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domingo, 16 de fevereiro de 2014

O Lobo de Wall Street

★★★★★
Excelente

Como é bom quando vemos que um diretor de alto calibre como Martin Scorsese não perde a manha. Enquanto outros grandes nomes, como Steven Spielberg e Ridley Scott, revezam filmes bons com medíocres, Scorsese mantém o alto nível constante. Além disso, ele se acostumou como poucos aos novos tempos. Uma prova é o seu filme anterior, o belíssimo "A Invenção de Hugo Cabret", que tem um dos melhores 3D já vistos no Cinema.

Em sua nova obra, o diretor conta a infame história real do corretor da Bolsa Jordan Belford (Leonardo DiCaprio), o "Lobo de Wall Street", apelido ganho por enriquecer a custas dos outros. Já com o sonho de ganhar muito dinheiro, ele consegue um emprego em Wall Street aos 22 anos. Quando as coisas pareciam estar dando certo, vem uma crise que derruba as bolsas e Belford acaba na rua, junto com vários corretores. Ele descobre, então, um mercado de ações de baixo valor, onde, com a experiência ganha no seu antigo emprego, consegue rapidamente se dar bem enganando pessoas simples. Depois de trazer vários amigos para o negócio, ele abre a sua própria empresa, a Stratton Oakmont, que cresce e vai ganhando notoriedade, até entrar no radar do FBI.

A mudança de vida de Jordan não é vista somente na sua conta bancária. A riqueza traz um mundo de drogas, sexo e festas no qual o protagonista acaba envolvido. O superego do personagem é suprimido por seu modo de vida frenético, que envolve orgias na própria empresa, e viver quase que permanentemente drogado por vários tipos de entorpecentes. De alguma forma, lembro de muitas celebridades teens que, ao se deslumbrarem com o dinheiro, perdem a noção, talvez por alguma necessidade de se autoafirmar, pela adrenalina ou apenas porque acham que pode, por acreditarem que são protegidos pelo dinheiro. E na maioria das vezes, são mesmo.

Uma das coisas que mais se destacam em "O Lobo de Wall Street" é o clima "over the top" que impera em sua maior parte. Dos diálogos, passando pelo consumo de drogas, até as cenas de sexo e nudez — que são muitas. Como o filme foi financiado independentemente, Scorsese não teve problema com censura de estúdios. Entretanto, mesmo assim, o filme sofreu cortes para que não pegasse a maior classificação etária, o que limitaria o seu mercado.

Um grande acerto do filme é a montagem. É frenética e intencionalmente "defeituosa", em momentos em que Jordan está sob o efeito de drogas, ou seja, durante boa parte do filme. Em sua maior parte, "The Wolf Of Wall Street" (no original), é uma comédia tão absurda que um desavisado pode pensar que é uma obra de ficção, sem vínculos com a realidade — o filme ganha tons mais dramáticos no terceiro ato. Mas a verdade é que a vida e os "feitos" do Jordan Belford real foram transpassados do livro autobiográfico para a tela de uma forma bem próxima da realidade, do abuso de drogas à forma como ele construiu seu império. Apesar do filme não mostrar o lado de suas vítimas, o embate moral está presente, na sua vida profissional e familiar. Tanto nós quanto Jordan, sabemos que suas ações eram erradas, mas o personagem sempre prefere pegar o caminho mais fácil em direção ao seu enriquecimento.


Vivendo agora em função do dinheiro — e do que vem com isso —, Jordan acaba se distanciando de sua família. O ápice é quando, já perseguido pelo FBI e forçado a fazer um acordo que entregará seus colegas, sua segunda mulher, Naomi (a linda Margot Robbie), avisa que vai deixá-lo, levando a filha deles. Ele surta, a agride, e tenta sequestrar a menina, mas acaba batendo o carro. Scorsese cria uma dos planos mais belos do filme quando o sangue da testa ferida de Jordan escorre pelo seu olho, formando uma lágrima. O uso da cor vermelha para designar culpa é uma das marcas do diretor, que a usa há décadas ("Os Bons Companheiros" é um ótimo exemplo). A expressão facial de DiCaprio ao "chorar culpa" acusa o momento em que o personagem, que quase machucou sua filha, se dá conta de tudo que fazia. Por mais que ferir financeiramente desconhecidos não o fizesse se sentir culpado, ao ferir fisicamente sua família, sua ficha cai. Ele estava prestes a entrar no ponto de não retorno de sua jornada (i)moral.

A sua queda, arquitetada pelo agente Patrick Denham (Kyle Chandler, de "A Hora Mais Escura"), desmantela seu império, e o força a viver sóbrio — das drogas e do dinheiro (seu vício preferido, como ele mesmo diz) —, o que chega a ser irônico, pois só então, perdendo tudo, ele recupera sua alma. Uma troca bastante justa, eu diria. Jordan Belford hoje vive ganhando dinheiro legalmente, como palestrante motivacional. Porém, mesmo ao se colocar no lugar de suas vítimas e imaginar ser uma situação terrível, ele não pensa em se retratar, ao menos pessoalmente, com seus credores.



O roteiro de Terence Winter, que é mais conhecido no mundo das séries (é o criador de "Boardwalk Empire", que Scorsese produz, e foi roteirista de "Família Soprano"), acerta em dar um tom cômico ao filme, que normalmente uma produção com tanto peso moral não teria. A maneira como o protagonista "conversa" com o público (a famosa "quebra da 4ª parede), explicando termos técnicos, causa uma maior aproximação entre personagem e audiência. E os personagens por mais inescrupuloso que sejam, provocam uma certa empatia no público — o que causou revolta nas vítimas do Lobo e seus comparsas.

Méritos também ao elenco, que aproveitou bastante a liberdade de improvisar concedida por Scorsese. Todos os atores dão o melhor de si e dão ainda mais força ao roteiro de Winter. Leonardo DiCaprio está impagável e consegue fazer seu personagem passear entre os extremos da insanidade e vulnerabilidade. Apesar das três horas de filme, eu assistiria mais dez minutos dele se arrastando e tentando entrar no carro. É uma pena que, mais uma vez, ele deve perder o Oscar e, dessa vez, para um colega de elenco: Matthew McConaughey (concorrendo por "Dallas Buyers Club"), que está ótimo em sua pequena participação, como o primeiro chefe de Jordan. Outro destaque é Jonah Hill. Se na época de "Moneyball" a sua indicação ao Oscar de Ator Coadjuvante causou certa estranheza, em "O Lobo de Wall Street" não há a menor dúvida.


Em um filme em que o que mais se vê é adoração (por parte dos personagens) ao dinheiro, sexo e drogas, o que fica no final é o sentimento que a simplicidade pode ser muita mais recompensadora. A cena final, com o agente Denham no metrô, junto com outros trabalhadores, faz uma forte antítese com o estilo de vida "living large" praticado por Jordan e pela maioria dos personagens do filme. E ainda mostra que coisas como voltar para casa de transporte público (algo que Jordan tinha usado para insultar o agente), acabam não importando diante da satisfação de conquistar algo com seu trabalho. Algo que Jordan Belford deve ter aprendido a essa altura. Ou não...

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Saldo Cinematográfico de 2013 (e melhores filmes)

Lá se foi mais um ano. 2013 foi bastante bom — aliás não me lembro da última vez que tive dois bons anos seguidos. Em 2012, fiz o módulo I (Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica) do curso do crítico de Cinema Pablo Villaça. Ano passado fiz o Módulo II (Forma e Estilo Cinematográficos). O bom desses cursos é que, além de adquirir conhecimento na área, você acaba conhecendo pessoas legais e fazendo amigos. Alguns deles já considero muito e são importantes para mim.

No blog, não consegui manter a minha meta pessoal de 1 post por semana, mas foram 41 posts, o recorde até hoje. Além disso, inaugurei duas novas seções: "Curtas" e "Fora de Série", expandindo os comentários da telona para a telinha.

Em 2013 assisti a 300 filmes, 228 vistos pela primeira vez e 72 revistos. Abaixo vou postar os meus filmes preferidos lançados em 2013, seja aqui ou lá fora. Os filmes que estarão na lista são os filmes que mais me divertiram, fizeram pensar ou de alguma forma eu os achei relevante. Não ouso dizer que "O Homem de Aço" é melhor que "O Mestre", por exemplo. Mas, dentre os dois, é o que me divertiu mais. Portanto, essa lista é mais pessoal do que objetiva. E, obviamente, são os filmes de 2013 que eu vi até a data do post.

Gravidade

A primeira nota 10 que dou, desde "A Origem", de Christopher Nolan. O filme é de um primor técnico e narrativo impressionante. Cuarón fez o que tantos disseram que ele não poderia fazer. Um milagre da tecnologia.

"Há muito tempo eu não saía do cinema tão satisfeito. 'Gravidade' vai muito mais além do 'filme-catástrofe' — é um belo conto sobre renascimento e, mais que isso, evolução. Os méritos da obra vão muito além dos aspectos técnicos. A produção beira a perfeição, graças especialmente ao roteiro dos Cuarón e a atuação iluminada de Sandra Bullock. A metáfora do renascimento de Ryan Stone como uma pessoa evoluída é linda e muito bem apresentada."

Crítica: http://isduarte.blogspot.com.br/2013/10/gravidade.html

Django Livre

Tarantino consegue de novo. "Django Livre" é um filme não só divertido, mas relevante. O diretor trata a escravidão de um modo visceral e com uma certa sensibilidade, deixando seu humor característico para os momentos corretos e de violência catártica.

"O filme conta uma incrível história de ascensão de um escravo liberto. As cenas fortes estão ali para criar um sentimento de revolta no espectador, para que a vingança de Django seja mais "justificável", para que o público se sinta vingado. E Tarantino faz isso com muita competência."

Crítica: http://isduarte.blogspot.com.br/2013/02/django-livre-oscar-2013.html

Círculo de Fogo

"Pacific Rim"estreou cercado de expectativas e cumpriu cada uma delas. Mesmo com um roteiro meio frágil, é um filmaço de encher os olhos e mexer com a criança interior de cada um. Robôs e monstros gigantes povoam nossa imaginação desde pequeno, e Guillermo Del Toro nos presenteia com um espetáculo visual de proporções épicas.

"Mesmo sendo cheio de metal e monstros, "Círculo de Fogo" não é um filme bruto, artificial, mas sensível, que envolve o espectador, principalmente pela força de seus personagens. O elo que Guillermo del Toro cria entre Raleigh e Mako é muito bonito. É emocionante quando, perto do final do filme, Raleigh diz à ela "All I have to do is fall, Mako. Anyone can fall". É verdade que a fala teria ainda mais peso se o destino de seu personagem fosse diferente, mas, por tudo o que significa, pela construção da cena, e interpretação de Charlie Hunnam (que merece ser mais conhecido) é um momento comovente e importantíssimo para a história do filme."

Crítica: http://isduarte.blogspot.com.br/2013/08/circulo-de-fogo.html

A Hora Mais Escura

"Zero Dark Thirty" consegue ser extremamente eficiente ao fazer um apanhado dos anos de  investigações do paradeiro de Bin Laden e ao analisar o efeito que a obsessão pelo terrorista causou na personagem principal, Maya (Jessica Chastain). Não é um filme com muita ação, mas, quando a narrativa é de tão alto nível, ela não faz falta.

"A morte de Bin Laden desperta sentimentos variados nas pessoas envolvidas na operação. O membro dos SEALs que o matou, mal acredita — afinal ele acabara de fazer história — enquanto os outros do grupo ficam eufóricos. Já Maya por outro lado, após reconhecer o corpo do terrorrista, não consegue esboçar um sorriso. Depois de dedicar os últimos dez anos de sua vida apenas caçando um homem que virou sua obssessão, ela se sente aliviada, porém perdida quando tudo acaba. Ela não saber o que responder quando o piloto a pergunta onde quer ir é o retrato perfeito disso. A vida dela era o dever cívico que aos poucos foi virando um desejo de vingança (ela deixa bem claro seu objetivo de Matar Bin Laden). Não havia nada além disso. E o filme termina exatamente onde a vida da personagem principal deve realmente começar."

Crítica: http://isduarte.blogspot.com.br/2013/03/a-hora-mais-escura-oscar-2013.html

A Caça

Se não fosse por "Amor", eu poderia dizer que "A Caça" foi o filme mais pesado do ano passado. A direção de Thomas Vinterberg e a atuação de Mads Mikkelsen fazem nosso coração doer com a história de Lucas, um professor injustamente acusado de pedofilia.

"O diretor e co-roteirista Thomas Vinterberg (Tobias Lindholm também assina o roteiro) consegue fazer com que um elo muito forte se crie entre nós, espectadores, e o personagem principal já que, além de nós, só o próprio protagonista e seu filho acreditam em sua inocência. Nos sentimos testemunhas de seu sofrimento, e vítimas da inocência de uma criança."

Crítica: http://isduarte.blogspot.com.br/2013/04/a-caca.html 

Amor

Todos sabem que uma das especialidades de Michael Haneke é mexer psicologicamente ou emocionalmente com o seu público. Em "Amor", é provável que ele tenha chegado ao ápice. Poucos filmes já mostraram o lado não bonito da velhice. E mais, até onde as pessoas vão para terminar o sofrimento de seus amados (ou de si mesmos — a questão permanece).

"Se 'O Lado Bom da Vida' foi o filme mais fell good que concorreu ao Oscar 2013, 'Amor' pode ser considerado como o mais devastador. Michael Haneke nos apresenta uma imagem muitas vezes poética, mas não muito feliz sobre o fim da vida. É um filme sobre não só o amor, a face mais bela da vida, mas também sobre a mais temível e triste — a morte."

Crítica: http://isduarte.blogspot.com.br/2013/03/amor-oscar-2013.html

Segredos de Sangue

Na sua primeira incursão em Hollywood, o diretor coreano Park Chan-Wook (de "Trilogia da Vingança") faz um belíssimo trabalho — ainda que a beleza habite mais na estética do que na narrativa do filme.

"Park Chan-Wook não decepciona (...), compensando a fragilidade da narrativa na forma como ele utiliza recursos visuais e metafóricos para enriquecer o estudo de seu personagem principal"

Crítica: http://isduarte.blogspot.com.br/2013/06/segredos-de-sangue.html

Além da Escuridão - Star Trek

Depois do reboot de sucesso de Star Trek nos cinemas, J.J. Abrams voltou com tudo nessa sequência do filme de 2009, fazendo um dos melhores blockbusters do ano. O filme é uma releitura de "A Ira de Khan", só que mais divertido, com melhores efeitos (óbvio), personagens mais elaborados (Benedict Cumberbatch está sensacional como o vilão Khan) e uma direção bem inspirada.

O Homem de Aço

Um filme que muita gente não gostou, mas, se não chegou a superar, atingiu minhas expectativas. Reconheço que é um filme com problemas (principalmente no roteiro), mas ao meu ver, os pontos fortes superaram os pontos fracos.

"Com todos esses altos e baixos, Zack Snyder faz um filme um pouco problemático, mas divertido e eficiente, conseguindo honrar a grandeza que esse personagem representa para a cultura pop. O diretor desmonta o mito de perfeição do Superman, um herói que precisava se inovar e se adequar ao mundo de hoje — um mundo menos colorido (como sua roupa) e onde fazer o certo pode significar sujar suas mãos (como a decisão que ele toma perto do final)."

Crítica: http://isduarte.blogspot.com.br/2013/07/homem-de-aco.html

É o Fim

Um daqueles filmes que você ama ou odeia. No meu caso, amei, e achei a comédia do ano.

"A forma como os atores interpretam a si mesmos e zoam os estereótipos criados em torno deles e os seus próprios filmes é sensacional. Enquanto alguns, como James Franco, dão corda para eventuais rumores sobre sua sexualidade (os seus sentimentos por Seth Rogen caminham na linha da ambiguidade), outros vão completamente contra a imagem criada durante os anos. Michael Cera é o exemplo mais forte e tem, provavelmente, a melhor atuação de sua carreira. Ele está doidão, sem limites. Impagável!"

Comentário: http://isduarte.blogspot.com.br/2013/11/curtas-e-o-fim-vhs-2.html
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Outros filmes que merecem menção: O Mestre, Invocação do Mal, Frances Ha, Os Miseráveis, Killer Joe, A Indomável Sonhadora, The World's End, Terapia de Risco e Evil Dead

Melhores filmes que vi em 2012, independente do ano: Chinatown (1974), Peixe Grande E Suas Histórias (2003), Argo (2012), Luzes da Cidade (1931), Tucker & Dale Contra o Mal (2010), As Vantagens de Ser Invisível (2012), O Poder e a Lei (2011), Mississipi Em Chamas (1988), Detona Ralph (2012), Flores do Oriente (2011), Trainspotting (1996), Desconstruindo Harry (1997), Annie Hall (1977), Beijos e Tiros (2005), O Substituto (2011), Triângulo do Medo (2009), A Febre do Rato (2011), O Show de Truman (1998), Um Estranho no Ninho (1975), Bullying (2011),

domingo, 29 de dezembro de 2013

[Curtas] Especial Woody Allen

Eu não sou um exímio conhecedor da vasta filmografia de Woody Allen. Se vi metade de suas 48 produções, é muito. Mas como admirador de sua arte, decidi fechar 2013 com um especial desse roteirista/diretor, que pode ser pequeno em altura, mas é grande em genialidade. Aqui no blog eu só havia escrito um texto sobre "Meia Noite Em Paris", que, misteriosamente, foi apagado. Escolhi 7 filmes para comentar. O critério da escolha não foi por ordem de preferência ou fase da carreira (apesar da maioria ser da década de 70). Como tenho visto vários dos seus filmes, escolhi os que vi recentemente e, portanto, tenho mais base para comentar.

Bananas (1971)

"Bananas" foi apenas o terceiro filme da carreira de Allen e percebe-se que, mesmo ainda mostrando um pouco de inexperiência, ele já era genial. O humor, bem mais cru que em seus filmes atuais, lembra bastante Monty Python em alguns momentos, e, apesar de não tanto como em "O Dorminhoco", ainda há referências a Charlie Chaplin (a máquina que permite fazer exercícios sem parar de trabalhar remete a "Tempos Modernos", e o seu encontro com Stallone no metrô, junto com a trilha sonora do momento, lembra as caretas que Chaplin fazia em situações controversas). Destaque também para a piada com a trilha sonora — na sequência no quarto do hotel —, que é, na verdade, diegética. E isso tudo ainda fazendo uma crítica política aos EUA, que já chegou a "patrocinar" ditaduras na América Latina (e até no Oriente Médio) naquele tempo.
Mesmo apelando para um humor pastelão demais em alguns momentos, "Bananas" consegue divertir bastante ao trazer momentos hilários e de um humor bem sagaz.


A Última Noite de Boris Grushenko (1975)


Mais um filme do diretor que parece transbordar criatividade. Me impressiona como ele acha cenários tão diferentes e bizarros para fazer suas reflexões, e como elas são acompanhadas de humor de primeira categoria. As piadas com as palavras, com o idiota do vilarejo, as suas experiências com a morte e os momentos de subjetividade mental (quando "entramos" na mente dos personagens, no caso, Boris e Sonja) são alguns pontos altos do filme.
Como em outros filmes, até há vezes que as piadas não funcionam, mas os grandes momentos nos fazem relevar essas partes.
Apesar de ter algumas coisas que me incomodam, "Love And Death" (no original) talvez tenha lugar no meu Top 5 do diretor.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)

Meu preferido do Woody Allen até agora. Roteiro criativo e divertido, montagem perfeita, e boa atuação e direção do Allen. A Diana Keaton está demais e mereceu o Oscar.
O recurso da quebra da quarta parede, apesar de ser utilizado várias vezes, não cansa e é bem utilizado, pois funciona bem dentro do propósito do filme. Assim como a imaginação de Alvy o permite "conversar" com figuras do seu passado, ela também o permite conversar conosco.
"Annie Hall" (que recebeu um título bizarro no Brasil), é um filmaço, que não é só bem escrito, mas se utiliza muito bem da linguagem cinematográfica, se transformando num belo estudo sobre Cinema.

Manhattan (1979)


Ao mesmo tempo em que "Manhattan" é uma homenagem à Nova York (quando todos os personagens "abandonam" Isaac, ele ainda tem, e sempre terá, a cidade pela qual é apaixonado), o filme é um belo conto sobre a efemeridade do amor, dos relacionamentos e de nós, humanos. Não à toa Isaac e Yale discutem sobre toda a questão numa sala com vários esqueletos.
Um dos melhores filmes do Woody Allen, na minha opinião. Personagens interessantes, roteiro inteligente (como se isso fosse novidade), e uma ótima fotografia.


Rosa Púrpura do Cairo (1985)


Gosto muito de como o Woody Allen faz esse diálogo recorrente entre realidade e fantasia nos seus filmes — sendo a fantasia quase sempre mais interessante que a realidade. Apesar de eu não gostar tanto de "Meia Noite em Paris" (podem me chamar de insensível), curti bastante esse "A Rosa Púrpura do Cairo" e, ainda mais, "Desconstruindo Harry", por exemplo.
No geral, achei um bom filme, apesar de um pouco meloso e inocente demais em alguns momentos.

Desconstruindo Harry (1997)


Um dos filmes mais criativos e um dos melhores que vi até agora. Mais uma vez Woody Allen mistura realidade e ficção, mas dessa vez de uma forma bem mais eficiente e divertida que em "Rosa Púrpura do Cairo", por exemplo. É bem interessante a forma como o protagonista Harry pegava características de conhecidos para criar personagens.
E nesse filme vemos um Woody Allen mais "sujo", com um humor mais pesado. O sexo, por exemplo, sempre esteve presente em seus filmes, mas se você pegar obras mais recentes como "Vicky Cristina Barcelona", ou até "Match Point", nota que esse elemento é usado mais com um teor sensual do que sexual mesmo. Em "Desconstruindo" — como em outros filmes antigos de sua fase mais antiga —, Allen, aborda o tema sem frescura, não tão visualmente, mas na maioria dos diálogos, até porque o sexo faz bastante parte da vida do protagonista.
Gostei também da forma como o diretor brinca com elementos da linguagem cinematográfica, como o ator fora de foco (que funciona como metalinguagem), os vários cortes numa só sequência (que funcionam como pequenas elipses), etc.
Um grande filme.

Tudo Pode Dar Certo  (2009)


Um filme que já começa quebrando a 4ª parede (em "Annie Hall", o recurso é usado mais para frente) do jeito que o personagem de Larry David faz, ou será um filme descompromissadamente divertido ou vai acabar caindo na sua própria pretensão. Porém, vindo do Woody Allen, é mais provável que seja a primeira opção. E ele não decepciona.
O filme é cheio de diálogos geniais (principalmente por parte do Larry David, que interpreta uma versão do próprio Allen em filmes anteriores) e personagens que, a princípio, podem nem ser tão interessantes, mas que tomam rumos super inesperados, justificando a presença deles ali, e somam muito na história.
No elenco, Larry David e a sempre ótima Patricia Clarkson se destacam. Já Evan Rachel Wood não consegue convencer como "a menina sulista inocente". Até porque já faz um tempo que ela não tem cara de menina. Muito menos inocente. Achei que o personagem dela ficou muito caricato.
Depois de dois filmes mais sérios ("O Sonho de Cassandra" e "Vicky Cristina Barcelona"), Woody Allen volta para a Comédia, e para Nova York — quase como um retorno às suas origens. E ele volta inspirado. "Whatever Works" é um ótimo filme.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Gravidade


★★★★★
Excelente


Alfonso Cuarón é um diretor que prima pela qualidade sobre a quantidade. Em quase 20 anos de carreira cinematográfica, ele tem apenas 6 longas em sua filmografia (e um segmento em "Paris, Eu Te Amo"), onde "E Sua Mãe Também", "Harry Potter E O Prisioneiro de Azkaban" e, principalmente, o seu último filme, "Filhos da Esperança", se destacam. Sete anos depois de "Filhos", o diretor mexicano reaparece com a que pode ser a obra prima de sua carreira.

"Gravity", no original, conta a história de Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) e Matt Kowalsky (George Clooney), dois astronautas que, ao fazerem uma operação de rotina fora da nave, são surpreendidos por uma chuva de lixo espacial que destrói a nave e os deixa à deriva no espaço ligados apenas um ao outro por um cabo. Correndo contra o tempo, os dois terão que fazer de tudo para conseguir chegar à outra estação espacial e conseguir se salvar.

Eu nunca estive e, provavelmente, nunca irei ao Espaço, mas o que experimentei durante os 90 minutos de projeção de "Gravidade" deve ser a coisa mais próxima da experiência que é estar a centenas de quilômetros acima da Terra. O filme é de um primor técnico impressionante. A edição e mixagem de som, combinados com a fotografia de Emmanuel Lubezksi ("Árvore da Vida") imergem o espectador nesse "mundo" escuro e sem som. O design de produção recria o interior das naves e estações espaciais com detalhes impressionantes.


Esses elementos ainda são somados à câmera de Cuarón, que, num lugar onde é impossível a vida, parece viva ao passear pelo espaço, como numa bela dança, enquanto nos mostra a imensidão de um lugar tão hostil.
Em "Filhos da Esperança", já pudemos ver o apreço que o diretor tem por longos takes e planos-sequência, com dois planos de tirar o fôlego — um passado todo dentro de um carro e o outro seguindo o protagonista interpretado por Clive Owen em meio a uma revolta de rebeldes. Em seu novo trabalho, Cuarón mais uma vez cria com maestria planos que duram minutos, sejam apresentando os personagens, no início do filme, ou os seguindo em seus momentos de tensão.

É muito bonito, também, a forma como o diretor utiliza por várias vezes a câmera subjetiva, se aproximando do capacete do personagem, "entrando" pelo vidro e, enfim, assumindo o seu olhar. Outras vezes, querendo mostrar o que os personagens veem e suas reações, Cuarón usa um primeiríssimo plano, inteligentemente focando nos seus rostos e, pelo reflexo do vidro do capacete, exibindo o que acontece.


Essa subjetividade é importantíssima para nos fazer entrar na mente do personagem e sentir na pele o que ele passa. Porém, isso não teria efeito se não fosse o roteiro escrito pelo próprio Cuarón e seu filho, Jonas, a precisa montagem e as atuações maravilhosas de George Clooney e, principalmente, Sandra Bullock. Seis meses foi o tempo que sua personagem passou em treinamento para a missão no espaço e foi também o tempo que Bullock levou se preparando fisicamente para o papel, enquanto estudava cada detalhe do roteiro e de sua atuação junto com o diretor. O resultado é uma das melhores atuações do ano.

Dentro do limite de tempo, os dois personagens principais são bem desenvolvidos. Matt Kowaski é um astronauta prestes a se aposentar, boa pinta e bem humorado, que ajuda a aliviar a tensão em alguns momentos. Ryan Stone é uma médica em sua primeira missão espacial. Logo sabemos que ela recentemente sofreu uma tragédia pessoal e entendemos o motivo (ou um deles) que a levou a ir trabalhar no espaço. Apesar de continuar com seus deveres, depois do trauma ela para de viver. Esse elemento do seu passado a faz ficar a vontade com o silêncio oferecido pelo espaço.

[Desse ponto em diante, haverão spoilers sobre momentos-chave da trama do filme]


A partir desse momento, o verdadeiro significado do filme começa a se desenhar e podemos aos poucos perceber do que a história contada se trata. Já não estamos mais assistindo a um filme sobre uma astronauta em perigo, e sim, estamos testemunhando o renascer de uma pessoa. Isso é muito bem ilustrado com o belíssimo plano em que Stone, após conseguir entrar na estação russa e tirar seu equipamento, é enquadrada flutuando por alguns segundos em posição fetal enquanto descansa, remetendo a um bebê no útero.

Uma vez que o sentido principal é entendido, o filme deixa de ser apenas uma obra bonita, para se tornar algo intenso, uma experiência autêntica. Não há nada mais lindo do que o renascimento da vida numa pessoa — a vida como um sentimento, e não como um período de tempo. Interiormente, Ryan morre junto com sua filha. Não havendo mais pelo que viver, ainda na Terra, ela vivia o resto dos seus dias dirigindo, sem rumo, pois era assim que ela se sentia. Todavia, quando ela olha nos olhos da morte, várias vezes (sim, os obstáculos do filme parecem ser um pouco excessivos), ela descobre uma força que nunca imaginou ter. Se revela, então, um do maiores conceitos do filme: do ambiente mais estéril conhecido, nasce uma vida.


Mas Cuarón não para por aí. A última sequência, além de reafirmar a ideia do renascimento com Ryan "reaprendendo" a andar — no espaço, ela estava em gestação, como o plano já citado apresentou, enquanto seu nascimento se deu com sua chegada à Terra —, guarda um significado ainda mais profundo. Depois de quase se afogar, a personagem nada em direção a superfície, mas, alguns segundos antes disso, uma rã é vista também emergindo. A rã, que, como todos sabem, é o estado evoluído do girino após sofrer metamorfose, é inteligentemente posta nessa sequência em particular para indicar que Ryan evoluiu. Ela é um novo ser. E não só isso. Notem como a personagem, da água, vai lentamente se arrastando até a margem, até conseguir se levantar — como a vida terrestre teve início. A câmera ainda a enquadra de baixo para cima, a fazendo ficar maior e apontando sua mudança. Nesses segundos o diretor recria, ou melhor, personifica os milhões de anos de evolução na figura de Ryan Stone.

Por ser um filme quase todo passado no espaço e com muitas metáforas, comparações com o clássico "2001 - Uma Odisseia no Espaço" já foram feitas. Mas os dois diferem muito entre si. A obra de Stanley Kubrick se encaixa muito mais no gênero ficção científica que a de Cuarón, que pode ser classificado como um suspense dramático. Enquanto "2001" aborda a evolução numa maneira muito mais extensa (e ainda influenciada por terceiros), "Gravidade" é um filme muito mais pessoal, onde a evolução é intrínseca.


Com seu novo trabalho, Cuarón mostra que, para um filme ser genial, não precisa ter uma trama complicada. Mesmo quem não conseguir ler nas entrelinhas, poderá gostar do longa por sua simples história de superação da personagem de Sandra Bullock ante uma catástrofe e vários empecilhos. Algo muito diferente do próprio "2001", que é um filme tão comprometido com sua mitologia que não permite ao espectador que não entender a trama curtir o filme.

Há muito tempo eu não saía do cinema tão satisfeito. "Gravidade" vai muito mais além do "filme-catástrofe" — é um belo conto sobre renascimento e, mais que isso, evolução. Os méritos da obra vão muito além dos aspectos técnicos. A produção beira a perfeição, graças especialmente ao roteiro dos Cuarón e a atuação iluminada de Sandra Bullock. A metáfora do renascimento de Ryan Stone como uma pessoa evoluída é linda e muito bem apresentada. O filme, sem dúvida, já é um dos melhores do ano e será lembrado por muito tempo.

"It's time to stop driving. It's time to go home."

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

[Curtas] Invocação do Mal / Elysium / Guerra Mundial Z

Invocação do Mal

★★★★☆
Ótimo

Filme tenso do início ao fim. James Wan ("Sobrenatural", "Jogos Mortais") sabe criar o suspense como poucos diretores atuais. Quando ele cria o clima e o susto vem, você fica com raiva por ter tomado o susto. E quando ele cria o clima e o susto não vem, você fica com raiva porque queria ter tomado o susto. Ele te tem na mão o tempo todo. Sabe brincar com as expectativas dos espectadores e com os clichês do gênero, que, sim, tem em abundância.
Outra coisa que o diretor acertou foi não expor muito os espíritos, que raramente são vistos de corpo inteiro. Aliás, num momento em especial, não vemos NADA do espírito, que só é visto por uma personagem. E a sequência é aterrorizante. Essa sensação de não sabermos muito bem com o que estamos lidando, cria uma tensão maior ainda. Por sinal, um dos grandes defeitos de "Mama", outro filme de terror bem esperado esse ano, foi a super exposição do espírito.

Além disso tudo, o filme é esteticamente inteligente. Os movimentos de câmera e enquadramentos são bem legais e auxiliam na criação tanto das sequências mais leves (como a família conhecendo a casa nova), quanto das mais pesadas (as de assombração). As atuações também são ótimas, inclusive do elenco infantil.

Enfim, James Wan sabe o que faz. "Sobrenatural: Capítulo 2" vem aí. Que seja tão bom quanto o primeiro.

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Elysium


★★★☆☆
Bom

"Elysium" tem uma boa premissa, mas é prejudicado por alguns problemas sérios, como personagens unidimensionais e clichês, e o ritmo corrido, que não dá espaço para o desenvolvimento dos próprios personagens e de certos pontos da trama.

Mas, no geral, até que gostei do filme, mesmo com suas perceptíveis falhas.
E se Neill Blomkamp usa "Distrito 9" (que acho bom, mas não isso tudo que falam) como uma alegoria para discutir o Apartheid, "Elysium" pode ser interpretado como uma metáfora da situação da fronteira entre México e Estados Unidos.
Se Blomkamp tivesse trabalhado um pouco mais no roteiro, "Elysium" poderia ter sido um filmaço. Mas com suas falhas, ele consegue fazer "apenas" um bom filme.

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Guerra Mundial Z


★★★☆☆
Bom

Desde que vi o trailer pensei que eu não ia gostar do filme. Sou fã dos zumbis lentos e maquiados de George Romero, que realmente parecem mortos vivos. Pelo trailer já tinha dado pra perceber que os zumbis de “World War Z” pareciam super humanos, com incrível velocidade, capazes de dar longos pulos e, ainda por cima, criados por computação gráfica, os fazendo artificiais. Mas devo dizer que me surpreendi com o filme.

Essas questões realmente me incomodaram (os efeitos digitais são fracos para uma produção desse tamanho, e não só os zumbis são notadamente artificiais, mas outras coisas, como helicópteros e até pessoas “normais”), mas o filme tem vários pontos fortes que me fizeram relevar tais problemas. Um deles é a narrativa, que é legal por ser quase dividida em fases ou missões, parecendo um jogo. Mesmo assim, essas “fases” são bem amarradas, dando um ritmo fluido ao filme. O roteiro, que passou por 6 mãos até parar nas de Damon Lindelof (Prometheus, Star Trek) e Drew Goddard (O Segredo da Cabana), que tiveram que reescrever todo o terceiro ato, é bem eficiente e ainda apresenta uma solução original para, se não a cura da pandemia zumbi, que a humanidade ainda tenha uma chance. Fora outros elementos que foram adicionados por eles, como a asma de uma das filhas de Gerry (Brad Pitt), que poderia ser usada apenas como fator dramático ou de suspense em alguma cena, mas é inteligentemente usada para desenvolver a figura paterna de Gerry, que ajuda a filha
a superar uma crise da doença.

Por fim, Guerra Mundial Z não é um “filme de zumbi”, expressão que já virou praticamente um sub gênero. Não é uma produção em que um grupo de sobreviventes passa o tempo todo fugindo e se escondendo dos zumbis. Mas sim um suspense de investigação da origem de uma epidemia. Para ilustrar melhor, é uma mistura de “Contágio” com “Extermínio 2″. Há uma praga que transforma pessoas em mortos vivos, e a cura precisa ser encontrada antes que tudo seja perdido. Portanto, os zumbis movem a história, mas não são a história.
Mesmo com seus problemas, é um filme que funciona.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

[Curtas] Sombras da Noite / Em Transe

Sombras da Noite

★★☆☆☆
Razoável

O problema maior de "Sombras da Noite" é o terceiro ato. Os dois primeiros têm seus problemas, mas até são divertidos. O clímax é bem fraco, e a cena final, dispensável. O mais legal mesmo do filme é a adaptação do vampiro Barnabas (Johnny Depp) aos novos tempos e a exploração de seu lado estranho, como ele dormir em lugares bizarros e até aquela cena em que ele fica encarando que nem um gato aquela luminária do quarto da Carolyn (Chloe Grace Moretz) que ele pensava conter sangue.
No geral, o elenco é bom e gostei bastante do Depp. É mais um personagem excêntrico que ele tem sucesso em compor. E as boas falas de Barnabás ajudam na criação dessa figura interessante, para dizer o mínimo.

Se fosse um filme mais centrado na família e que não tivesse a obrigação de ter cenas de ação, "Sombras da Noite" poderia ter dado mais certo, pois elas acabam sendo o maior ponto fraco do filme, por 1- não serem empolgantes; 2- terem revelações que acabam soando ridículas [selecionar o texto a seguir para ler o spoiler] (Carolyn ser lobisomem); 3- e pela própria conclusão com um deus ex machina (o fantasma aparece do nada e vencer a bruxa? Sério???)

Mas, apesar de tudo isso, ainda acho o filme melhor que "Alice". Tim Burton anda vacilando ultimamente, com uma filmografia irregular. Espero que ele se reencontre.
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Em Transe

★★☆☆☆
Razoável

"Trance" é tecnicamente muito bonito e tem uma estética visual inteligente (apesar de abusar de certas marcas, como planos inclinados), mas narrativamente decepciona com uma trama pretensiosa, feita para enganar, ou melhor, confundir o espectador.

Um filme, mesmo complexo, precisa dar ao espectador pistas para que ele possa desvendar a história. "Em Transe" não faz isso (pode até fazer em alguns momentos de transe, mas não para a descoberta dos pontos chave da história) pois, não bastasse o grande emaranhado de real e imaginário que o filme faz, o que é revelado ao final (com dois plot twists) é extremamente difícil que seja descoberto por alguém.

É um roteiro com um grande ego que, se orgulhando de ser TÃO inteligente, em vez de nos levar para dentro do filme, nos faz apenas de espectadores passivos, esperando uma explicação. Até porque, já que sugestão hipnótica é tão fácil, TUDO que estávamos vendo podia não ser real.
Porém, mesmo com esses problemas, o filme tem muitas qualidades, como a já citada estética, a fotografia e o elenco, que está muito bem (principalmente o trio principal formado por James McAvoy, Rosario Dawson e Vincent Cassel).

Para um filme que fala tanto em identidade, acho que faltou um pouco disso em Em Transe. É um filme que não tem alma. Por ter muitas qualidades, não chega a ser ruim, mas confesso que Danny Boyle dessa vez me desapontou.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Círculo de Fogo


★★★★★
Excelente

Conhecido por seus filmes de terror e fantasia, como "O Labirinto do Fauno", "A Espinha do Diabo" e "Hellboy", o multitarefa Guillermo Del Toro — que já havia produzido "Mama" esse ano — dessa vez se joga de cabeça num sonho antigo seu (e de 90% dos jovens que cresceram  principalmente nos anos 80 e 90): um filme sobre monstros contra robôs gigantes.

Na trama, legiões de monstruosas criaturas, conhecidas como Kaiju, começam a emergir do Oceano (mais precisamente do Círculo de Fogo do Pacífico) e destruir cidades ao redor do mundo, matando milhões de pessoas. Quando as armas convencionais não se mostram o bastante para deter os monstros, a Pan Pacific Defense Corp começa a criar enormes robôs controlados por dois pilotos para defender as cidades. Nasce o Programa Jaeger. A princípio um sucesso, os Jaegers não conseguem resistir por muito tempo devido às aparições cada vez mais frequentes dos Kaijus e ao custo e demora na fabricação e reparo dos robôs.
A PPDC, então, decide suspender os fundos do Programa e dar prioridade à construção de muros em volta das cidades. Contrariado com a decisão, Stacker Pentecost, o responsável pelo Programa Jaeger, decide levar os quatro Jaegers remanescentes para o último post de batalha em Hong Kong, onde pretende liderar um ataque final.


Uma das coisas mais legais do filme é subverter a máxima do herói de ação, na maioria das vezes, americano. Em "Pacific Rim" (título original), a Pan Pacific Defense Corp, organização criada para defender a humanidade dos Kaijus é transnacional. Pentecost, o comandante do Programa Jaeger, é britânico e as equipes que pilotam os quatro robôs principais são da China, Rússia, Austrália e, no caso do Gipsy Danger, um americano e uma japonesa. Raleigh Becket (Charlie Hunnam, da série "Sons Of Anarchy"), um piloto aposentado e traumatizado por um evento do passado, e a inexperiente Mako Mori (Rinko Kikuchi, de Babel) são os personagens principais que se levantam como heróis quando tudo dá errado. E, apesar de Becket ser o óbvio protagonista, uma vez que a personagem de Mori é apresentada, a trama começa a girar em torno dela. Vemos a história através dos olhos de Becket, mas é Mori quem se torna a protagonista do filme.


Se um filme de ação/ficção científica com uma heroína já não é comum em Hollywood, um filme em que a heroína não seja sexualizada, é raridade. Del Toro queria que os personagens e seus dramas fossem o foco do longa, e não seus físicos (ainda assim ele presenteia as mulheres com um Charlie Hunnam sem camisa por alguns segundos) ou, ainda vou mais longe, os robôs. Sim, os robôs são as coisas mais divertidas no filme, mas sem os humanos, eles são milhares de toneladas de metal inanimado. A "alma" desses seres gigantes é o que os move, assim como a alma dos personagens é o que move o filme. Um elemento bem inteligente (e legal, vai!) que mostra isso é a conexão neural que os pilotos precisam fazer para pilotar os Jaegers. Duas pessoas (ou três, no caso dos chineses) compartilharem as mentes quer dizer compartilhar alegrias, tristezas, virtudes, defeitos, medos, decepções, fraquezas, traumas, e tudo o que nos faz humanos. Dentro de um Jaeger os pilotos — e o robô — se tornam um.

O significado disso é muito mais profundo e interessante do que qualquer embate entre um Jaeger e um Kaiju. E devo dizer que as batalhas são excepcionais. Apesar de serem feitas completamente com computação gráfica, não há uma cena em que os movimentos — seja dos seres gigantes, do mar, ou dos ambientes destruídos — soem artificiais. Del Toro e o supervisor de efeitos especiais, John Knoll, passaram semanas discutindo a física dos Jaegers e Kaijus e até os detalhes da reação que eles causariam nos ambientes (como o tremor das janelas de prédios causados pelo deslocamento de ar quando um Jaeger passa por eles). O resultado são efeitos visuais muito reais e impressionantes.


Um elemento que chama atenção na fotografia do filme é as cores, que são bem fortes. Pela primeira vez, Guillermo del Toro e Guillermo Navarro (diretor de fotografia com quem já trabalhou várias vezes) optaram pelas câmeras Red Epic, que tem uma saturação bem intensa de cores — muito maior do que uma câmera analógica. Essa intensidade das cores dá ainda mais vida aos planos que sempre buscam ostentar o tamanho das imensas criações do diretor, frequentemente os mostrando de baixo e os comparando com outros objetos e construições enormes, como arranha-céus, pontes, e até a própria profundidade do mar, onde os Jaegers raramente ficam submersos. Um momento que ilustra bastante essa ideia de proporção e que, particulamente, eu esperava muito desde que vi o trailer, é quando Gipsy Danger usa um navio cargueiro como espada, na batalha contra um Kaiju em Hong Kong (cidade onde a maioria da ação acontece). É um daqueles raros momentos em filmes pipoca em que penso "gostaria ter tido essa ideia" — a sequência da explosão do gramado enquanto um jogador faz um touchdown, em "Batman - O Cavaleiros das Trevas Ressurge", é outro momento desses.

Apesar de suas muitas qualidades, porém, o filme tem seus pontos fracos. A maioria deles mora no roteiro escrito por Travis Beacham e pelo próprio del Toro, que abusa de personagens, situações e diálogos clichês. Temos o comandante casca grossa (o sempre ótimo Idris Elba, de "Prometheus"), o piloto arrogante que rivaliza com o mocinho e o cientista maluco que funciona como escape cômico. Aliás, em "Círculo de Fogo" é uma dupla de cientistas — Newt Geiszler e Gottlieb, irritantemente interpretados por Charlie Day e Burn Gorman, respectivamente. Outro personagem responsável pelo humor é Hannibal Chau, um vendedor de partes de Kaijus no mercado negro, interpretado por Ron Pealman (também de "Sons Of Anarchy", e "Hellboy").
Há ainda situações que soam artificiais, como quando Becket e Mori "checam o pulso" de um Kaiju já morto. Percebe-se claramente que é uma cena apenas com o objetivo de impactar visualmente. Provavelmente na cabeça de Del Toro a cena teria um efeito empolgante ou até cômico quando, na verdade, soa bobo.


Entretanto, os visíveis defeitos e tropeços no roteiro não tiram o mérito do diretor e de seu filme excelente, que não só funciona como bom entretenimento, mas também é capaz de despertar a criança interior de muitos marmanjos, que certamente sentirão uma sensação de nostalgia vendo as batalhas colossais.
E, mesmo sendo cheio de metal e monstros, "Círculo de Fogo" não é um filme bruto, artificial, mas sensível, que envolve o espectador, principalmente pela força de seus personagens. O elo que Guillermo del Toro cria entre Raleigh e Mako é muito bonito. É emocionante quando, perto do final do filme, Raleigh diz à ela "All I have to do is fall, Mako. Anyone can fall". É verdade que a fala teria ainda mais peso se o destino de seu personagem fosse diferente, mas, por tudo o que significa, pela construção da cena, e interpretação de Charlie Hunnam (que merece ser mais conhecido) é um momento comovente e importantíssimo para a história do filme.

"Círculo de Fogo" é um dos melhores filmes do ano, mas com um texto mais cuidadoso seria ainda melhor do que já é. Não é uma produção que visa premiações, ainda assim é capaz de tocar e envolver o público de uma forma que muitos filmes oscarizados não conseguem.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

[Curtas] Only God Forgives / Invasão À Casa Branca

Only God Forgives 
★★☆☆☆
Razoável

Um filme visualmente marcante, mas que falha nas questões mais básicas numa produção cinematográfica. A belíssima fotografia, design de produção e direção de arte não salvam o filme, que tem uma trama desinteressante, personagens sem um pingo de carisma e atuações fracas. O diretor foi de Drive (um filmaço), para isso.

"Only God Forgives" é bonitinho, mas ordinário.
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Invasão À Casa Branca
★★☆☆☆
Razoável

Seria mais legal se fosse um filme da série "Duro de Matar". Os filmes do John McClane são forçados, mas com orgulho. É uma linha de filmes de ação sem compromisso com a realidade, visando apenas o entretenimento. Aí esse "Olympus Has Fallen" quer se levar a sério, forçando a barra, com um tom solene, até épico... Complica.
O McClane no lugar do Mike Banning, e um tom mais leve, faria o filme ser bem melhor.
E de acordo com o filme, os EUA são responsáveis pela paz mundial. Tirando a sua frota do lugar desencadearia um caos nuclear. Menos, né...

Mas, como um filme de ação, é bem decente. O problema mesmo é o complexo americano de Deus e as forçações da história.

domingo, 14 de julho de 2013

O Homem de Aço


★★★★☆
Ótimo

Talvez a maior ironia em relação ao Super Homem, o super herói mais famoso da história, é que sua indestrutibilidade é seu maior ponto fraco na disputa com outros heróis pela preferência do público. Com toda sua força, poderes e praticamente nenhuma fraqueza, o kryptoniano se distancia de heróis mais humanos (no sentido falível da palavra), como o Homem Aranha, um fotógrafo pobre com poderes adquiridos por meios radioativos, e Batman, que, apesar de milionário, é um dos heróis mais humanos, por sua vulnerabilidade física e emocional.

A dificuldade de adaptar o personagem para a telona é percebida só de olhar a carreira de Clark Kent no Cinema. Dos 5 filmes lançados, apenas os dois primeiros, de Richard Donner e Richard Lester, são tidos como relevantes. Portanto, Zack Snyder — diretor com muitos filmes de ação no currículo, como "300", "Sucker Punch" e "Watchmen" (um dos melhores filmes de super heróis já feitos) — sabia do peso da responsabilidade (e das duas centenas de milhões de dólares, diga-se de passagem) que estava em suas mãos. Com o sucesso cada vez maior da Marvel, e com o término da saga do Batman, a Warner Bros. precisava de uma nova "super saga" urgentemente. Falhar não era uma alternativa.

E a boa notícia é que Zack Snyder não decepciona. "Man Of Steel", filme mais sobre Kal-el do que Clark Kent, mesmo com seus defeitos, é um ótimo filme, além de ser diferente de tudo que já vimos em adaptações do Superman para as telas, grandes ou pequenas. Esqueça a famosa trilha sonora de John Williams, o inocente e unidimensional Super Homem de Christopher Reeve, a baboseira de defender o "jeito americano" e tudo referente ao filme de Donner e suas sequências. "O Homem de Aço" é bem mais maduro e sério. E isso já era esperado pela presença de dois grandes nomes envolvidos no projeto: Christopher Nolan e David S. Goyer — ambos vindos da trilogia do Cavaleiro das Trevas. Enquanto Nolan aparece apenas como produtor dessa vez, Goyer é responsável pelo roteiro.


A trama de "O Homem de Aço" apresenta muitos elementos de ficção científica, e essa característica é percebida logo nas primeiras cenas do filme, ambientadas em Krypton. Snyder faz uma remontagem bem curiosa do Planeta natal de Kal-el, com um território aparentemente hostil, visualmente decadente, que contrasta com a tecnologia avançada dos kryptonianos — a própria exploração de recursos naturais condenou o planeta a destruição. Aliás, algo bem interessante no design de Krypton é essa contradição entre o moderno e o arcaico. Ao mesmo tempo em que o povo kryptoniano é muito avançado tecnologicamente, seus habitantes mais importantes usam armaduras de batalhas, como os povos antigos da Terra, e suas máquinas, mesmo com visuais "orgânicos", estranhamente parecem datadas. A concepção de arte e o design de produção do filme parecem ter se inspirado nas obras de H.G. Giger. As armaduras, máquinas e cenários de "O Homem de Aço" remetem às obras do criador do Alien mais temido do cinema.

Possivelmente um dos maiores erros do roteiro de Goyer comece exatamente depois da introdução em Krypton — em que, sabendo que o planeta vivia seus últimos dias, Jor-el manda o seu filho recém-nascido para a Terra, contrariando General Zod, que promete achá-lo de qualquer maneira. De lá, somos apresentados a Clark já adulto, trabalhando num barco pesqueiro, onde pela primeira vez vemos um momento heroico do personagem. O problema é a mudança brusca de ambiente. Das cenas de ação em Krypton, o filme já leva o espectador para uma cena de ação no meio do mar. Não há preparação, naturalidade. A partir daí o filme conta a infância de Clark (Lana marca presença rapidamente) e a descoberta de seus poderes por meio de flashbacks, o que pode não ter sido uma boa escolha, por ser um filme sobre a origem de um herói. Por outro lado, a narrativa sendo linear, implicaria em desenvolver bem mais a infância do menino kryptoniano, e não apenas rápidas sequências. O filme, que já tem 140 minutos, poderia ficar bem maior.


A trama ainda tem outros dois problemas que incomodam: a utilização além do necessário de Jor-el (a sua consciência não serve apenas como guia para Kal-el descobrir sua origem) e o paralelo constante de Kal-el com Jesus Cristo — principalmente na sequência da igreja, onde ele divide um enquadramento com a imagem de Jesus num vitral, de maneira nada sutil.
Entretanto, se o roteiro vacila em alguns momentos, acerta em muitos outros, principalmente na construção de Kal-el como pessoa e herói, mesmo que seja algo diferente do que estávamos acostumados. Como nunca antes, vemos e sentimos Clark como um peixe fora d'água. Sofrendo na sua infância com a descoberta de suas habilidades (a frase "Pessoas têm medo do que não entendem" dita por Jonathan para Clark, vale para o próprio, que não entendia o porquê de ser diferente) e quando adulto, vagando de um lugar para o outro, como um nômade — porém, mais sem identidade do que lar.

Apesar de ser filho de dois mundos, Kal-el é estranho em ambos, já que é um alienígena na Terra e, por ser filho de concepção natural, uma abominação para os Kryptonianos — que nasciam já com uma "classe" e propósito estabelecidos (Jor-el, cientista, e Zod, Guerreiro, por exemplo). Todavia, como tudo no filme, há os dois lados da moeda, pois, ainda que não pertença a nenhum dos dois mundos, ele é o único ser livre de sua raça e um deus na Terra. Até Zod, inimigo mortal do Superman e um dos últimos sobreviventes de Krypton, é escravo de sua predestinação. Ele nasceu para proteger seu planeta e irá até o fim para isso.

E até o fim ele vai. Superman precisa testar toda a sua força para parar Zod e salvar a Terra, nem que para isso leve arranha-céus e todo tipo de construções abaixo. O resultado (meio over, é verdade) são cenas espetaculares de luta e destruição em Smallville, Metropolis e até no Espaço. Sim, se você achou que "Superman Returns" não teve ação o suficiente, já aviso que "Man Of Steel" é um prato cheio. O nível de destruição é capaz de ter levado Michael Bay às lágrimas, de alegria e emoção.


Outra coisa resgatada pelo filme, é o carisma do Superman, graças ao britânico Henry Cavill. Ele consegue passar para o público a solidão e o peso que o kryptoniano tem nas costas, com todas as nuances pedidas pelo personagem. Um exemplo de sua boa atuação é num flashback onde Clark, ainda adolescente, discute com seus pais. Em nada lembra o Clark calado que vemos na maioria do filme. Amy Adams interpreta uma Lois Lane forte e decidida, que foge da donzela que sempre precisa ser salva do vilão. Michael Shannon tem sucesso ao dar a Zod uma aura realmente ameaçadora, já o Jor-el de Russel Crowe representa a figura paterna e sábia. Outra figura paterna muito bem representada é Jonathan Kent. Kevin Costner, o melhor no elenco, não precisa de muitos momentos para brilhar como o pai de Clark Kent. Diane Lane também aproveita seu pouco tempo na tela para esbanjar sensibilidade, especialmente na sequência em que ela precisa confortar o seu filho, assustado com os dons recém-descobertos da super audição e visão de raio x. Os atores Cooper Timberline e Dylan Sprayberry, que fazem Clark com 8 e 14 anos, respectivamente, também fazem ótimos trabalhos.

Outro elemento a se destacar é a belíssima trilha sonora do sempre genial Hans Zimmer. Desde o início com o clima de urgência em Krypton, passando pelos momentos mais dramáticos às lutas de Superman com Zod, a trilha se encaixa perfeitamente e emociona. Percebe-se o tom completamente diferente dos filmes do Batman, por exemplo. Zimmer é um compositor que se adapta muito bem aos diferentes tipos de filmes.
Apesar da trilha ser diferente da trilogia do Cavaleiro das Trevas, Christopher Nolan trouxe para "O Homem de Aço" o mesmo clima sério e épico. Não há espaço para muitas piadas, e as poucas que têm são mais visuais, e até bem inteligentes. Em uma delas, vemos um plano fechado na palavra "ALERT" em vermelho logo depois do Governo Americano descobrir a nave de Zod em direção à Terra. Mas logo a câmera abre o plano e é revelado que é o alerta da falta de papel da impressora que Lois usava. A falta de humor tem sido um dos motivos de críticas ao filme, mas eu acho interessante uma pegada mais séria nos filmes da DC Comics, diferentemente dos filmes da Marvel.


Com todos esses altos e baixos, Zack Snyder faz um filme um pouco problemático, mas divertido e eficiente, conseguindo honrar a grandeza que esse personagem representa para a cultura pop. O diretor desmonta o mito de perfeição do Superman, um herói que precisava se inovar e se adequar ao mundo de hoje — um mundo menos colorido (como sua roupa) e onde fazer o certo pode significar sujar suas mãos (como a decisão que ele toma perto do final). Clark Kent passa a se assemelhar, também, com os dois heróis citados no início da crítica — vivendo com pouco dinheiro e buscando seu lugar no mundo.

Percebe-se que é apenas o primeiro passo para o estabelecimento de uma franquia, pois Kal-el ainda parece não ter chegado à maturidade de seus poderes e de sua personalidade. Esse ainda não é o Superman que daqui a alguns anos veremos liderando a Liga da Justiça. Mas, de qualquer forma, foi um bom primeiro passo, e com o pé direito.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Segredos de Sangue

★★★★☆
Ótimo


Texto com pequenos spoilers sobre a trama do filme.

O cinema coreano tem crescido muito nos últimos anos, inclusive exportando seus diretores para Hollywood. Curiosamente, três deles tiveram filmes programados para 2013. O primeiro da leva foi Kim Ji-woon (conhecido pelo excelente "Eu Vi O Diabo" e pelo terror "Medo") que dirigiu o novo filme de Arnold Schwarzenegger, "O Último Desafio". Bong Joon-ho ("Memórias de Um Assassino" e "O Hospedeiro") roteiriza e dirige "Snowpiecer", uma ficção científica com um elenco estelar, com direito ao Vingador Chris Evans e as ganhadoras do Oscar Tilda Swinton e Octavia Spencer, mas ainda sem data para estrear. E dia 14 chegou aos cinemas brasileiros o suspense "Segredos de Sangue", 10º longa do elogiado diretor Park Chan-Wook, mais conhecido pela Trilogia da Vingança (que tem em "Oldboy" seu ápice), e por seu último filme, o vampiresco "Sede de Sangue".

"Segredos de Sangue" conta a história da família Stoker (nome original do filme). Depois que o pai da introvertida India (Mia Wasikowska) morre, o seu tio Charles (Matthew Goode), que ela nunca soube que existia, vai morar com ela e sua mãe, Evelyn (Nicole Kidman). Charmoso e simpático, ele logo ganha a confiança de sua mãe, mas India começa a suspeitar que ele não é tão perfeito assim. A presença de Charlie irá fazer com que India descubra detalhes sobre o passado sombrio da família Stoker e sobre ela mesma.

Diretor que costuma realizar filmes com personagens excêntricos e bem desenvolvidos, Park Chan-Wook dessa vez aposta em tipos mais normais, ao menos à primeira vista, e concentra seu apreço pelo diferente no visual do filme, que é o que realmente chama a atenção. São planos imprevisíveis, com enquadramentos curiosos que valorizam o filme e ajudam a contar a história, já que a narrativa, dessa vez não é de tão alto nível.


A princípio remetendo ao Hitchcockiano "A Sombra de Uma Dúvida" (até no nome do tio), "Segredos de Sangue" se revela o oposto, já que, ao contrário do suspense de 1943, a sobrinha e o tio acabam tendo algo em comum. Pistas de que há algo de diferente em India vão sendo dadas desde o início do filme, mas só descobrimos (junto com ela) com o desenvolvimento de sua relação com Charles. E o auto conhecimento é tema forte no filme. India está em transição da adolescência para a fase adulta — o longa começa no dia de seu 18º aniversário. Ela sente emoções, ímpetos, que não sabe explicar. Seu tio acaba funcionando como um guia.
Em determinado momento, vemos que o falecido pai de India sabia muito bem o seu "segredo", porém conseguia administrá-lo, funcionando até como um tipo de super ego. O tio Charles tem o objetivo de liberar os impulsos da jovem, se transformando no Id. O resultado desde embate será muito interessante, ainda que não chegue ao nível dos clímax de outros filmes do diretor.

Porém, mesmo que o desenvolvimento da história esteja um pouco abaixo do padrão Park Chan-Wook, o diretor mostra uma exímia sensibilidade na hora de filmar e decupar o filme. Além dos já citados planos originais, ele utiliza, por exemplo, vários belos raccords* tanto para dar noção de elipses (a imagem de India caminhando no caminho que leva a sua casa sobrepõe a dela caminhando sozinha na estrada), quanto de flashbacks (funde os cabelos de Nicole Kidman sendo penteados a um campo onde India e seu pai caçavam).

*Raccord: ligação entre duas cenas por efeito visual ou sonoro, para reforçar ideia de continuidade.


A direção de arte acerta em cheio no clima do filme, utilizando cores sempre harmoniosas, como lilás, azul e laranja, mas sempre com atenção especial no verde e no vermelho em cenas chave. A iluminação e os filtros da fotografia de Chung-hoon Chung ajudam na padronização das cores do filme, como na sequência externa em que India tem um encontro com Whip. Não bastasse o ambiente com muita grama e árvores, percebe-se um cuidado especial no filtro utilizado nas câmeras, inteligentemente dando um tom ainda mais esverdeado à cena, já que é quando a natureza de India é revelada (ou pelo menos aparece mais). Se o verde representa a natureza (bastante explorada no filme), o vermelho forte, quase vinho, o sangue — no sentido de família e da violência que existe dentro da personagem principal.

Na mesma sequência citada de India com Whip no parque, vale citar o belo efeito que a câmera de Chung cria ao filmar India num plano médio girando no roda roda, dando inclusive um certo ar sobrenatural à jovem, que parece estar flutuando. Toda a sequência foi muito bem dirigida e nos dá a noção de uma predadora seduzindo sua vítima. Trabalho notável de Mia Wasikowska.
O diferencial de India é muito bem explorado especialmente em duas outros momentos também. Na sequência dela na mesa da cozinha, escutando o barulho da casca do ovo se quebrando, e a da aula de pintura, em que, enquanto todos pintam o vaso usado como modelo, ela pinta o padrão do lado de dentro do vaso ("Meus ouvidos ouvem o que outros não podem ouvir. Coisas pequenas e longes que pessoas não podem ver normalmente são visíveis para mim.")


Por tudo isso, "Segredos de Sangue" vale mais como um exercício visual do que como narrativo, já que peca um pouco no desenvolvimento da trama, e fica a impressão de que o roteiro de Wentworth Miller (ele mesmo, o Michael Scofield de "Prison Break") não teve o seu potencial máximo aproveitado. Mesmo assim Park Chan-Wook não decepciona em sua primeira empreitada no cinema americano, compensando a fragilidade da narrativa na forma como ele utiliza recursos visuais e metafóricos para enriquecer o estudo de seu personagem principal, India — a aranha, mais um exemplo, simbolizando o despertar de sua sexualidade.

Pelos muitos simbolismos (muitos nem citados nessa crítica), é um filme que vale ser visto mais de uma vez, pois certos detalhes só serão captados e completamente compreendidos depois de uma revisita ao filme.