura) partir sem se "despedir", ele se vê como o Tigre, se desprendendo do passado, ou do seu velho "eu", sem olhar para trás.

Uma bela metáfora que coroa uma belo filme.

Life Of Pi
EUA/Tailândia, 2012 - 127 min.  
Drama/Aventura
Direção: Ang Lee

Roteiro: David Magee
Elenco: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Adil Hussain, Tabu, Rafe Spall, Gérard Depardieu
Indicações ao Oscar: Melhor filme, Melhor diretor, Melhor roteiro adaptado, Melhor trilha sonora original, Melhor canção original (Pi's Lullaby), Melhores efeitos visuais, Melhor fotografia, Melhor direção de arte, Melhor montagem, Melhor edição de som, Melhor mixagem de som

*Em negrito os prêmios ganhos

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Indomável Sonhadora - Oscar 2013

★★★★☆
Ótimo

[O texto a seguir contém alguns detalhes sobre a trama do filme]

Dentre vários filmes com orçamentos milionários e diretores e atores famosos, "Beasts Of The Southern Wild", no original, conseguiu entrar na lista de indicados ao Oscar de Melhor filme sem nenhum nome de renome na direção ou no elenco. Com menos de U$2.000.000, Benh Zeitlin fez seu primeiro filme apoiado apenas numa boa história (baseada na peça "Juicy And Delicious", de Lucy Alibar que co-escreve o roteiro junto com o próprio Zeitlin) e excelentes atores desconhecidos, muitos deles naturais da região. Isso lhe valeu uma indicação ao Oscar de Melhor Diretor, assim como uma indicação a Quvenzhané Wallis, que se tornou a atriz mais nova a ser indicada a Melhor Atriz, com 9 anos.

O filme conta a história de Hushpuppy, uma menina de 6 anos que precisa enfrentar as consequências de uma tempestade (provavelmente o Katrina) com seu pai, Wink (Dwight Henry), em Bathtub, uma comunidade ribeirinha, na Louisiana.
Naquele mundo de madeira, a comunidade vive não se importando com o mundo além da represa, que os separa do mundo "exterior". Dinheiro parece ser algo absoleto ali. Os moradores vivem junto com animais de todos os tipos que são, antes de mais nada, a fonte de alimento deles.
Nesse mundo tão "cru", a beleza está em vermos através dos olhos, e da imaginação, de uma criança. Hushpuppy está sempre procurando se conectar com a natureza (ela coloca pequenos animais próximo ao ouvido para ouvir o som de cada um). Entender, e respeitar, o ambiente em que vive é vital.

Apesar de Wink ser a única família que Hushpuppy possui, eles vivem em casas separadas, só se reunindo para comer. Isso ressalta ainda mais a distância entre os dois. Talvez Wink force essa distância para que Hushpuppy amadureça e se torne independente logo, já que a vida naquele lugar não é fácil e ele sabe que não estará ali para cuidar dela por muito tempo. É descoberto no início do filme que Wink sofre de uma doença no coração, que em pouco tempo pode levá-lo a falecer .
Com a chegada da tempestade, os poucos moradores de Bathtub que decidiram ficar têm que lutar pela sobrevivência, pois a chuva provoca uma enchente que deixa toda a comunidade alagada, só podendo se locomover com o uso de barcos. E se a vida naquele lugar já era difícil, agora fica ainda mais. A pobreza e a necessidade de improviso naquele lugar se mostra até no barco de Wink e Hushpuppy, que não nada mais é que uma caçamba de caminhonete adaptada para flutuar.


Passada a tempestade os sobreviventes se reuniem numa das casas flutuantes, e tentam se virar naquela situação. Com o tempo os animais morrem, a comida se torna escassa, e eles enfrentam o dilema de continuar ali na ilha ou tentar a sorte além da represa. Mas para Wink, cabeça dura e orgulhoso que é, deixar Bathtub não é uma possibilidade. Eles bolam um plano que melhora a vida no lugar, fazendo a água baixar, mas ao mesmo tempo os coloca no "radar" do mundo. Um grupo de agentes de saúde chega à comunidade, que precisa ser evacuada. É claro que os moradores não aceitam isso com bons olhos e lutam para ficar. Eles são levados contra a vontade a um centro de ajuda para receber o tratamento necessário.
Nessa momento temos o primeiro "choque" entre esses dois mundos. A primeira coisa que vemos do mundo "civilizado" é um ambiente claro que contrasta fortemente com tudo que vimos no filme até o então. Hushpuppy estranha aquela sala toda branca, mas não a vê como uma prisão, como o seu pai tinha lhe contado — "parece mais com um aquário sem água", ela diz. Wink é operado, mas mesmo assim consegue arrumar um jeito de fugir dali junto com os outros moradores de Bathtub, mesmo sabendo que pode morrer.

Para nós, pode ser difícil entender como alguém pretere uma qualidade de vida melhor para viver (ou morrer) no ambiente caótico em que viveu durante a vida toda. Esse, por sinal, é o principal motivo de queixa de pessoas que têm criticado o filme. Para elas, o filme "romantiza" a pobreza já que, na figura de Wink sobretudo, vemos uma grande resistência em deixar aquela vida para trás. Como todos ali, ele tem orgulho de ser daquela região. Mas o filme não é sobre isso. Aquelas pessoas que resistiam tanto a mudança só conheciam aquele mundo. Sim, a origem é tudo para eles, não só do lugar, mas também da cultura, o modo de vida... Mas essa forma até violenta de agir, é apenas reflexo do medo que eles têm do que não conhecem. E o filme é exatamente sobre isso: o medo do desconhecido.

Se o mundo exterior é a representação do medo de Wink e dos outros moradores, os Aurochs são a da pequena Hushpuppy. Desde que ela aprendeu sobre a soberania desses predadores na Era Glacial, ela constantemente os imagina se aproximando de Bathtub.
A cena em que os Aurochs se "ajoelham" diante da Hushpuppy é sensacional. A partir daquele momento ela aprende a dominar os seus medos, principalmente o de perder o pai.


E durante sua jornada, Hushpuppy cresce, amadurece, aprende sobre a vida, e conhece o mundo em que vive, inclusive além de Bathtub. O mundo aumenta, e deixa de ser apenas uma ilha. Com o conhecimento, vem a perda — ou melhor, dominação — do medo. Enquanto Wink não consegue dominá-lo, Hushpuppy consegue, dando um grande passo para fazer história, como ela mesma tanto queria.

Beasts Of The Southern Wild
EUA, 2012 - 93 min.  
Drama
Direção: Benh Zeitlin

Roteiro: Benh Zeitlin, Lucy Alibar  
Elenco: Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Levy Easterly, Gina Montanam Lowel Landes
Indicações ao Oscar: Melhor filme, Melhor diretor, Melhor atriz, Melhor roteiro adaptado