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domingo, 16 de fevereiro de 2014

O Lobo de Wall Street

★★★★★
Excelente

Como é bom quando vemos que um diretor de alto calibre como Martin Scorsese não perde a manha. Enquanto outros grandes nomes, como Steven Spielberg e Ridley Scott, revezam filmes bons com medíocres, Scorsese mantém o alto nível constante. Além disso, ele se acostumou como poucos aos novos tempos. Uma prova é o seu filme anterior, o belíssimo "A Invenção de Hugo Cabret", que tem um dos melhores 3D já vistos no Cinema.

Em sua nova obra, o diretor conta a infame história real do corretor da Bolsa Jordan Belford (Leonardo DiCaprio), o "Lobo de Wall Street", apelido ganho por enriquecer a custas dos outros. Já com o sonho de ganhar muito dinheiro, ele consegue um emprego em Wall Street aos 22 anos. Quando as coisas pareciam estar dando certo, vem uma crise que derruba as bolsas e Belford acaba na rua, junto com vários corretores. Ele descobre, então, um mercado de ações de baixo valor, onde, com a experiência ganha no seu antigo emprego, consegue rapidamente se dar bem enganando pessoas simples. Depois de trazer vários amigos para o negócio, ele abre a sua própria empresa, a Stratton Oakmont, que cresce e vai ganhando notoriedade, até entrar no radar do FBI.

A mudança de vida de Jordan não é vista somente na sua conta bancária. A riqueza traz um mundo de drogas, sexo e festas no qual o protagonista acaba envolvido. O superego do personagem é suprimido por seu modo de vida frenético, que envolve orgias na própria empresa, e viver quase que permanentemente drogado por vários tipos de entorpecentes. De alguma forma, lembro de muitas celebridades teens que, ao se deslumbrarem com o dinheiro, perdem a noção, talvez por alguma necessidade de se autoafirmar, pela adrenalina ou apenas porque acham que pode, por acreditarem que são protegidos pelo dinheiro. E na maioria das vezes, são mesmo.

Uma das coisas que mais se destacam em "O Lobo de Wall Street" é o clima "over the top" que impera em sua maior parte. Dos diálogos, passando pelo consumo de drogas, até as cenas de sexo e nudez — que são muitas. Como o filme foi financiado independentemente, Scorsese não teve problema com censura de estúdios. Entretanto, mesmo assim, o filme sofreu cortes para que não pegasse a maior classificação etária, o que limitaria o seu mercado.

Um grande acerto do filme é a montagem. É frenética e intencionalmente "defeituosa", em momentos em que Jordan está sob o efeito de drogas, ou seja, durante boa parte do filme. Em sua maior parte, "The Wolf Of Wall Street" (no original), é uma comédia tão absurda que um desavisado pode pensar que é uma obra de ficção, sem vínculos com a realidade — o filme ganha tons mais dramáticos no terceiro ato. Mas a verdade é que a vida e os "feitos" do Jordan Belford real foram transpassados do livro autobiográfico para a tela de uma forma bem próxima da realidade, do abuso de drogas à forma como ele construiu seu império. Apesar do filme não mostrar o lado de suas vítimas, o embate moral está presente, na sua vida profissional e familiar. Tanto nós quanto Jordan, sabemos que suas ações eram erradas, mas o personagem sempre prefere pegar o caminho mais fácil em direção ao seu enriquecimento.


Vivendo agora em função do dinheiro — e do que vem com isso —, Jordan acaba se distanciando de sua família. O ápice é quando, já perseguido pelo FBI e forçado a fazer um acordo que entregará seus colegas, sua segunda mulher, Naomi (a linda Margot Robbie), avisa que vai deixá-lo, levando a filha deles. Ele surta, a agride, e tenta sequestrar a menina, mas acaba batendo o carro. Scorsese cria uma dos planos mais belos do filme quando o sangue da testa ferida de Jordan escorre pelo seu olho, formando uma lágrima. O uso da cor vermelha para designar culpa é uma das marcas do diretor, que a usa há décadas ("Os Bons Companheiros" é um ótimo exemplo). A expressão facial de DiCaprio ao "chorar culpa" acusa o momento em que o personagem, que quase machucou sua filha, se dá conta de tudo que fazia. Por mais que ferir financeiramente desconhecidos não o fizesse se sentir culpado, ao ferir fisicamente sua família, sua ficha cai. Ele estava prestes a entrar no ponto de não retorno de sua jornada (i)moral.

A sua queda, arquitetada pelo agente Patrick Denham (Kyle Chandler, de "A Hora Mais Escura"), desmantela seu império, e o força a viver sóbrio — das drogas e do dinheiro (seu vício preferido, como ele mesmo diz) —, o que chega a ser irônico, pois só então, perdendo tudo, ele recupera sua alma. Uma troca bastante justa, eu diria. Jordan Belford hoje vive ganhando dinheiro legalmente, como palestrante motivacional. Porém, mesmo ao se colocar no lugar de suas vítimas e imaginar ser uma situação terrível, ele não pensa em se retratar, ao menos pessoalmente, com seus credores.



O roteiro de Terence Winter, que é mais conhecido no mundo das séries (é o criador de "Boardwalk Empire", que Scorsese produz, e foi roteirista de "Família Soprano"), acerta em dar um tom cômico ao filme, que normalmente uma produção com tanto peso moral não teria. A maneira como o protagonista "conversa" com o público (a famosa "quebra da 4ª parede), explicando termos técnicos, causa uma maior aproximação entre personagem e audiência. E os personagens por mais inescrupuloso que sejam, provocam uma certa empatia no público — o que causou revolta nas vítimas do Lobo e seus comparsas.

Méritos também ao elenco, que aproveitou bastante a liberdade de improvisar concedida por Scorsese. Todos os atores dão o melhor de si e dão ainda mais força ao roteiro de Winter. Leonardo DiCaprio está impagável e consegue fazer seu personagem passear entre os extremos da insanidade e vulnerabilidade. Apesar das três horas de filme, eu assistiria mais dez minutos dele se arrastando e tentando entrar no carro. É uma pena que, mais uma vez, ele deve perder o Oscar e, dessa vez, para um colega de elenco: Matthew McConaughey (concorrendo por "Dallas Buyers Club"), que está ótimo em sua pequena participação, como o primeiro chefe de Jordan. Outro destaque é Jonah Hill. Se na época de "Moneyball" a sua indicação ao Oscar de Ator Coadjuvante causou certa estranheza, em "O Lobo de Wall Street" não há a menor dúvida.


Em um filme em que o que mais se vê é adoração (por parte dos personagens) ao dinheiro, sexo e drogas, o que fica no final é o sentimento que a simplicidade pode ser muita mais recompensadora. A cena final, com o agente Denham no metrô, junto com outros trabalhadores, faz uma forte antítese com o estilo de vida "living large" praticado por Jordan e pela maioria dos personagens do filme. E ainda mostra que coisas como voltar para casa de transporte público (algo que Jordan tinha usado para insultar o agente), acabam não importando diante da satisfação de conquistar algo com seu trabalho. Algo que Jordan Belford deve ter aprendido a essa altura. Ou não...

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Gravidade


★★★★★
Excelente


Alfonso Cuarón é um diretor que prima pela qualidade sobre a quantidade. Em quase 20 anos de carreira cinematográfica, ele tem apenas 6 longas em sua filmografia (e um segmento em "Paris, Eu Te Amo"), onde "E Sua Mãe Também", "Harry Potter E O Prisioneiro de Azkaban" e, principalmente, o seu último filme, "Filhos da Esperança", se destacam. Sete anos depois de "Filhos", o diretor mexicano reaparece com a que pode ser a obra prima de sua carreira.

"Gravity", no original, conta a história de Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) e Matt Kowalsky (George Clooney), dois astronautas que, ao fazerem uma operação de rotina fora da nave, são surpreendidos por uma chuva de lixo espacial que destrói a nave e os deixa à deriva no espaço ligados apenas um ao outro por um cabo. Correndo contra o tempo, os dois terão que fazer de tudo para conseguir chegar à outra estação espacial e conseguir se salvar.

Eu nunca estive e, provavelmente, nunca irei ao Espaço, mas o que experimentei durante os 90 minutos de projeção de "Gravidade" deve ser a coisa mais próxima da experiência que é estar a centenas de quilômetros acima da Terra. O filme é de um primor técnico impressionante. A edição e mixagem de som, combinados com a fotografia de Emmanuel Lubezksi ("Árvore da Vida") imergem o espectador nesse "mundo" escuro e sem som. O design de produção recria o interior das naves e estações espaciais com detalhes impressionantes.


Esses elementos ainda são somados à câmera de Cuarón, que, num lugar onde é impossível a vida, parece viva ao passear pelo espaço, como numa bela dança, enquanto nos mostra a imensidão de um lugar tão hostil.
Em "Filhos da Esperança", já pudemos ver o apreço que o diretor tem por longos takes e planos-sequência, com dois planos de tirar o fôlego — um passado todo dentro de um carro e o outro seguindo o protagonista interpretado por Clive Owen em meio a uma revolta de rebeldes. Em seu novo trabalho, Cuarón mais uma vez cria com maestria planos que duram minutos, sejam apresentando os personagens, no início do filme, ou os seguindo em seus momentos de tensão.

É muito bonito, também, a forma como o diretor utiliza por várias vezes a câmera subjetiva, se aproximando do capacete do personagem, "entrando" pelo vidro e, enfim, assumindo o seu olhar. Outras vezes, querendo mostrar o que os personagens veem e suas reações, Cuarón usa um primeiríssimo plano, inteligentemente focando nos seus rostos e, pelo reflexo do vidro do capacete, exibindo o que acontece.


Essa subjetividade é importantíssima para nos fazer entrar na mente do personagem e sentir na pele o que ele passa. Porém, isso não teria efeito se não fosse o roteiro escrito pelo próprio Cuarón e seu filho, Jonas, a precisa montagem e as atuações maravilhosas de George Clooney e, principalmente, Sandra Bullock. Seis meses foi o tempo que sua personagem passou em treinamento para a missão no espaço e foi também o tempo que Bullock levou se preparando fisicamente para o papel, enquanto estudava cada detalhe do roteiro e de sua atuação junto com o diretor. O resultado é uma das melhores atuações do ano.

Dentro do limite de tempo, os dois personagens principais são bem desenvolvidos. Matt Kowaski é um astronauta prestes a se aposentar, boa pinta e bem humorado, que ajuda a aliviar a tensão em alguns momentos. Ryan Stone é uma médica em sua primeira missão espacial. Logo sabemos que ela recentemente sofreu uma tragédia pessoal e entendemos o motivo (ou um deles) que a levou a ir trabalhar no espaço. Apesar de continuar com seus deveres, depois do trauma ela para de viver. Esse elemento do seu passado a faz ficar a vontade com o silêncio oferecido pelo espaço.

[Desse ponto em diante, haverão spoilers sobre momentos-chave da trama do filme]


A partir desse momento, o verdadeiro significado do filme começa a se desenhar e podemos aos poucos perceber do que a história contada se trata. Já não estamos mais assistindo a um filme sobre uma astronauta em perigo, e sim, estamos testemunhando o renascer de uma pessoa. Isso é muito bem ilustrado com o belíssimo plano em que Stone, após conseguir entrar na estação russa e tirar seu equipamento, é enquadrada flutuando por alguns segundos em posição fetal enquanto descansa, remetendo a um bebê no útero.

Uma vez que o sentido principal é entendido, o filme deixa de ser apenas uma obra bonita, para se tornar algo intenso, uma experiência autêntica. Não há nada mais lindo do que o renascimento da vida numa pessoa — a vida como um sentimento, e não como um período de tempo. Interiormente, Ryan morre junto com sua filha. Não havendo mais pelo que viver, ainda na Terra, ela vivia o resto dos seus dias dirigindo, sem rumo, pois era assim que ela se sentia. Todavia, quando ela olha nos olhos da morte, várias vezes (sim, os obstáculos do filme parecem ser um pouco excessivos), ela descobre uma força que nunca imaginou ter. Se revela, então, um do maiores conceitos do filme: do ambiente mais estéril conhecido, nasce uma vida.


Mas Cuarón não para por aí. A última sequência, além de reafirmar a ideia do renascimento com Ryan "reaprendendo" a andar — no espaço, ela estava em gestação, como o plano já citado apresentou, enquanto seu nascimento se deu com sua chegada à Terra —, guarda um significado ainda mais profundo. Depois de quase se afogar, a personagem nada em direção a superfície, mas, alguns segundos antes disso, uma rã é vista também emergindo. A rã, que, como todos sabem, é o estado evoluído do girino após sofrer metamorfose, é inteligentemente posta nessa sequência em particular para indicar que Ryan evoluiu. Ela é um novo ser. E não só isso. Notem como a personagem, da água, vai lentamente se arrastando até a margem, até conseguir se levantar — como a vida terrestre teve início. A câmera ainda a enquadra de baixo para cima, a fazendo ficar maior e apontando sua mudança. Nesses segundos o diretor recria, ou melhor, personifica os milhões de anos de evolução na figura de Ryan Stone.

Por ser um filme quase todo passado no espaço e com muitas metáforas, comparações com o clássico "2001 - Uma Odisseia no Espaço" já foram feitas. Mas os dois diferem muito entre si. A obra de Stanley Kubrick se encaixa muito mais no gênero ficção científica que a de Cuarón, que pode ser classificado como um suspense dramático. Enquanto "2001" aborda a evolução numa maneira muito mais extensa (e ainda influenciada por terceiros), "Gravidade" é um filme muito mais pessoal, onde a evolução é intrínseca.


Com seu novo trabalho, Cuarón mostra que, para um filme ser genial, não precisa ter uma trama complicada. Mesmo quem não conseguir ler nas entrelinhas, poderá gostar do longa por sua simples história de superação da personagem de Sandra Bullock ante uma catástrofe e vários empecilhos. Algo muito diferente do próprio "2001", que é um filme tão comprometido com sua mitologia que não permite ao espectador que não entender a trama curtir o filme.

Há muito tempo eu não saía do cinema tão satisfeito. "Gravidade" vai muito mais além do "filme-catástrofe" — é um belo conto sobre renascimento e, mais que isso, evolução. Os méritos da obra vão muito além dos aspectos técnicos. A produção beira a perfeição, graças especialmente ao roteiro dos Cuarón e a atuação iluminada de Sandra Bullock. A metáfora do renascimento de Ryan Stone como uma pessoa evoluída é linda e muito bem apresentada. O filme, sem dúvida, já é um dos melhores do ano e será lembrado por muito tempo.

"It's time to stop driving. It's time to go home."

segunda-feira, 29 de julho de 2013

[Curtas] Only God Forgives / Invasão À Casa Branca

Only God Forgives 
★★☆☆☆
Razoável

Um filme visualmente marcante, mas que falha nas questões mais básicas numa produção cinematográfica. A belíssima fotografia, design de produção e direção de arte não salvam o filme, que tem uma trama desinteressante, personagens sem um pingo de carisma e atuações fracas. O diretor foi de Drive (um filmaço), para isso.

"Only God Forgives" é bonitinho, mas ordinário.
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Invasão À Casa Branca
★★☆☆☆
Razoável

Seria mais legal se fosse um filme da série "Duro de Matar". Os filmes do John McClane são forçados, mas com orgulho. É uma linha de filmes de ação sem compromisso com a realidade, visando apenas o entretenimento. Aí esse "Olympus Has Fallen" quer se levar a sério, forçando a barra, com um tom solene, até épico... Complica.
O McClane no lugar do Mike Banning, e um tom mais leve, faria o filme ser bem melhor.
E de acordo com o filme, os EUA são responsáveis pela paz mundial. Tirando a sua frota do lugar desencadearia um caos nuclear. Menos, né...

Mas, como um filme de ação, é bem decente. O problema mesmo é o complexo americano de Deus e as forçações da história.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

[Curtas] Deus da Carnificina / Coriolano

Deus da Carnificina
★★★★☆
Ótimo
Eu gosto muito de filmes que se passam em apenas um ambiente pois, mesmo superficialmente simples, na prática são bem mais complexos. O roteiro, a direção, a fotografia, a direção de arte... Tudo tem que ser 10 vezes mais preciso porque não há distração. O filme é todo baseado na força dos diálogos, nos personagens e no ambiente. E em filmes com esse estilo, não há como mascarar atuações. O ator tem que dar tudo de si. Fora que o recurso da Mise-en-scène ganha ainda maior importância. A movimentação dos atores tem um papel fundamental no contar da história.

E "Carnage" é um bom exemplo de como a boa execução desses fundamentos e um elenco de peso (dos 4, 3 são ganhadores de Oscar) fazem a diferença.
As atuações são primorosas, com destaque para a sempre excelente Kate Winslet e Christoph Waltz. John C. Reilly não brilha tanto, mas também está muito bem. Já a Jodie Foster tem momentos que parece estar meio "over", mas no geral também não decepciona.

Roman Polansnki conseguiu adaptar muito bem a peça para o cinema, fazendo um filme bem divertido. A maneira como a cordialidade dos pais vai sendo substituída por um certo antagonismo (começando com algumas simples alfinetadas), criando o caos, é sensacional. Mesmo que em alguns momentos os conflitos soem meio forçados, o resultado do filme é ótimo.
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Coriolano
★★☆☆☆
Razoável

Uma boa ideia, mas que não foi executada da melhor maneira.
É interessante ver o Império Romano no século XXI, mas o texto literalmente tirado da obra de Shakespeare acaba soando bem artificial no contexto do filme e nos distancia da obra, não apenas por muitas vezes ser de difícil entendimento, mas por citar coisas que não se aplicam mais ao nosso tempo — como espadas, por exemplo, que são muitas vezes citadas, mesmo não fazendo parte do nosso mundo. Uma adaptação mais moderna do texto, sem mudar a essência da história, ajudaria o filme.

Outra coisa que poderia ter sido melhor trabalhado é o lado "militar". Os exércitos de Roma e Volscos parecem apenas pelotões, nada semelhante a grandeza do exército de um Império. Fica até difícil acreditar como o exército de Aufidius, que mais parece um grupo de guerrilheiros, poderia ameçar um Império do tamanho do Romano.

É um filme interessante, mas que poderia ter sido melhor.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O Substituto

★★★★★
Excelente


"Detachment" (no original) é o 6º filme de Tony Kaye, diretor mais conhecido pelo forte "A Outra História Americana" — que rendeu Edwart Norton uma indicação ao Oscar pelo seu papel de um Neo Nazista.
Em seu novo filme, Kaye aborda não só o problema na educação atual, mas expande a visão procurando a fonte desse problema, que tem piorado nas gerações atuais. Vemos alunos cheios de raiva, pais irresponsáveis e incompreensíveis e professores estressados, que muitas vezes levam seus problemas pessoais para a escola, comprometendo suas funções e relacionamentos com os alunos. Falta compreensão e a única coisa que todos compartilham, é o vazio que sentem, por mais contraditório que soe.

Até Henry Barthes (Adrien Brody, numa atuação arrebatadora), que é uma boa pessoa e professor inspirador, carrega seus demônios do passado que o impedem de se relacionar com pessoas e amá-las/ser amado — o nome original do filme, que quer dizer desapego ou distanciamento, é exatamente sobre isso. Quando o perguntam o porquê de ter escolhido essa profissão, ele foge da questão, mas durante o filme fica claro que esse seu problema é o verdadeiro motivo que o leva a ser um professor substituto (não querer ficar muito tempo num lugar e se apegar aos alunos) e ter entregado Erica, uma adolescente que se prostitua e foi acolhida por ele, ao Serviço Social — ele só se "livra" dela depois dos dois terem criado um laço muito forte.

Todos os personagens tem dificuldades em sua vida pessoal que comprometem seus deveres. Seja professores que não conseguem mais dar conta do ensino, pais que negligenciam os filhos (a sequência da reunião dos pais mostra bem isso) ou alunos com problemas de auto-estima que não conseguem ter uma vida normal (dentro e fora da escola). O próprio Henry consegue conquistar e inspirar os alunos, até os mais problemáticos, mas uma vez que ele vai embora, ninguém pode assegurar que eles continuem no caminho certo. Se ele não tivesse seus conflitos e conseguisse assumir um compromisso com pessoas, provavelmente ele faria uma maior diferença na vida desses jovens que precisam de um modelo a seguir.


A fotografia do filme, feita pelo próprio Tony Kaye, assume um ar documental nas cenas da escola, se afastando um pouco dos personagens — talvez para reforçar a distância emocional. Já fora dela, primeiros e primeiríssimos planos são muito utilizados, procurando extrair o máximo da emoção dos personagens.
A montagem nervosa retrata perfeitamente o caos, principalmente na vida de Henry (vemos muitas cenas de seu passado e presente em certos momentos). O roteiro do estreante Carl Lund é muito bom, explorando a vida dos personagens e fazendo questionamentos oportunos — e ainda é potencializado pela direção de Kaye que o transforma num belo e poderoso filme.

"O Substituto" é interessante por não ser uma simples história de um professor que chega na escola e muda a vida do lugar e dos alunos. Aqui não há professores heróis, apenas seres humanos danificados. O caos está em todo lugar, inclusive dentro de cada personagem. E reconhecê-lo, entender sua origem, é vital para combatê-lo e encontrar a distante e já esquecida paz.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

A Caça

★★★★☆
Ótimo


"A Caça", novo trabalho do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg, é um belo e forte filme dinamarquês sobre como uma mentira pode destruir a vida de um homem.

Lucas (Mads Mikkelsen, de "Casino Royale" e da série recém estreada "Hannibal") trabalha num jardim de infância e é adorado pelas crianças. Apesar de estar se divorciando, recebe a boa notícia que seu filho quer morar com ele. Além disso, começa a namorar a bela Nadja. Sua vida parece estar melhorando consideralvemente, mas uma acusação de pedofilia vai fazer tudo virar de cabeça para baixo.
A pequena Klara, filha do melhor amigo de Lucas, não recebe muita atenção em sua casa (até a acusação ser feita, a menina nunca é vista recebendo demonstração de afeto de seus pais, que constantemente a perdem) e costuma ir e voltar da escola acompanhada por Lucas. Ela acaba encontrando nele uma figura protetora que não vê em seus pais. Numa brincadeira na escola, ela dá um beijinho na boca de Lucas, que sem saber o que fazer, a repreende gentilmente. Se sentindo rejeitada, ela inventa uma mentira sobre ele para a diretora, Grethe que, a príncipio, acha difícil acreditar, mas acaba aceitando a palavra de Klara, por não ver razão nela estar mentindo. A partir daí as suspeitas em torno de Lucas aumentam e sua vida vira um inferno.

O diretor e co-roteirista Thomas Vinterberg (Tobias Lindholm também assina o roteiro) consegue fazer com que um elo muito forte se crie entre nós, espectadores, e o personagem principal já que, além de nós, só o próprio protagonista e seu filho acreditam em sua inocência. Nos sentimos testemunhas de seu sofrimento, e vítimas da inocência de uma criança.


O pior é que não dá para culpar o agente principal da confusão, pois ele é uma criança que não tem consciência da consequência de seus atos. Nem os pais. Acho que qualquer um de nós ouvindo tal denúncia de um filho, se sentiria inclinado a acreditar nele. O que muda seria a forma como trataria o suposto criminoso — se não o agredissem pelo menos o olhariam "torto". Se fosse para apontar um culpado, talvez seria o irmão mais velho de Klara, que ao mostrar para ela (mesmo por alguns poucos segundos) uma imagem pornográfica, tirou sua inocência (ela ficou com a imagem na cabeça), e indiretamente apertou o gatilho que causou tudo isso.

Discutindo um assunto difícil que sempre causa revolta e comoção, "A Caça" nos permite desde o início enxergar o "quadro completo", como se estivéssemos vendo o filme do alto, cientes da inocência de Lucas. Mas cabe a pergunta: como reagiríamos diante de um caso parecido em que não tivéssemos total consciência dos fatos?
Falar em pré-julgamento quando não é a segurança do seu filho que está em jogo é fácil.
Como muitos, eu tento sempre me manter cauteloso com acusações sem provas (ainda mais em tempos de guerra de palavras na internet), mas em situações "extremas" não posso dizer com certeza qual seria a minha reação. É como reagir a um assalto sabendo que não se deve fazê-lo. Quando algumas situações se tornam pessoais, nem sempre seguimos o que temos como o certo.


Vale destacar as atuações impecáveis do elenco do filme, principalmente de Mads Mikkelsen e da garotinha Annika Wedderkopp. Ela me convenceu em cada momento. O elenco de apoio faz um bom trabalho, especialmente Thomas Bo Larsen (que tem uma curiosa semelhança com John Hurt) e Susse Wold.

"Jagten", no original, já desponta como um dos melhores dramas de 2013. Thomas Vinterberg faz um filme difícil que consegue tocar o espectador e ainda o fazer refletir sobre o que foi visto na tela, até porque, no final, a história de Lucas não é apenas sobre tragédia, mas também sobre perdão.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

[Curtas] O Poder E A Lei

★★★★☆
Ótimo

Filmaço. Algumas pessoas podem achar um pouco chato por se passar muito tempo no tribunal, mas para quem gosta vale muito a pena.

A trama é inteligente e o roteiro consegue facilitar o entendimento das questões legais sem soar didático demais, além de amarrar bem a maioria das pontas da história — [selecionar o texto a seguir para ler o spoiler] (só achei sem sentido nem passar pela cabeça de Mick que outra pessoa, a mando de Roulet, poderia ter matado Levin). .

A direção aposta em planos fechados no rosto dos personagens, coisa que eu não sou muito fã, mas que ajuda a tornar o filme mais "pessoal", aproximando mais (literalmente) os personages do público. Esses primeiríssimos planos também servem para mostrar a mudança no semblante de Mick Haller, o protagonista, no decorrer do filme, com suas olheiras ficando cada vez mais fundas ao passo que ele vai se afundando no caso.
Achei muito interessante também o dilema moral criado no filme. A príncipio o personagem de Mick é retratado como um advogado sem escrúpulos, que faz tudo para ganhar e só pensando no dinheiro. Mas aos poucos vamos vendo que ele realmente tem uma consciência e quer fazer a coisa certa. Como ele mesmo fala, após tantos anos defendendo criminosos, ele não consegue mais acreditar na inocência, mesmo alegando que seus cliente são inocentes. Ele é um personagem em conflito com seus ideais e ações, longe de ser perfeito herói. Apenas humano.
Mick Haller é um ótimo personagem. E Matthew McConaughey o interpreta de maneira competentíssima. Grande atuação.

"O Poder E A Lei" é um dos melhores filmes sobre crimes que vi recentemente.

sexta-feira, 29 de março de 2013

A Hora Mais Escura - Oscar 2013

★★★★★
Excelente


Muito se esperava do novo filme de Kathryn Bigelow. Há 3 anos ela ganhou o Oscar de direção por seu filme anterior, "Guerra ao Terror" — que também levou o prêmio de Melhor filme ao bater "Avatar". A diretora mostrou que sabia contar uma história sobre guerra e, em "A Hora Mais Escura", ela repete a dose, mas dessa vez numa escala muito maior.
O filme narra, sob o olhar da jovem agente Maya (Jessica Chastain), os 10 anos da caçada da CIA a Osama Bin Laden, o líder da Al Qaeda e responsável pelo ataque ao World Trade Center, em 2001.

Indicando que não será um filme fácil, a primeira cena da produção é de tortura. Maya, que foi contra vontade designada à missão no Oriente Médio, mostra claro desconforto com a sessão de tortura ministrada, por assim dizer, por Dan (Jason Clarke). É uma sequência bem gráfica, e até revoltante. Dan não economiza na violência e, entre sessões de golpes e humilhações, repete a frase "Quando você mente para mim, eu te machuco", que deve ser a pior coisa a se ouvir para um torturado, culpado ou inocente.

Mas apesar de toda brutalidade nos interrogamentos, Dan não é um monstro. O roteiro de Mark Boal (também premiado no Oscar por "Guerra ao Terror"), mesmo não se aprofundando na vida dos personagens, faz questão de expor a habilidade das pessoas de cometerem atos bons e maus, seja por crença, desespero, ou trabalho (como os torturadores). Tanto que mais tarde Dan se cansa de viver torturando e sente necessidade de fazer algo normal por um tempo. Ele continua na CIA, mas se afasta das missões de campo. Ele sabe a hora de parar, ao contrário de Maya, que cada vez se torna mais obssessiva com a investigação do paradeiro de Bin Laden, vivendo exclusivamente para isso.


Com o passar dos anos Maya fica mais experiente e "durona". E, de observadora, ela começa a comandar sessões de tortura — inclusive repetindo o discurso de Dan, sobre seguir, estudar e conhecer o prisioneiro. Seu nome vai se tornando importante e ela ganha experiência e confiança, inclusive para peitar seus superiores. Mas, apesar de todo o seu esforço, a Al Qaeda continua sua onda de terror ao redor do mundo. Outros atentados terroristas supostamente causados pela organização também estão presentes no filme, como o de Londres, em 2005, e o no Hotel Marriott (Paquistão), em 2008 — onde Maya, convenientemente, estava com Jessica (Jennifer Ehle).
Esses atentados, somados com a ineficiência em conseguir pistas reais, começam a causar uma certa raiva, ou melhor, desespero, entre os agentes da CIA. Mas uma ficha achada que estava há anos no arquivo da Agência, pode mudar isso tudo, o que dá mais esperança a Maya.

Se há uma coisa que o roteiro de Mark Boal falha é tentar transformar Maya numa personagem badass demais. Um dos momentos que reflete isso é a frase "I'm the motherfucker that found this place, sir" dita por Maya ao chefe da CIA que daria ou não o sinal verde para a invasão à mansão de Bin Laden. É compreensível que ela, na reunião, estivesse se sentindo excluída e ignorada, mas ela realmente precisava falar assim para tentar ganhar respeito? Sem falar que é meio inverossímil que alguém faça isso na vida real sem receber ao menos uma advertência.
Porém, o roteiro tem mais acertos do que defeitos e esses vacilos não diminuem o ótimo trabalho de Mark Boal.

"A Hora Mais Escura" é tecnicamente excelente. O filme só levou o Oscar de Edição de Som (dividido com "Skyfall"), mas a montagem e a fotografia são fundamentos de prima importância para o sucesso da narrativa. Até pequenas coisas foram pensadas para combinar com o clima que Kathryn Bigelow queria aplicar no filme, como a câmera quase sempre no ombro, levemente tremida, que ajuda a passar uma ideia mais realista e até um clima de tensão — o que seria mais difícil com a leveza da steadicam.
Não sabemos até que ponto os eventos narrados foram reais, mas a diretora faz um belo trabalho ao estudar com cuidado os fatos e personagens que fizeram parte dessa história. Ela em nenhum momento sacrifica a boa narrativa para transformar o filme numa produção de ação, por exemplo. Tudo que é mostrado tem uma razão para estar ali.


Com a estreia do longa, as polêmicas envolvendo a tortura no filme começaram a surgir. Acusaram Bigelow de apoiar a tortura, o filme de mostrar que essa prática foi fundamental para a chegar a Bin Laden, etc. É bem verdade que no filme há muitas cenas de interrogamentos em que a tortura é utilizada, mas acusar Bigelow de ser a favor desse tipo de ação é injusto com ela, além de entender mal o filme. Contar uma história, como ela supostamente aconteceu (com suas devidas licenças poéticas, naturalmente), não é ser a favor dos eventos narrados. Sabemos que a tortura realmente foi utilizada pelos Estados Unidos. Agora, se isso foi essencial para a captura de Bin Laden, provavelmente nunca saberemos com certeza, pois é algo que os responsáveis não admitiriam facilmente. Sim, é uma obra de ficção baseada numa história real. Sim, foi criado todo um material em volta dos fatos conhecidos (como os próprios diálogos). Mas o que "A Hora Mais Escura" faz, na sua essência, é isso: narrar os fatos importantes que levaram à captura de um dos maiores terroristas que o mundo já viu.
Uma curiosidade sobre o filme é que, originalmente, era pra ser sobre os 10 anos de caça sem resultados a Bin Laden. Quando ele foi morto, o roteiro teve que ser reescrito. Se o filme tivesse sido lançado há 2 anos, com certeza o discurso não seria "Bigelow mostra que as torturas levaram a Bin Laden", e sim "Bigelow mostra que APESAR das torturas, Bin Laden não foi encontrado". O filme seria uma crítica a prática.

Outra prova que Bigelow de maneira nenhuma apoia a tortura está numa cena que pode ter passado despercebida para muitas pessoas (principalmente para as que a acusam).
Depois de fazer um establishing shot (plano que apresenta onde a próxima ação irá se passar) de uma prisão da CIA no Afeganistão onde prisioneiros são postos em celas individuais ao ar livre, a diretora mostra Dan alimentando pequenos macacos e, não satisfeita com isso, ainda faz questão de colocar num mesmo plano os macacos na gaiola e os prisioneiros "enjaulados", claramente fazendo uma analogia e crítica ao tratamento sub-humano que eles recebem. Portanto, acusar "A Hora Mais Escura" de apoiar a tortura é tão estúpido quanto acusar "Django Livre" de ser racista.


Pode-se até discutir se "A Hora Mais Escura" conta a história verdadeira ou toma liberdades em criar situações fictícias, mas o certo é que a dupla Bigelow/Boal teve sucesso em impor um clima de "investigação" real ao filme, que parece ser um grande documentário, contando todas as etapas que levaram à descoberta do abrigo de Bin Laden, inclusive as pistas que, pelo menos a princípio, não levaram a lugar nenhum. E, como um documentário, o roteiro se priva de explorar a vida particular de seus personagens. Pouco sabemos sobre Maya, ou Dan, por exemplo. O que na maioria dos filmes, seria visto como um ponto "contra" no roteiro, aqui essa característica se revela um "pró", pois num filme com mais de duas horas e meia e com as características documentais de "A Hora Mais Escura", se ater a algo além da História poderia acabar apenas sendo uma distração e atrapalhando a pretensão do filme e o resultado final.

Apesar de ser um filme investigativo, Bigelow sabia que não poderia deixar a invasão à casa de Bin Laden de fora do longa, já que é o momento mais esperado pelo público. E em "The Canaries", o sexto e último capítulo do filme, a diretora entrega uma sequência de ação recheada de tensão. Num breu quase total, claro apenas o bastante para nos permitir enxergar alguma coisa, acompanhamos o ataque (com vários imprevistos) dos Seal Team Six. A sequência é muito bem montada e vale ressaltar o impressionante trabalho de mixagem e edição de som. Imagino a experiência que deve ser ver aquela sequência — e, por que não o filme todo? — com um Home Theater.


A morte de Bin Laden desperta sentimentos variados nas pessoas envolvidas na operação. O membro dos SEALs que o matou, mal acredita — afinal ele acabara de fazer história — enquanto os outros do grupo ficam eufóricos. Já Maya por outro lado, após reconhecer o corpo do terrorrista, não consegue esboçar um sorriso. Depois de dedicar os últimos dez anos de sua vida apenas caçando um homem que virou sua obssessão, ela se sente aliviada, porém perdida quando tudo acaba. Ela não saber o que responder quando o piloto a pergunta onde quer ir é o retrato perfeito disso. A vida dela era o dever cívico que aos poucos foi virando um desejo de vingança (ela deixa bem claro seu objetivo de Matar Bin Laden). Não havia nada além disso. E o filme termina exatamente onde a vida da personagem principal deve realmente começar.

Se em "Guerra ao Terror" Kathryn Bigelow trabalhou o vicío de um soldado na guerra, em "A Hora Mais Escura" é a vez de mostrar a obessessão da América, retratada na figura de Maya, em vingar a morte de seus cidadãos mortos nos atentados cometidos pelo grupo de Osama Bin Laden. E a diretora o faz com louvor.

Zero Dark Thirty
Estados Unidos, 2012 - 157 min.
Drama/Suspense
Direção: Kathryn Bigelow
Roteiro: Mark Boal

Elenco: Jessica Chastain, Jason Clark, Kyle Chandler, Jennifer Ehle, Harold Perrineau, Joel Edgerton, Reda Kateb
Indicações ao Oscar: Melhor filme, Melhor atriz, Melhor roteiro original, Melhor montagem, Melhor edição de som

quarta-feira, 6 de março de 2013

Amor - Oscar 2013

★★★★☆
Ótimo

Michael Haneke sabe como poucos fazer filmes que mexem com o psicológico das pessoas. Em "Violência Gratuita", sem mostrar muito, ele consegue deixar o espectador em constante angústia ao narrar a história de uma família que sofre nas mãos de dois jovens sádicos. Em "Caché", um casal que começa a receber fitas gravadas secretamente mostrando a casa deles, e desenhos com significados, inicialmente, desconhecidos. Isso só para citar os seus dois filmes mais conhecidos.

Em "Amor", mais uma vez o diretor foca em um casal, agora de idosos, que tem como inimigo não a maldade ou desejo de vingança de pessoas, e sim o temido e inevitável final da vida, e tudo que ele traz.
Geoges e Anne são um casal de músicos aposentados que vivem uma vida simples, porém alegre... Até que Anne tem um derrame que vai mudar completamente o modo que eles vivem.

Haneke mais uma vez mostra que é mestre em criar cenas interessantes. Já começando com uma ironia mórbida colocando o título "Amor" pra aparecer logo depois do cadáver no início. E a ideia do amor virar, aos poucos, uma prisão é no mínimo corajosa — assim como toda a filmografia do diretor. Na minha visão, o marido não fez o que fez no final pela mulher e sim por ele. Todo mundo tem um "breaking point", aquele momento em que não aguenta mais. Há cenas poéticas também, como nas vezes que Georges ajuda Anne a se levantar da cadeira de rodas, o casal parece estar "dançando", e eles deixando a casa, no final.

Assim como em seus outros filmes, Haneke utiliza planos longos e diálogos comuns, ainda mais para retratar o dia a dia simples de um casal idoso. Porém, uma vez que a doença de Anne se manifesta, as coisas ficam complicadas. Os planos não são mais dominados por conversas corriqueiras de um casal, e sim pelas dificuldades trazidas pela doença — como Georges ter que ajudar Eva a ir no banheiro. Por um momento pensamos que a situação não poderia ficar mais difícil, porém, num corte bruto, Haneke surpreende o espectador mostrando como a doença de Anne deteriorou-se. Agora ela deitada, com soro na veia e mal conseguindo falar e organizar seus pensamentos. O amor do casal será testado como nunca antes.

A fotografia do filme é simples, mas muito eficaz. Todo o filme se passa na casa do casal, porém não fica uma impressão de claustrofobia e sim de... aconchego. A direção de arte aposta em tons alaranjados e azuis para compor o ambiente do filme. Desde as roupas dos personagens (na maioria das vezes azuis), até detalhes nos móveis e objetos na casa.

Emmanuelle Riva não ganhou o Oscar, mas merecia. Que atuação espetacular. Ela interpreta com perfeição cada momento de Anne, não só os difíceis e tristes, mas também um dos únicos momentos leves do filme, quando ela testa uma cadeira de rodas elétrica — parece uma criança com seu novo brinquedo. Sem querer desmerecer o ótimo trabalho de Jennifer Lawrence, a derrota de Emmanuelle Riva será uma daquelas injustiças que será sempre lembrada por muitos anos. E Jean-Louis Trintignant não ter sido indicado a melhor ator é um mistério para muito gente. Ele era tão merecedor quanto Riva.

Ainda que "Amor" não tenha causado em mim o efeito assolador que tem causado na maioria dos seus espectadores, não dá para negar que é um ótimo filme, com cenas belíssimas, discussões interessantes e que desperta sensações incômodas em vários momentos. Se "O Lado Bom da Vida" foi o filme mais fell good que concorreu ao Oscar 2013, "Amor" pode ser considerado como o mais devastador. Michael Haneke nos apresenta uma imagem muitas vezes poética, mas não muito feliz sobre o fim da vida. É um filme sobre não só o amor, a face mais bela da vida, mas também sobre a mais temível e triste — a morte.

Amour
França/Alemanha/Austria, 2012 - 127 min.
Drama
Direção: Michael Haneke
Roteiro: Michael Haneke 

Elenco: Emmanuelle Riva, Jean-Louis Trintignant, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud, William Shimell
Indicações ao Oscar: Melhor filme, Melhor atriz, Melhor diretor, Melhor roteiro original, Melhor filme em língua estrangeira

*Em negrito os prêmios ganhos

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Lincoln - Oscar 2013

★★★☆☆
Bom

Lincoln entrou na temporada de premiações como o favorito ao Oscar. O filme tinha tudo para faturar o prêmio esse ano: é o líder de indicações (com 12), traz um tema anti-racismo, exalta um herói americano e tem um grande diretor a frente do projeto. E não é um grande diretor qualquer, e sim Steven Spielberg, que já tem dois Oscars por Direção e teve 7 dos seus filmes indicados a Melhor filme, embora apenas "A Lista de Schindler" tenha ganhado por melhor filme junto com Spielberg, por Melhor direção..
Porém, enquanto as premiações foram acontecendo, Lincoln foi perdendo a força, enquanto Argo crescia. Hoje, o prêmio na categoria principal do Oscar está entre os dois filmes, mas Argo tem vantagem por ter ganhado premiações como SAG e PDA, onde os votantes também votam no Oscar.

A produção conta como o presidente Abraham Lincoln, em meio à Guerra Civil, travou sua própria batalha política para conseguir que a 13ª Emenda, que libertaria os escravos, fosse aprovada na Câmara.
Muitos pensavam no início que veríamos grandes cenas de guerra nos campos de batalha como as de "O Resgate do Soldado Ryan", mas o que Spielberg corajosamente nos entrega, é um filme extremamente político, que não agradará a muita gente.


Visualmente o filme é muito bom. A direção de arte, design de produção e figurinos fizeram um trabalho inegavelmente excelente. A fotografia de Januz Kaminski, que trabalha com Spielberg desde "A Lista de Schindler", tem tons sombrios, usando bastante iluminação natural, combinando com os ambientes fechados que o filme explora.
Spielberg também cria várias belas, e simples, cenas, como o sonho de Lincoln logo no início e a comemoração dele com o filho atrás de uma cortina após a aprovação da Emenda.

Mas é quando focamos no roteiro e direção do filme, que temos os maiores problemas. Além de ser um filme lento, com muitos termos políticos, comete um grande erro ao perder muito tempo explorando os problemas familiares de Lincoln. É esposa (Sally Field) que não superou a morte do filho, é o outro filho, Robert (Joseph Gordon-Levitt, mal utilizado), que quer se alistar contra a vontade dos pais. São sub tramas desintessantes, que tiram o foco da trama principal. E ver como o presidente mais famoso da história americano conseguiu passar essa Lei é muito interessante, até para quem não gosta de história ou política. Lincoln estava disposto até a oferecer "proprinas", em forma de empregos, a políticos que perderiam seus assentos na câmara com a nova gestão do governo. Em termos históricos, o filme faz muito bem o seu trabalho, mesmo cansativo.


Daniel Day-Lewis, como era de se esperar, tem atuação espetacular e provavelmente ganhará o Oscar de Melhor ator. Ele interpreta um Abraham Lincoln fisicamente cansado, com movimentos lentos e pesados e voz carregada, mas no auge de sua sabedoria. É uma figura agradável que as pessoas gostavam de ouvir. Mais um belo trabalho de um dos melhores atores da atualidade. Tommy Lee Jones também brilha no filme interpretando um político rabugento e irônico que compartilha dos ideais de Lincoln e o ajuda a conseguir os votos para passar a Emenda. Já Sally Field faz uma personagem caricata que tem momentos over acting. Sinceramente, se ela não fosse indicada a Melhor atriz coadjuvante, ninguém sentiria a falta do seu nome lá.

Falando de forma bem cru, "Lincoln" é o filme mais maçante dentre os 9 indicados a Melhor fillme (e isso é dito por alguém que adora história, inclusive a dos Estados Unidos.), mas isso não quer dizer que seja ruim. É um filme político, difícil, com problemas de ritmo... E mesmo assim suas qualidades são maiores que seus defeitos. A história do filme conta como a História foi feita — e não foi facilmente e de maneira tão limpa como a maioria pensa. O próprio Thaddeus Stevens (personagem de Tommy Lee Jones) afirma que foi uma medida aprovada por corrupção — ele fala ironicamente, mas se pensarmos, a frase tem fundamento.

"Lincoln" é uma bela e cansativa aula de história que vale a pena ser vista.

Lincoln
EUA, 2012 - 150 min.  
Drama
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Tony Kushner
Elenco: Daniel Day-Lewis, Tommy Lee Jones, Sally Field, David Strathairn, John Hawkes, Hal Holbrook, Joseph Gordon-Levitt, Jared Harris, Lee Pace, Jackie Earle Haley, James Spader
Indicações ao Oscar: Melhor filme, Melhor ator, Melhor ator coadjuvante, Melhor atriz coadjuvante, Melhor diretor, Melhor roteiro adaptado, Melhor trilha sonora original, Melhor fotografia, Melhor figurino, Melhor direção de arte, Melhor montagem, Melhor mixagem de som

*Em negrito os prêmios ganhos

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis - Oscar 2013

★★★★☆
Ótimo

Meu primeiro contato com "Les Miserábles" não foi a obra original, romance de Victor Hugo, nem o premiado musical da década de 80, mas sim a versão cinematográfica de 1998, com Liam Neeson e Geoffrey Rush. O romance ainda teve mais duas adaptações cinematográficas, uma em 1935 e outra 1958, além de uma miniserie, com Gérard Depardieu e John Malkovich. Depois de 14 anos a obra do poeta e dramaturgo francês volta para a telona numa versão, agora musical, dirigida por Tom Hooper.

Tom Hooper começou sua carreira dirigindo episódios de séries britânicas, mas começou a aparecer mesmo ao ser escalado para dirigir os 7 capítulos da ótima minisérie da HBO "John Adams". A minisérie foi muito elogiada e faturou quatro Globos de Ouro. Porém, foi com "O Discurso do Rei" que ele foi realmente reconhecido em Holywood, sendo premiado com o Oscar de Melhor Diretor pelo filme.
Apesar de já ter um Oscar em mãos, o diretor está longe de ser unamidade na área. Suas manias visuais, como Dutch Angles (planos inclinados) e enquadramentos em que deixa seus atores em cantos da tela ou com bastante espaço sobre suas cabeças e, às vezes, tudo junto, incomodam muita gente. Da primeira vez que se assiste um filme assim, até pode soar interessante. Depois, só esquisito.

E em Os Miseráveis, primeiro filme após sua vitória no Oscar, essa linguagem própria reaparece, goste ou não. Sua direção é baseada na atuação, mostrando os atores em primeiríssimos planos (close ups), muitas vezes preterindo o cenário que, por mais grandioso que seja, é esquecido — e quando aparece, é fora de foco. Em poucos momentos temos a chance de ver uma parte real do cenário, ou ele como um todo, já que planos médios e gerais são raros.


Na trama, ambientada na França no século XIX, acompanhamos a incessante caçada do inspetor Javert a Jean Valjean (Russel Crowe e Hugh Jackman, respectivamente), que ficou 19 anos presos por roubar um pedaço de pão, e suas consequências na vida de pessoas próximas ao herói injustiçado.

O filme já começa com uma sequência que mostra que veremos uma produção de proporções épicas, digna da história. E, sem enrolação, somos apresentados ao nosso herói Valjean e seu antagonista, Javert. Importante notar que logo aí vemos um conceito que será trabalho durante todo o filme: a sequência chama atenção para o herói por baixo sendo oprimido pelo vilão, em cima. Esse detalhe já demonstra que é uma história sobre injustiça, e sobre os pobres sendo tratados como inferiores pelos ricos e homens da lei. Não só o enquadramento e a montagem da sequência mostram isso, como também a primeira música que ouvimos, "Look Down" — que tem duplo significado no filme, servindo tanto para os pobres não olharem para os olhos dos ricos, e quanto para os próprios ricos que se recusam a olhar para baixo e ver a miséria do povo.

A escolha de Hooper por gravar os atores cantando ao vivo nas cenas enquanto interpretam, realmente fez diferença. Normalmente em Musicais, os atores gravam as músicas previamente em estúdio e, durante a gravação de suas cenas, apenas dublam. Mas em "Os Miseráveis", todos os atores cantaram enquanto atuavam, o que passou uma noção maior de realidade e aprimorou suas atuações.
Hugh Jackman e Anne Hathaway, que no Oscar de 2009 já tinham mostrado ao mundo que se garantem em musicais (Hathaway ainda repetiu a dose dois anos depois), brilham no filme. Não só perfeitos nas atuações, mas também cantando. Ambos foram justamente indicados ao Oscar. Russel Crowe, mesmo cantando num tom alto, não chega a comprometer e também tem seus bons momentos. Amanda Seyfried faz bonito, assim como os Eddie Redmayne e Samantha Barks, que compõe o triângulo amoroso no filme.


Porém, mesmo os atores fazendo suas partes, o roteiro de William Nicholson vacila em não trabalhar bem alguns aspectos do filme, como o relacionamento de Cosette (Seyfried) e Marius (Redmayne). É normal que em Musicais o romantismo tenha um papel maior do que numa produção mais fiél à realidade, mas esse amor devastador à primeira vista soa bobo, diferente, por exemplo, da versão de Bille August, onde o relaciomento deles dois (assim como o de Valjean com Fantine) é melhor desenvolvido. Além de não trabalhar o relacionamento do casal principal devidamente, o filme perde muito tempo explorando a parte "complementar" do triângulo, representado no amor não correspondido de Éponine por Marius. Claro que é agradável ver a bela Samantha Barks atuar e cantar, mas é uma pena que o personagem dela acabou tendo mais importância que a própria Cosette.

E esse não é o único problema do roteiro, que parece ter pressa em contar algumas partes da história que poderiam ser contadas com mais cuidado — sim, mesmo o filme sendo longo. O encontro de Valjean com o Padre que o salvou, por exemplo, é corrido, como se aquele não fosse um dos acontecimentos capitais da história. Enquanto conta alguns eventos da história com pouco cuidado, outros, menos importantes, são mais explorados. Toda a participação de Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohem é um exemplo. As partes dedicadas à dupla (principalmente a apresentação de seus personagens), servem para quebrar o clima dramático que domina o filme, porém o fazem de maneira muito forçada. Fora que os atores se tornaram caricaturas de seus personagens. Ambos parecem ter saído de "Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet" — outro Musical que gosto, por sinal.

Mas não cabe apenas críticas ao trabalho de Tom Hooper. Mesmo com sua identidade visual questionável, e os problemas do roteiro (que ele não assina, mas, como diretor, tudo tem que passar por sua aprovação) é inegável que ele também teve seus acertos. Ele consegue criar belas cenas, fazer com que um Musical de 2 horas e meia não fique (tão) cansativo, extrair grandes atuações de seus atores e criar empatia entre personagens e audiência — também, depois de esfregar na cara do espectador cada expressão facial de seus atores, se não conseguisse, eu não conseguiria descrever o tamanho do fracasso.


Outro acerto foi saber trabalhar bem as personalidades de seus personagens principais. Mesmo conhecendo-os por pouco tempo, sentimos como já o conhecessemos há muito, tendo lido ou visto outras versões da obra, ou não. Um detalhe interessante é quando, no meio da revolução, Valjean tem a chance de se vingar de Javert. Naquele momento, visualmente, os próprios personagens trocam de papéis no universo diegético (do filme) e interpretam personagens que são completamente o contrário do que representam (pelo menos legalmente): Valjean, fugitivo da lei, se finge de soldado enquanto Javert, homem da lei, de revolucionário. Só que na hora da verdade, tanto Valjean quanto Javert não conseguem trair suas verdadeiras personalidades e convicções. Valjean não mata Javert, que por sua vez, jura continuar o caçando. Foi uma sequência muito bem montada, que até pode ter na obra original, mas, se não fosse pensada com cuidado, não teria o mesmo efeito numa obra cinematográfica — o inverso também acontece, já que há cenas que parecem não funcionar no filme.

Se a direção e o roteiro têm seus defeitos, não há dúvida que o departamento mais competente foi o de Arte. Todo o design e direção, com a cenografia e figurinos, são belíssimos, montando com muito cuidado a França do Século XIX. Mas Hooper, como não podeia deixar de ser, acaba sufocando esse trabalho.
A trilha sonora, estrela do filme, é um espetáculo à parte com suas músicas que se encaixaram bem na adaptação para o cinema. Elas reforçam o clima que a história pede no momento, seja épico, emocionante, romântico ou de algo iminente, como a revolução.


"Os Miseráveis" é um filme difícil por ser um Musical com duas horas e meia. O gênero já não é muito popular, e com a duração exagerada, pode afastar ainda mais potenciais espectadores. Mas independente da preferência cinematográfica, o filme vale a pena pela sua bela história. Ainda mais por ela abrangir vários temas como romance, redenção, e até questões sociológicas — como cada classe se comporta diante da outra e como a indiferença levou a revolução. Apesar de ter um clima cético durante a maioria do filme ("Here is the thing about equality/everyone's equal when they're dead") não tem como sair da projeção com uma sensação de bem estar. E eu duvido que até o espectador com o coração mais duro não ficará mexido com o lindo e poético final que não fecha apenas a saga de Jean Valjean, mas engloba toda a história.

É um bom filme, apesar de seu diretor.

Les Misérables
Inglaterra, 2012 - 158 min.
Drama/Musical
Direção: Tom Hooper

Roteiro: William Nicholson
Elenco: Hugh Jackman, Russel Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Sacha Baron Cohen, Helena Bonham Carter, Eddie Redmayne, Samantha Bark, Daniel Huttlestone
Indicações ao Oscar: Melhor filme, Melhor ator, Melhor atriz coadjuvante, Melhor canção original, Melhor maquiagem, Melhor figurino, Melhor direção de arte, Melhor mixagem de som 

*Em negrito os prêmios ganhos

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Argo - Oscar 2013

★★★★☆
Ótimo

Apesar de já atuar desde 1981, Ben Affleck entrou definitivamente no radar de Hollywood em outra profissão: como roteirista. Junto com seu amigo Matt Damon, ele escreveu o longa "Gênio Indomável" em que também ambos atuaram. A estreia da dupla foi tão boa que eles foram reconhecidos com o Oscar de melhor roteiro em 1998. Até então Affleck só tinha atuado em papéis menores. De uma certa maneira, a sua carreira como ator se deve muito a sua de roteirista (o mesmo caso vale para Matt Damon).

A partir dali, Affleck se dedicou apenas a atuação, passando 10 anos sem se envolver com o que acontece por trás das câmeras. Porém, em 2007 ele voltou à atividade que catapultou sua carreira e roteirizou o filme "Medo da Verdade", que também foi sua estreia na direção. Três anos depois ele voltou a roteirizar e dirigir, com o filme "Atração Perigosa". Ambos os filmes foram muito bem recebidos pela crítica, colocando o seu nome entre os melhores diretores novatos.

Em "Argo", Ben Affleck dá mais um passo para se firmar no seleto grupo dos bons atores/roteiristas/diretores atuais. Dessa vez só dirigindo (o roteiro é de Chris Terrio), ele tem sido lembrado e premiado em várias premiações, porém foi "esnobado" no Oscar — seu nome, para a surpresa de muitos, não apareceu na lista de indicados a Melhor diretor. Em compensação, depois de ganhar premiações como o SAG e PDA, o filme desponta como favorito à estatueta de Melhor Filme.

O filme, baseado em fatos, conta a história de uma operação secreta da CIA para resgatar um grupo de americanos refugiados na casa do Embaixador do Canadá, no Irã, durante a revolução no País. O plano criado por Tony Mendez (Ben Affleck, que também protagoniza o filme) foi bem curioso e tinha tudo para dar errado: criar um falso filme do zero, entrar no Irã como desculpa de filmar lá e resgatar o grupo, que receberiam novas identidades com cidadania canadense, e seriam parte da equipe de filmagem do filme.


Uma das coisas mais legais em "Argo", é mostrar todo o processo de criação de um filme. Vemos a escolha de um roteiro, a burocracia na área ("Preocupado com o Aiatolá? Não conhece o Sindicato dos Roteiristas."), a produção, como os cartazes e storyboards, figurinos, e a divulgação na imprensa, inclusive com uma grande festa onde acontece um table-read (onde atores lêem o roteiro do início ao fim)tudo bancado pela CIA, vale dizer. Com 2 horas de duração e uma história que aborda um tema maior, obviamente não dá para entrar nos mínimos detalhes mas, mesmo assim, é divertido ver como o mundo Holywoodiano funciona.

Affleck tem uma atuação sóbria e contida, parecendo não querer que seu Tony Mendez apareça mais do que os outros personagens (afinal não há apenas um herói no filme, e sim vários) e a própria história. O seu elenco de apoio é de primeiro escalão. Os sempre excelentes Alan Arkin e Bryan Cranston estão ótimos, assim como John Goodman. O núcleo dos refugiados, embora composto por atores não tão conhecidos do grande público, também está muito bem, passando o clima de tensão e o estado de espírito dos personagens com perfeição.

Assim como em "Atração Perigosa" (nem tanto em "Medo da Verdade"), Ben Affleck tem sucesso em criar uma conexão entre os personagens e o público. O público consegue se importar até mesmo com personagens de menor expressão e entender o que eles sentem — mérito também dos atores, sem dúvida.
Numa sensível demonstração de ironia e olhar crítico, o diretor faz questão de mostrar rapidamente uma iraniana comendo no KFC, uma das redes americanas de fast food mais conhecidas, constrastando fortemente com o clima de perseguição a americanos. Porém, logo em seguida ele mostra uma pessoa enforcada em público, para lembar-nos que realmente ali realmente não é um dos melhores lugares para se estar.

Aliás, se há uma coisa que Affleck tem aprimorado em sua carreira como diretor é a forma como ele cria tensão em suas produções. A própria escolha por usar imagens de arquivo reais, para situar o espectador a cada desdobramento da história ajuda nisso, criando um clima de urgência, alarmismo. Esse recurso, quando bem utilizado, sempre dá mais credibilidade ao filme. E essa tensão impera durante todo o filme, desde seus primeiros minutos, atingindo o auge na sequência do aeroporto. Assim como os personagens, sabemos que cada minuto a mais que o grupo passa no Irã, eles estão mais próximos de um final não muito feliz. É claro que o filme provavelmente tem mais obstáculos que de fato ocorreu (a reserva da passagem que não aparece no sistema da companhia aérea na primeira vez, soa forçado), mas numa produção cinematográfica, isso é muitas vezes preciso. E ele cria esse clima como poucos. Mesmo já sabendo como o filme irá terminar, ficamos com o "coração na mão" ao testemunhar o que os personagens têm que passar até chegar aos seus conhecidos destinos na história.


Embora não ache que "Argo" seja o melhor entre os nove indicados a melhor filme, eu ficaria muito satisfeito se o filme levasse a estatueta. O filme é interessante, inteligente, tenso, tem seus momentos engraçados e, sem dúvida alguma, se conecta mais com o público do que o outro favorito, "Lincoln", que é um filme político, mais difícil.
A vitória de "Argo" significaria a quebra desse costume da Academia de premiar filmes mais artísticos, que não se conectam tanto com o público. Não seria a primeira vez que um filme popular ganharia, mas seria uma das poucas vezes. E numa premiação que cada vez perde mais audiência, a aproximação com o público é necessária. A Academia, que tem fama de ser conservadora, já começou a tentar falar a mesma linguagem da audiência ao aumentar a lista de indicados a melhor filme de 5 para até 10, tendo espaço para filmes mais populares. Porém, mesmo assim, continua coroando na maioria das vezes filmes "frios", que, muitas vezes, nem são os melhores.

Mesmo não tendo sido indicado a Melhor diretor, a vitória de "Argo" na maior premiação do Cinema seria um justo reconhecimento da ainda curta porém ascencional carreira de Ben Affleck.

Argo
EUA, 2012 - 120 min.
Suspense/Drama
Direção: Ben Affleck

Roteiro: Chris Terrio
Elenco: Ben Affleck, Bryan Cranston, Alan Arking, John Goodman, Victor Garber, Tate Donovan, Clea DuVall, Zeljko Ivanek
Indicações ao Oscar: Melhor filme, Melhor ator coadjuvante, Melhor roteiro adaptado, Melhor trilha sonora original, Melhor montagem, Melhor edição de som, Melhor mixagem de som

*Em negrito os prêmios ganhos 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

[Curtas] O Homem da Máfia / O Voo


O Homem da Máfia

★★★☆☆
Bom

 "Killing Them Softly" (título bem mais legal do que o que recebeu  aqui) é prejudicado um pouco pelo ritmo lento. O filme tem uma das cenas de assassinato mais legais que já vi no cinema. Chega a ser quase romântica.

Fora que o roteiro peca ao [Spoiler] (selecione o texto a seguir com o mouse para ler) dar uma grande importância ao personagem do James Gandolfini, parecendo que será importante... e descartam ele depois. Ele some e é só citado o que aconteceu com ele. [\spoiler]

Mas não é um filme ruim. Até gostei. Só que queria ter gostado mais.
O Brad Pitt está muito bem.
Gostei muito também dessa desilusão que o filme apresenta, indo completamente contra ao discurso de unidade e esperança do começo do governo de Obama e mostrando que a "América" é só um negócio.
 __________

O Vôo

★★★☆☆
Bom


O Voo é um bom filme que aborda bem o alcoolismo... assim como muitos outros. A já conhecida trajetória do "herói" perturbado está toda ali. Seus altos e baixos, e finalmente a redenção (antecipada por mais um baixo).
E o Denzel Washington passa isso tudo com muita competência. Ele faz uma belo trabalho e mereceu ser lembrado no Oscar.

A sequência do acidente é sensacional. Toda a forma como foi construída, a edição, os efeitos sonoros e visuais, o trabalho dos atores... Tudo excelente. O resultado é bem tenso.

O filme repete a mesma fórmula de muitos outros. Ele não vai mudar a sua vida. Mas mesmo assim é bem legal.