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domingo, 16 de fevereiro de 2014

O Lobo de Wall Street

★★★★★
Excelente

Como é bom quando vemos que um diretor de alto calibre como Martin Scorsese não perde a manha. Enquanto outros grandes nomes, como Steven Spielberg e Ridley Scott, revezam filmes bons com medíocres, Scorsese mantém o alto nível constante. Além disso, ele se acostumou como poucos aos novos tempos. Uma prova é o seu filme anterior, o belíssimo "A Invenção de Hugo Cabret", que tem um dos melhores 3D já vistos no Cinema.

Em sua nova obra, o diretor conta a infame história real do corretor da Bolsa Jordan Belford (Leonardo DiCaprio), o "Lobo de Wall Street", apelido ganho por enriquecer a custas dos outros. Já com o sonho de ganhar muito dinheiro, ele consegue um emprego em Wall Street aos 22 anos. Quando as coisas pareciam estar dando certo, vem uma crise que derruba as bolsas e Belford acaba na rua, junto com vários corretores. Ele descobre, então, um mercado de ações de baixo valor, onde, com a experiência ganha no seu antigo emprego, consegue rapidamente se dar bem enganando pessoas simples. Depois de trazer vários amigos para o negócio, ele abre a sua própria empresa, a Stratton Oakmont, que cresce e vai ganhando notoriedade, até entrar no radar do FBI.

A mudança de vida de Jordan não é vista somente na sua conta bancária. A riqueza traz um mundo de drogas, sexo e festas no qual o protagonista acaba envolvido. O superego do personagem é suprimido por seu modo de vida frenético, que envolve orgias na própria empresa, e viver quase que permanentemente drogado por vários tipos de entorpecentes. De alguma forma, lembro de muitas celebridades teens que, ao se deslumbrarem com o dinheiro, perdem a noção, talvez por alguma necessidade de se autoafirmar, pela adrenalina ou apenas porque acham que pode, por acreditarem que são protegidos pelo dinheiro. E na maioria das vezes, são mesmo.

Uma das coisas que mais se destacam em "O Lobo de Wall Street" é o clima "over the top" que impera em sua maior parte. Dos diálogos, passando pelo consumo de drogas, até as cenas de sexo e nudez — que são muitas. Como o filme foi financiado independentemente, Scorsese não teve problema com censura de estúdios. Entretanto, mesmo assim, o filme sofreu cortes para que não pegasse a maior classificação etária, o que limitaria o seu mercado.

Um grande acerto do filme é a montagem. É frenética e intencionalmente "defeituosa", em momentos em que Jordan está sob o efeito de drogas, ou seja, durante boa parte do filme. Em sua maior parte, "The Wolf Of Wall Street" (no original), é uma comédia tão absurda que um desavisado pode pensar que é uma obra de ficção, sem vínculos com a realidade — o filme ganha tons mais dramáticos no terceiro ato. Mas a verdade é que a vida e os "feitos" do Jordan Belford real foram transpassados do livro autobiográfico para a tela de uma forma bem próxima da realidade, do abuso de drogas à forma como ele construiu seu império. Apesar do filme não mostrar o lado de suas vítimas, o embate moral está presente, na sua vida profissional e familiar. Tanto nós quanto Jordan, sabemos que suas ações eram erradas, mas o personagem sempre prefere pegar o caminho mais fácil em direção ao seu enriquecimento.


Vivendo agora em função do dinheiro — e do que vem com isso —, Jordan acaba se distanciando de sua família. O ápice é quando, já perseguido pelo FBI e forçado a fazer um acordo que entregará seus colegas, sua segunda mulher, Naomi (a linda Margot Robbie), avisa que vai deixá-lo, levando a filha deles. Ele surta, a agride, e tenta sequestrar a menina, mas acaba batendo o carro. Scorsese cria uma dos planos mais belos do filme quando o sangue da testa ferida de Jordan escorre pelo seu olho, formando uma lágrima. O uso da cor vermelha para designar culpa é uma das marcas do diretor, que a usa há décadas ("Os Bons Companheiros" é um ótimo exemplo). A expressão facial de DiCaprio ao "chorar culpa" acusa o momento em que o personagem, que quase machucou sua filha, se dá conta de tudo que fazia. Por mais que ferir financeiramente desconhecidos não o fizesse se sentir culpado, ao ferir fisicamente sua família, sua ficha cai. Ele estava prestes a entrar no ponto de não retorno de sua jornada (i)moral.

A sua queda, arquitetada pelo agente Patrick Denham (Kyle Chandler, de "A Hora Mais Escura"), desmantela seu império, e o força a viver sóbrio — das drogas e do dinheiro (seu vício preferido, como ele mesmo diz) —, o que chega a ser irônico, pois só então, perdendo tudo, ele recupera sua alma. Uma troca bastante justa, eu diria. Jordan Belford hoje vive ganhando dinheiro legalmente, como palestrante motivacional. Porém, mesmo ao se colocar no lugar de suas vítimas e imaginar ser uma situação terrível, ele não pensa em se retratar, ao menos pessoalmente, com seus credores.



O roteiro de Terence Winter, que é mais conhecido no mundo das séries (é o criador de "Boardwalk Empire", que Scorsese produz, e foi roteirista de "Família Soprano"), acerta em dar um tom cômico ao filme, que normalmente uma produção com tanto peso moral não teria. A maneira como o protagonista "conversa" com o público (a famosa "quebra da 4ª parede), explicando termos técnicos, causa uma maior aproximação entre personagem e audiência. E os personagens por mais inescrupuloso que sejam, provocam uma certa empatia no público — o que causou revolta nas vítimas do Lobo e seus comparsas.

Méritos também ao elenco, que aproveitou bastante a liberdade de improvisar concedida por Scorsese. Todos os atores dão o melhor de si e dão ainda mais força ao roteiro de Winter. Leonardo DiCaprio está impagável e consegue fazer seu personagem passear entre os extremos da insanidade e vulnerabilidade. Apesar das três horas de filme, eu assistiria mais dez minutos dele se arrastando e tentando entrar no carro. É uma pena que, mais uma vez, ele deve perder o Oscar e, dessa vez, para um colega de elenco: Matthew McConaughey (concorrendo por "Dallas Buyers Club"), que está ótimo em sua pequena participação, como o primeiro chefe de Jordan. Outro destaque é Jonah Hill. Se na época de "Moneyball" a sua indicação ao Oscar de Ator Coadjuvante causou certa estranheza, em "O Lobo de Wall Street" não há a menor dúvida.


Em um filme em que o que mais se vê é adoração (por parte dos personagens) ao dinheiro, sexo e drogas, o que fica no final é o sentimento que a simplicidade pode ser muita mais recompensadora. A cena final, com o agente Denham no metrô, junto com outros trabalhadores, faz uma forte antítese com o estilo de vida "living large" praticado por Jordan e pela maioria dos personagens do filme. E ainda mostra que coisas como voltar para casa de transporte público (algo que Jordan tinha usado para insultar o agente), acabam não importando diante da satisfação de conquistar algo com seu trabalho. Algo que Jordan Belford deve ter aprendido a essa altura. Ou não...

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Gravidade


★★★★★
Excelente


Alfonso Cuarón é um diretor que prima pela qualidade sobre a quantidade. Em quase 20 anos de carreira cinematográfica, ele tem apenas 6 longas em sua filmografia (e um segmento em "Paris, Eu Te Amo"), onde "E Sua Mãe Também", "Harry Potter E O Prisioneiro de Azkaban" e, principalmente, o seu último filme, "Filhos da Esperança", se destacam. Sete anos depois de "Filhos", o diretor mexicano reaparece com a que pode ser a obra prima de sua carreira.

"Gravity", no original, conta a história de Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) e Matt Kowalsky (George Clooney), dois astronautas que, ao fazerem uma operação de rotina fora da nave, são surpreendidos por uma chuva de lixo espacial que destrói a nave e os deixa à deriva no espaço ligados apenas um ao outro por um cabo. Correndo contra o tempo, os dois terão que fazer de tudo para conseguir chegar à outra estação espacial e conseguir se salvar.

Eu nunca estive e, provavelmente, nunca irei ao Espaço, mas o que experimentei durante os 90 minutos de projeção de "Gravidade" deve ser a coisa mais próxima da experiência que é estar a centenas de quilômetros acima da Terra. O filme é de um primor técnico impressionante. A edição e mixagem de som, combinados com a fotografia de Emmanuel Lubezksi ("Árvore da Vida") imergem o espectador nesse "mundo" escuro e sem som. O design de produção recria o interior das naves e estações espaciais com detalhes impressionantes.


Esses elementos ainda são somados à câmera de Cuarón, que, num lugar onde é impossível a vida, parece viva ao passear pelo espaço, como numa bela dança, enquanto nos mostra a imensidão de um lugar tão hostil.
Em "Filhos da Esperança", já pudemos ver o apreço que o diretor tem por longos takes e planos-sequência, com dois planos de tirar o fôlego — um passado todo dentro de um carro e o outro seguindo o protagonista interpretado por Clive Owen em meio a uma revolta de rebeldes. Em seu novo trabalho, Cuarón mais uma vez cria com maestria planos que duram minutos, sejam apresentando os personagens, no início do filme, ou os seguindo em seus momentos de tensão.

É muito bonito, também, a forma como o diretor utiliza por várias vezes a câmera subjetiva, se aproximando do capacete do personagem, "entrando" pelo vidro e, enfim, assumindo o seu olhar. Outras vezes, querendo mostrar o que os personagens veem e suas reações, Cuarón usa um primeiríssimo plano, inteligentemente focando nos seus rostos e, pelo reflexo do vidro do capacete, exibindo o que acontece.


Essa subjetividade é importantíssima para nos fazer entrar na mente do personagem e sentir na pele o que ele passa. Porém, isso não teria efeito se não fosse o roteiro escrito pelo próprio Cuarón e seu filho, Jonas, a precisa montagem e as atuações maravilhosas de George Clooney e, principalmente, Sandra Bullock. Seis meses foi o tempo que sua personagem passou em treinamento para a missão no espaço e foi também o tempo que Bullock levou se preparando fisicamente para o papel, enquanto estudava cada detalhe do roteiro e de sua atuação junto com o diretor. O resultado é uma das melhores atuações do ano.

Dentro do limite de tempo, os dois personagens principais são bem desenvolvidos. Matt Kowaski é um astronauta prestes a se aposentar, boa pinta e bem humorado, que ajuda a aliviar a tensão em alguns momentos. Ryan Stone é uma médica em sua primeira missão espacial. Logo sabemos que ela recentemente sofreu uma tragédia pessoal e entendemos o motivo (ou um deles) que a levou a ir trabalhar no espaço. Apesar de continuar com seus deveres, depois do trauma ela para de viver. Esse elemento do seu passado a faz ficar a vontade com o silêncio oferecido pelo espaço.

[Desse ponto em diante, haverão spoilers sobre momentos-chave da trama do filme]


A partir desse momento, o verdadeiro significado do filme começa a se desenhar e podemos aos poucos perceber do que a história contada se trata. Já não estamos mais assistindo a um filme sobre uma astronauta em perigo, e sim, estamos testemunhando o renascer de uma pessoa. Isso é muito bem ilustrado com o belíssimo plano em que Stone, após conseguir entrar na estação russa e tirar seu equipamento, é enquadrada flutuando por alguns segundos em posição fetal enquanto descansa, remetendo a um bebê no útero.

Uma vez que o sentido principal é entendido, o filme deixa de ser apenas uma obra bonita, para se tornar algo intenso, uma experiência autêntica. Não há nada mais lindo do que o renascimento da vida numa pessoa — a vida como um sentimento, e não como um período de tempo. Interiormente, Ryan morre junto com sua filha. Não havendo mais pelo que viver, ainda na Terra, ela vivia o resto dos seus dias dirigindo, sem rumo, pois era assim que ela se sentia. Todavia, quando ela olha nos olhos da morte, várias vezes (sim, os obstáculos do filme parecem ser um pouco excessivos), ela descobre uma força que nunca imaginou ter. Se revela, então, um do maiores conceitos do filme: do ambiente mais estéril conhecido, nasce uma vida.


Mas Cuarón não para por aí. A última sequência, além de reafirmar a ideia do renascimento com Ryan "reaprendendo" a andar — no espaço, ela estava em gestação, como o plano já citado apresentou, enquanto seu nascimento se deu com sua chegada à Terra —, guarda um significado ainda mais profundo. Depois de quase se afogar, a personagem nada em direção a superfície, mas, alguns segundos antes disso, uma rã é vista também emergindo. A rã, que, como todos sabem, é o estado evoluído do girino após sofrer metamorfose, é inteligentemente posta nessa sequência em particular para indicar que Ryan evoluiu. Ela é um novo ser. E não só isso. Notem como a personagem, da água, vai lentamente se arrastando até a margem, até conseguir se levantar — como a vida terrestre teve início. A câmera ainda a enquadra de baixo para cima, a fazendo ficar maior e apontando sua mudança. Nesses segundos o diretor recria, ou melhor, personifica os milhões de anos de evolução na figura de Ryan Stone.

Por ser um filme quase todo passado no espaço e com muitas metáforas, comparações com o clássico "2001 - Uma Odisseia no Espaço" já foram feitas. Mas os dois diferem muito entre si. A obra de Stanley Kubrick se encaixa muito mais no gênero ficção científica que a de Cuarón, que pode ser classificado como um suspense dramático. Enquanto "2001" aborda a evolução numa maneira muito mais extensa (e ainda influenciada por terceiros), "Gravidade" é um filme muito mais pessoal, onde a evolução é intrínseca.


Com seu novo trabalho, Cuarón mostra que, para um filme ser genial, não precisa ter uma trama complicada. Mesmo quem não conseguir ler nas entrelinhas, poderá gostar do longa por sua simples história de superação da personagem de Sandra Bullock ante uma catástrofe e vários empecilhos. Algo muito diferente do próprio "2001", que é um filme tão comprometido com sua mitologia que não permite ao espectador que não entender a trama curtir o filme.

Há muito tempo eu não saía do cinema tão satisfeito. "Gravidade" vai muito mais além do "filme-catástrofe" — é um belo conto sobre renascimento e, mais que isso, evolução. Os méritos da obra vão muito além dos aspectos técnicos. A produção beira a perfeição, graças especialmente ao roteiro dos Cuarón e a atuação iluminada de Sandra Bullock. A metáfora do renascimento de Ryan Stone como uma pessoa evoluída é linda e muito bem apresentada. O filme, sem dúvida, já é um dos melhores do ano e será lembrado por muito tempo.

"It's time to stop driving. It's time to go home."

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Círculo de Fogo


★★★★★
Excelente

Conhecido por seus filmes de terror e fantasia, como "O Labirinto do Fauno", "A Espinha do Diabo" e "Hellboy", o multitarefa Guillermo Del Toro — que já havia produzido "Mama" esse ano — dessa vez se joga de cabeça num sonho antigo seu (e de 90% dos jovens que cresceram  principalmente nos anos 80 e 90): um filme sobre monstros contra robôs gigantes.

Na trama, legiões de monstruosas criaturas, conhecidas como Kaiju, começam a emergir do Oceano (mais precisamente do Círculo de Fogo do Pacífico) e destruir cidades ao redor do mundo, matando milhões de pessoas. Quando as armas convencionais não se mostram o bastante para deter os monstros, a Pan Pacific Defense Corp começa a criar enormes robôs controlados por dois pilotos para defender as cidades. Nasce o Programa Jaeger. A princípio um sucesso, os Jaegers não conseguem resistir por muito tempo devido às aparições cada vez mais frequentes dos Kaijus e ao custo e demora na fabricação e reparo dos robôs.
A PPDC, então, decide suspender os fundos do Programa e dar prioridade à construção de muros em volta das cidades. Contrariado com a decisão, Stacker Pentecost, o responsável pelo Programa Jaeger, decide levar os quatro Jaegers remanescentes para o último post de batalha em Hong Kong, onde pretende liderar um ataque final.


Uma das coisas mais legais do filme é subverter a máxima do herói de ação, na maioria das vezes, americano. Em "Pacific Rim" (título original), a Pan Pacific Defense Corp, organização criada para defender a humanidade dos Kaijus é transnacional. Pentecost, o comandante do Programa Jaeger, é britânico e as equipes que pilotam os quatro robôs principais são da China, Rússia, Austrália e, no caso do Gipsy Danger, um americano e uma japonesa. Raleigh Becket (Charlie Hunnam, da série "Sons Of Anarchy"), um piloto aposentado e traumatizado por um evento do passado, e a inexperiente Mako Mori (Rinko Kikuchi, de Babel) são os personagens principais que se levantam como heróis quando tudo dá errado. E, apesar de Becket ser o óbvio protagonista, uma vez que a personagem de Mori é apresentada, a trama começa a girar em torno dela. Vemos a história através dos olhos de Becket, mas é Mori quem se torna a protagonista do filme.


Se um filme de ação/ficção científica com uma heroína já não é comum em Hollywood, um filme em que a heroína não seja sexualizada, é raridade. Del Toro queria que os personagens e seus dramas fossem o foco do longa, e não seus físicos (ainda assim ele presenteia as mulheres com um Charlie Hunnam sem camisa por alguns segundos) ou, ainda vou mais longe, os robôs. Sim, os robôs são as coisas mais divertidas no filme, mas sem os humanos, eles são milhares de toneladas de metal inanimado. A "alma" desses seres gigantes é o que os move, assim como a alma dos personagens é o que move o filme. Um elemento bem inteligente (e legal, vai!) que mostra isso é a conexão neural que os pilotos precisam fazer para pilotar os Jaegers. Duas pessoas (ou três, no caso dos chineses) compartilharem as mentes quer dizer compartilhar alegrias, tristezas, virtudes, defeitos, medos, decepções, fraquezas, traumas, e tudo o que nos faz humanos. Dentro de um Jaeger os pilotos — e o robô — se tornam um.

O significado disso é muito mais profundo e interessante do que qualquer embate entre um Jaeger e um Kaiju. E devo dizer que as batalhas são excepcionais. Apesar de serem feitas completamente com computação gráfica, não há uma cena em que os movimentos — seja dos seres gigantes, do mar, ou dos ambientes destruídos — soem artificiais. Del Toro e o supervisor de efeitos especiais, John Knoll, passaram semanas discutindo a física dos Jaegers e Kaijus e até os detalhes da reação que eles causariam nos ambientes (como o tremor das janelas de prédios causados pelo deslocamento de ar quando um Jaeger passa por eles). O resultado são efeitos visuais muito reais e impressionantes.


Um elemento que chama atenção na fotografia do filme é as cores, que são bem fortes. Pela primeira vez, Guillermo del Toro e Guillermo Navarro (diretor de fotografia com quem já trabalhou várias vezes) optaram pelas câmeras Red Epic, que tem uma saturação bem intensa de cores — muito maior do que uma câmera analógica. Essa intensidade das cores dá ainda mais vida aos planos que sempre buscam ostentar o tamanho das imensas criações do diretor, frequentemente os mostrando de baixo e os comparando com outros objetos e construições enormes, como arranha-céus, pontes, e até a própria profundidade do mar, onde os Jaegers raramente ficam submersos. Um momento que ilustra bastante essa ideia de proporção e que, particulamente, eu esperava muito desde que vi o trailer, é quando Gipsy Danger usa um navio cargueiro como espada, na batalha contra um Kaiju em Hong Kong (cidade onde a maioria da ação acontece). É um daqueles raros momentos em filmes pipoca em que penso "gostaria ter tido essa ideia" — a sequência da explosão do gramado enquanto um jogador faz um touchdown, em "Batman - O Cavaleiros das Trevas Ressurge", é outro momento desses.

Apesar de suas muitas qualidades, porém, o filme tem seus pontos fracos. A maioria deles mora no roteiro escrito por Travis Beacham e pelo próprio del Toro, que abusa de personagens, situações e diálogos clichês. Temos o comandante casca grossa (o sempre ótimo Idris Elba, de "Prometheus"), o piloto arrogante que rivaliza com o mocinho e o cientista maluco que funciona como escape cômico. Aliás, em "Círculo de Fogo" é uma dupla de cientistas — Newt Geiszler e Gottlieb, irritantemente interpretados por Charlie Day e Burn Gorman, respectivamente. Outro personagem responsável pelo humor é Hannibal Chau, um vendedor de partes de Kaijus no mercado negro, interpretado por Ron Pealman (também de "Sons Of Anarchy", e "Hellboy").
Há ainda situações que soam artificiais, como quando Becket e Mori "checam o pulso" de um Kaiju já morto. Percebe-se claramente que é uma cena apenas com o objetivo de impactar visualmente. Provavelmente na cabeça de Del Toro a cena teria um efeito empolgante ou até cômico quando, na verdade, soa bobo.


Entretanto, os visíveis defeitos e tropeços no roteiro não tiram o mérito do diretor e de seu filme excelente, que não só funciona como bom entretenimento, mas também é capaz de despertar a criança interior de muitos marmanjos, que certamente sentirão uma sensação de nostalgia vendo as batalhas colossais.
E, mesmo sendo cheio de metal e monstros, "Círculo de Fogo" não é um filme bruto, artificial, mas sensível, que envolve o espectador, principalmente pela força de seus personagens. O elo que Guillermo del Toro cria entre Raleigh e Mako é muito bonito. É emocionante quando, perto do final do filme, Raleigh diz à ela "All I have to do is fall, Mako. Anyone can fall". É verdade que a fala teria ainda mais peso se o destino de seu personagem fosse diferente, mas, por tudo o que significa, pela construção da cena, e interpretação de Charlie Hunnam (que merece ser mais conhecido) é um momento comovente e importantíssimo para a história do filme.

"Círculo de Fogo" é um dos melhores filmes do ano, mas com um texto mais cuidadoso seria ainda melhor do que já é. Não é uma produção que visa premiações, ainda assim é capaz de tocar e envolver o público de uma forma que muitos filmes oscarizados não conseguem.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

[Fora de Série] Hannibal - 1ª Temporada


Acho que "Hannibal" é uma boa escolha para começar essa nova seção do blog. A série terminou de ser exibida recentemente no AXN, portanto não precisarei me preocupar com spoilers. Mas, de qualquer forma, já aviso que terá alguns detalhes sobre a primeira temporada.

2013 parece ter sido o ano escolhido para levar o cinema para o mundo das séries. Além de "Hannibal", ainda tivemos "Bates Motel" (que ainda escreverei sobre). Ambas estrearam sob olhares duvidosos, pois explorariam o passado de dois ícones do cinema: Hannibal Lecter (de "Dragão Vermelho" e "O Silêncio dos Inocentes") e Norman Bates (de "Psicose"). Porém, para alegria dos fãs de suspense, as séries foram sucesso de crítica. Apesar de "Hannibal" ter lutado contra a baixa audiência (dificuldade não encontrada por "Bates Motel"), a série conseguiu ser renovada para a segunda temporada, que promete ser muito boa.

Sem mais delongas, desde o início gostei muito da proposta de "Hannibal", que aposta numa mistura de série criminal (com casos semanais), com suspense e drama psicológico. Mesmo quando os casos não tem a ver com o arco principal, a trama evolui através dos personagens. Mas algo que, passada a primeira temporada, ainda não consegui me acostumar, é a retratação completamente diferente de Will Graham (interpretado pelo ator britânico Hugh Dancy, de "The Big C"), que, aqui, tem um "quê" de esquizofrênico — no episódio 10, "Buffet Froid", descobrimos o motivo de seus problemas. Porém, com o tempo, aprendi a ao menos aceitar essa nova abordagem para o personagem. Já o Hannibal Lecter de Mads Mikkelsen (de "Casino Royale" e "A Caça"), mesmo bastante diferente do de Anthony Hopkins, foi do meu agrado. É um personagem misterioso e inteligente que sempre está a um passo a frente dos heróis e, quando não está, consegue virar o jogo ao seu favor. E ver a sua evolução como vilão é algo bem interessante. O jeito como Hannibal vai fazendo de todos os seus cúmplices (de assassinatos e/ou mentiras) é sensacional.


A estética visual de "Hannibal" também chama atenção pela inteligência em elementos como design de produção, direção de arte e fotografia, e pela falta de censura nas cenas de violência, que são bem gráficas. — difícil acreditar que a série é exibida num canal aberto, tamanha violência mostrada. O nível de gore é notável. Um prato cheio pra quem gosta (expressão bem pontual numa história sobre um canibal, aliás). E quando a violência gráfica dialoga com um bom roteiro, o resultado é melhor ainda. Como no início do episódio 9 ("Trou Normand"), quando uma paisagem paradisíaca é seguida por um totem de corpos mutilados, resultando numa bizarra ironia visual. Michael Haneke abre o seu último filme "Amor" com algo parecido, mostrando um corpo morto na cama, no momento em que aparece o título do filme. Algo sutil, mas que funciona muito bem e tem um significado forte na história.
Vale citar a referência a "O Iluminado" feita logo no primeiro episódio e o modo como a série apresenta a forma como Will observa e descobre detalhes da cena do crime, recriando o assassinato, com um tipo de flashback, mas em camadas. Algo bem legal de se ver.

Um detalhe interessante da fotografia da série é a profundidade de campo mínima que é usada na grande maioria das cenas, deixando só os atores focados e "embaçando" o resto do ambiente. Pessoalmente, isso me incomoda. Porém, talvez esse seja o objetivo: causar desconforto. Uma profundidade de campo pequena tende a fazer com que o ambiente pareça menor, causando até uma certa sensação claustrofóbica. Não sei se isso acontece com mais alguém, mas é exatamente isso que eu sentia vendo os episódios. E sendo "Hannibal" uma série psicológica, com um clima quase opressivo (algo bem explorado pela direção de arte), acho que esse detalhe foi fundamental para a construção desse mundo, e mais do que isso, para emular o que os personagens sentem (principalmente Will). Mesmo ainda me incomodando, reconheço que é um recurso genial.


Finalizando, com uma trama interessante, inteligente, violenta e assustadora (para nenhum fã de filmes de terror botar defeito), e poucos pontos fracos (o descuido com alguns personagens, como Bella Crawford e Freddie Lounds, que somem), "Hannibal" teve uma ótima temporada de estreia. O atual triunfo de Hannibal sobre Will, e como o herói irá reverter essa situação e provar sua inocência, já deixa uma alta expectativa para a próxima temporada, que só voltará em 2014. E esse combate entre duas mentes geniais — uma, especialista em prever passos, a outra em refazê-los — provavelmente durará um bom tempo. Isso se a audiência não atrapalhar.

domingo, 14 de julho de 2013

O Homem de Aço


★★★★☆
Ótimo

Talvez a maior ironia em relação ao Super Homem, o super herói mais famoso da história, é que sua indestrutibilidade é seu maior ponto fraco na disputa com outros heróis pela preferência do público. Com toda sua força, poderes e praticamente nenhuma fraqueza, o kryptoniano se distancia de heróis mais humanos (no sentido falível da palavra), como o Homem Aranha, um fotógrafo pobre com poderes adquiridos por meios radioativos, e Batman, que, apesar de milionário, é um dos heróis mais humanos, por sua vulnerabilidade física e emocional.

A dificuldade de adaptar o personagem para a telona é percebida só de olhar a carreira de Clark Kent no Cinema. Dos 5 filmes lançados, apenas os dois primeiros, de Richard Donner e Richard Lester, são tidos como relevantes. Portanto, Zack Snyder — diretor com muitos filmes de ação no currículo, como "300", "Sucker Punch" e "Watchmen" (um dos melhores filmes de super heróis já feitos) — sabia do peso da responsabilidade (e das duas centenas de milhões de dólares, diga-se de passagem) que estava em suas mãos. Com o sucesso cada vez maior da Marvel, e com o término da saga do Batman, a Warner Bros. precisava de uma nova "super saga" urgentemente. Falhar não era uma alternativa.

E a boa notícia é que Zack Snyder não decepciona. "Man Of Steel", filme mais sobre Kal-el do que Clark Kent, mesmo com seus defeitos, é um ótimo filme, além de ser diferente de tudo que já vimos em adaptações do Superman para as telas, grandes ou pequenas. Esqueça a famosa trilha sonora de John Williams, o inocente e unidimensional Super Homem de Christopher Reeve, a baboseira de defender o "jeito americano" e tudo referente ao filme de Donner e suas sequências. "O Homem de Aço" é bem mais maduro e sério. E isso já era esperado pela presença de dois grandes nomes envolvidos no projeto: Christopher Nolan e David S. Goyer — ambos vindos da trilogia do Cavaleiro das Trevas. Enquanto Nolan aparece apenas como produtor dessa vez, Goyer é responsável pelo roteiro.


A trama de "O Homem de Aço" apresenta muitos elementos de ficção científica, e essa característica é percebida logo nas primeiras cenas do filme, ambientadas em Krypton. Snyder faz uma remontagem bem curiosa do Planeta natal de Kal-el, com um território aparentemente hostil, visualmente decadente, que contrasta com a tecnologia avançada dos kryptonianos — a própria exploração de recursos naturais condenou o planeta a destruição. Aliás, algo bem interessante no design de Krypton é essa contradição entre o moderno e o arcaico. Ao mesmo tempo em que o povo kryptoniano é muito avançado tecnologicamente, seus habitantes mais importantes usam armaduras de batalhas, como os povos antigos da Terra, e suas máquinas, mesmo com visuais "orgânicos", estranhamente parecem datadas. A concepção de arte e o design de produção do filme parecem ter se inspirado nas obras de H.G. Giger. As armaduras, máquinas e cenários de "O Homem de Aço" remetem às obras do criador do Alien mais temido do cinema.

Possivelmente um dos maiores erros do roteiro de Goyer comece exatamente depois da introdução em Krypton — em que, sabendo que o planeta vivia seus últimos dias, Jor-el manda o seu filho recém-nascido para a Terra, contrariando General Zod, que promete achá-lo de qualquer maneira. De lá, somos apresentados a Clark já adulto, trabalhando num barco pesqueiro, onde pela primeira vez vemos um momento heroico do personagem. O problema é a mudança brusca de ambiente. Das cenas de ação em Krypton, o filme já leva o espectador para uma cena de ação no meio do mar. Não há preparação, naturalidade. A partir daí o filme conta a infância de Clark (Lana marca presença rapidamente) e a descoberta de seus poderes por meio de flashbacks, o que pode não ter sido uma boa escolha, por ser um filme sobre a origem de um herói. Por outro lado, a narrativa sendo linear, implicaria em desenvolver bem mais a infância do menino kryptoniano, e não apenas rápidas sequências. O filme, que já tem 140 minutos, poderia ficar bem maior.


A trama ainda tem outros dois problemas que incomodam: a utilização além do necessário de Jor-el (a sua consciência não serve apenas como guia para Kal-el descobrir sua origem) e o paralelo constante de Kal-el com Jesus Cristo — principalmente na sequência da igreja, onde ele divide um enquadramento com a imagem de Jesus num vitral, de maneira nada sutil.
Entretanto, se o roteiro vacila em alguns momentos, acerta em muitos outros, principalmente na construção de Kal-el como pessoa e herói, mesmo que seja algo diferente do que estávamos acostumados. Como nunca antes, vemos e sentimos Clark como um peixe fora d'água. Sofrendo na sua infância com a descoberta de suas habilidades (a frase "Pessoas têm medo do que não entendem" dita por Jonathan para Clark, vale para o próprio, que não entendia o porquê de ser diferente) e quando adulto, vagando de um lugar para o outro, como um nômade — porém, mais sem identidade do que lar.

Apesar de ser filho de dois mundos, Kal-el é estranho em ambos, já que é um alienígena na Terra e, por ser filho de concepção natural, uma abominação para os Kryptonianos — que nasciam já com uma "classe" e propósito estabelecidos (Jor-el, cientista, e Zod, Guerreiro, por exemplo). Todavia, como tudo no filme, há os dois lados da moeda, pois, ainda que não pertença a nenhum dos dois mundos, ele é o único ser livre de sua raça e um deus na Terra. Até Zod, inimigo mortal do Superman e um dos últimos sobreviventes de Krypton, é escravo de sua predestinação. Ele nasceu para proteger seu planeta e irá até o fim para isso.

E até o fim ele vai. Superman precisa testar toda a sua força para parar Zod e salvar a Terra, nem que para isso leve arranha-céus e todo tipo de construções abaixo. O resultado (meio over, é verdade) são cenas espetaculares de luta e destruição em Smallville, Metropolis e até no Espaço. Sim, se você achou que "Superman Returns" não teve ação o suficiente, já aviso que "Man Of Steel" é um prato cheio. O nível de destruição é capaz de ter levado Michael Bay às lágrimas, de alegria e emoção.


Outra coisa resgatada pelo filme, é o carisma do Superman, graças ao britânico Henry Cavill. Ele consegue passar para o público a solidão e o peso que o kryptoniano tem nas costas, com todas as nuances pedidas pelo personagem. Um exemplo de sua boa atuação é num flashback onde Clark, ainda adolescente, discute com seus pais. Em nada lembra o Clark calado que vemos na maioria do filme. Amy Adams interpreta uma Lois Lane forte e decidida, que foge da donzela que sempre precisa ser salva do vilão. Michael Shannon tem sucesso ao dar a Zod uma aura realmente ameaçadora, já o Jor-el de Russel Crowe representa a figura paterna e sábia. Outra figura paterna muito bem representada é Jonathan Kent. Kevin Costner, o melhor no elenco, não precisa de muitos momentos para brilhar como o pai de Clark Kent. Diane Lane também aproveita seu pouco tempo na tela para esbanjar sensibilidade, especialmente na sequência em que ela precisa confortar o seu filho, assustado com os dons recém-descobertos da super audição e visão de raio x. Os atores Cooper Timberline e Dylan Sprayberry, que fazem Clark com 8 e 14 anos, respectivamente, também fazem ótimos trabalhos.

Outro elemento a se destacar é a belíssima trilha sonora do sempre genial Hans Zimmer. Desde o início com o clima de urgência em Krypton, passando pelos momentos mais dramáticos às lutas de Superman com Zod, a trilha se encaixa perfeitamente e emociona. Percebe-se o tom completamente diferente dos filmes do Batman, por exemplo. Zimmer é um compositor que se adapta muito bem aos diferentes tipos de filmes.
Apesar da trilha ser diferente da trilogia do Cavaleiro das Trevas, Christopher Nolan trouxe para "O Homem de Aço" o mesmo clima sério e épico. Não há espaço para muitas piadas, e as poucas que têm são mais visuais, e até bem inteligentes. Em uma delas, vemos um plano fechado na palavra "ALERT" em vermelho logo depois do Governo Americano descobrir a nave de Zod em direção à Terra. Mas logo a câmera abre o plano e é revelado que é o alerta da falta de papel da impressora que Lois usava. A falta de humor tem sido um dos motivos de críticas ao filme, mas eu acho interessante uma pegada mais séria nos filmes da DC Comics, diferentemente dos filmes da Marvel.


Com todos esses altos e baixos, Zack Snyder faz um filme um pouco problemático, mas divertido e eficiente, conseguindo honrar a grandeza que esse personagem representa para a cultura pop. O diretor desmonta o mito de perfeição do Superman, um herói que precisava se inovar e se adequar ao mundo de hoje — um mundo menos colorido (como sua roupa) e onde fazer o certo pode significar sujar suas mãos (como a decisão que ele toma perto do final). Clark Kent passa a se assemelhar, também, com os dois heróis citados no início da crítica — vivendo com pouco dinheiro e buscando seu lugar no mundo.

Percebe-se que é apenas o primeiro passo para o estabelecimento de uma franquia, pois Kal-el ainda parece não ter chegado à maturidade de seus poderes e de sua personalidade. Esse ainda não é o Superman que daqui a alguns anos veremos liderando a Liga da Justiça. Mas, de qualquer forma, foi um bom primeiro passo, e com o pé direito.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Segredos de Sangue

★★★★☆
Ótimo


Texto com pequenos spoilers sobre a trama do filme.

O cinema coreano tem crescido muito nos últimos anos, inclusive exportando seus diretores para Hollywood. Curiosamente, três deles tiveram filmes programados para 2013. O primeiro da leva foi Kim Ji-woon (conhecido pelo excelente "Eu Vi O Diabo" e pelo terror "Medo") que dirigiu o novo filme de Arnold Schwarzenegger, "O Último Desafio". Bong Joon-ho ("Memórias de Um Assassino" e "O Hospedeiro") roteiriza e dirige "Snowpiecer", uma ficção científica com um elenco estelar, com direito ao Vingador Chris Evans e as ganhadoras do Oscar Tilda Swinton e Octavia Spencer, mas ainda sem data para estrear. E dia 14 chegou aos cinemas brasileiros o suspense "Segredos de Sangue", 10º longa do elogiado diretor Park Chan-Wook, mais conhecido pela Trilogia da Vingança (que tem em "Oldboy" seu ápice), e por seu último filme, o vampiresco "Sede de Sangue".

"Segredos de Sangue" conta a história da família Stoker (nome original do filme). Depois que o pai da introvertida India (Mia Wasikowska) morre, o seu tio Charles (Matthew Goode), que ela nunca soube que existia, vai morar com ela e sua mãe, Evelyn (Nicole Kidman). Charmoso e simpático, ele logo ganha a confiança de sua mãe, mas India começa a suspeitar que ele não é tão perfeito assim. A presença de Charlie irá fazer com que India descubra detalhes sobre o passado sombrio da família Stoker e sobre ela mesma.

Diretor que costuma realizar filmes com personagens excêntricos e bem desenvolvidos, Park Chan-Wook dessa vez aposta em tipos mais normais, ao menos à primeira vista, e concentra seu apreço pelo diferente no visual do filme, que é o que realmente chama a atenção. São planos imprevisíveis, com enquadramentos curiosos que valorizam o filme e ajudam a contar a história, já que a narrativa, dessa vez não é de tão alto nível.


A princípio remetendo ao Hitchcockiano "A Sombra de Uma Dúvida" (até no nome do tio), "Segredos de Sangue" se revela o oposto, já que, ao contrário do suspense de 1943, a sobrinha e o tio acabam tendo algo em comum. Pistas de que há algo de diferente em India vão sendo dadas desde o início do filme, mas só descobrimos (junto com ela) com o desenvolvimento de sua relação com Charles. E o auto conhecimento é tema forte no filme. India está em transição da adolescência para a fase adulta — o longa começa no dia de seu 18º aniversário. Ela sente emoções, ímpetos, que não sabe explicar. Seu tio acaba funcionando como um guia.
Em determinado momento, vemos que o falecido pai de India sabia muito bem o seu "segredo", porém conseguia administrá-lo, funcionando até como um tipo de super ego. O tio Charles tem o objetivo de liberar os impulsos da jovem, se transformando no Id. O resultado desde embate será muito interessante, ainda que não chegue ao nível dos clímax de outros filmes do diretor.

Porém, mesmo que o desenvolvimento da história esteja um pouco abaixo do padrão Park Chan-Wook, o diretor mostra uma exímia sensibilidade na hora de filmar e decupar o filme. Além dos já citados planos originais, ele utiliza, por exemplo, vários belos raccords* tanto para dar noção de elipses (a imagem de India caminhando no caminho que leva a sua casa sobrepõe a dela caminhando sozinha na estrada), quanto de flashbacks (funde os cabelos de Nicole Kidman sendo penteados a um campo onde India e seu pai caçavam).

*Raccord: ligação entre duas cenas por efeito visual ou sonoro, para reforçar ideia de continuidade.


A direção de arte acerta em cheio no clima do filme, utilizando cores sempre harmoniosas, como lilás, azul e laranja, mas sempre com atenção especial no verde e no vermelho em cenas chave. A iluminação e os filtros da fotografia de Chung-hoon Chung ajudam na padronização das cores do filme, como na sequência externa em que India tem um encontro com Whip. Não bastasse o ambiente com muita grama e árvores, percebe-se um cuidado especial no filtro utilizado nas câmeras, inteligentemente dando um tom ainda mais esverdeado à cena, já que é quando a natureza de India é revelada (ou pelo menos aparece mais). Se o verde representa a natureza (bastante explorada no filme), o vermelho forte, quase vinho, o sangue — no sentido de família e da violência que existe dentro da personagem principal.

Na mesma sequência citada de India com Whip no parque, vale citar o belo efeito que a câmera de Chung cria ao filmar India num plano médio girando no roda roda, dando inclusive um certo ar sobrenatural à jovem, que parece estar flutuando. Toda a sequência foi muito bem dirigida e nos dá a noção de uma predadora seduzindo sua vítima. Trabalho notável de Mia Wasikowska.
O diferencial de India é muito bem explorado especialmente em duas outros momentos também. Na sequência dela na mesa da cozinha, escutando o barulho da casca do ovo se quebrando, e a da aula de pintura, em que, enquanto todos pintam o vaso usado como modelo, ela pinta o padrão do lado de dentro do vaso ("Meus ouvidos ouvem o que outros não podem ouvir. Coisas pequenas e longes que pessoas não podem ver normalmente são visíveis para mim.")


Por tudo isso, "Segredos de Sangue" vale mais como um exercício visual do que como narrativo, já que peca um pouco no desenvolvimento da trama, e fica a impressão de que o roteiro de Wentworth Miller (ele mesmo, o Michael Scofield de "Prison Break") não teve o seu potencial máximo aproveitado. Mesmo assim Park Chan-Wook não decepciona em sua primeira empreitada no cinema americano, compensando a fragilidade da narrativa na forma como ele utiliza recursos visuais e metafóricos para enriquecer o estudo de seu personagem principal, India — a aranha, mais um exemplo, simbolizando o despertar de sua sexualidade.

Pelos muitos simbolismos (muitos nem citados nessa crítica), é um filme que vale ser visto mais de uma vez, pois certos detalhes só serão captados e completamente compreendidos depois de uma revisita ao filme.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Novidade no blog: Notas.

Já faz um tempo que eu pensava em implementar um sistema de avaliação para as críticas/comentários do blog. Acho que na maioria das vezes, o texto fala por si e, por ele, dá para perceber se quem escreve gostou ou não do filme, e se vale a pena ou não ver o filme. Por isso eu só colocava notas na seção [Curtas] por serem textos menores em que, por não falar muito sobre o filme, eu sentia que tinha necessidade de completar os comentários com uma avaliação. Porém, admito que grande parte das minhas críticas são escritas mais para quem já viu os filmes, pelo fato de eu gostar de discutir detalhes da trama ou da linguagem cinematográfica do filme que pode vir a ser spoiler.
Além disso, eu sei que nota é algo que as pessoas valorizam numa crítica (até muitas vezes pela preguiça de lê-la).

Dito isso, apesar de eu me sentir mais a vontade com um sistema indo de 0 a 10, decidi por algo mais habitual no campo da crítica cinematográfica: as famosas 5 estrelas. Como eu não costumo escrever críticas de filmes que eu não gosto, salvo algumas exceções, preferi variar mais as notas positivas do que as negativas.

Portanto, assim será:

★☆☆☆☆ = Ruim

★★☆☆☆ = Razoável

★★★☆☆ = Bom

★★★★☆ = Ótimo

★★★★★ = Excelente

Já atualizei todos os posts, e as notas já estão no ar.
Aproveitem para ler os textos novos e os antigos também. =)

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Homem de Ferro 3

★★☆☆☆
Razoável

Em 2007, a Marvel Studios estreou no universo cinematográfico para revolucionar a maneira como é feito os filmes de super heróis. Começando com um personagem que até então tinha papel secundário nas HQs da Marvel, a produtora lançou "Homem de Ferro", que até hoje é uma unanimidade dentre os fãs de quadrinhos e cinéfilos — um grande filme para ninguém botar defeito. Assim, a produtora mostrou a que veio e, a partir daí, lançou "O Incrível Hulk", "Homem de Ferro 2", "Thor" e "Capitão América", todos passados no mesmo universo e interligados entre si, até culminar no impressionante "Os Vingadores". Esse foi o final da Fase 1 da Marvel Studios.

Por isso, "Homem de Ferro 3" veio com duas grandes responsabilidades: fechar por cima a trilogia de Tony Stark, personagem mais querido da Marvel nos cinemas, e começar a Fase 2 com o pé direito. Infelizmente, o filme falha nos dois quesitos.
É o primeiro filme sem Jon Favreau na direção, que é assumida por Shane Black, criador da série "Máquina Mortífera" e diretor do ótimo "Beijos e Tiros" (protagonizado também por Robert Downey Jr.). Black, que também assina o roteiro (junto com Drew Pearce), faz um filme bobo que é mais comédia do que qualquer outra coisa — esqueça o tom sombrio tão enfatizado nos trailers.

Já buscando se conectar com o primeiro filme, uma das primeiras cenas de "Homem de Ferro 3" mostra o primeiro encontro de Stark com Yinsen, que o ajudou a construir a Mark 1 quando ele foi capturado no Afeganistão. Nesse mesmo evento onde os dois se encontram, Stark também conhece Aldrich Killian, que queria apresentá-lo um de seus projetos, mas acaba sendo ignorado já que o playboy estava ocupado demais com a cientista Maya Hanssen — e não por motivos profissionais.
No presente, um fragilizado Tony Stark tenta voltar a ter uma vida normal depois dos eventos de "Os Vingadores", afinal, conhecer semideuses, monstros verdes e combater forças extra terrestres vindas de um buraco de minhoca, mexe com qualquer um. E, não conseguindo mais dormir e tendo ataques de ansiedade, Stark passa o tempo construindo dezenas de armaduras e aprimorando suas tecnologias.
Enquanto isso, o mundo é assombrado por um terrorista chamado Mandarim, que num dos seus ataques acaba pondo em risco a vida de uma pessoa do círculo de Tony, que leva para o lado pessoal. Aí é onde a aventura começa e a sua vida pode terminar.


Apesar dos muitos defeitos, o filme tem um tema muito interessante: como os acontecimentos do passado moldam uma pessoa. Killian, enganado, e até pode-se dizer humilhado, por Stark no primeiro encontro dos dois, vira o jogo e se torna um brilhante e ambicioso cientista. Já Stark não consegue se livrar de seus medos e se esconde no seu casulo, a armadura. Ele já não consegue se sentir seguro fora dela (s). É impossível não lembrar da frase "A armadura e eu somos um" dita por ele em "Homem de Ferro 2". Só que na ocasião a frase tinha um sentido mais político e científico (de um inventor querendo defender sua invenção enquanto o governo queria confiscá-la). Agora, o sentido é literal, já que o que Stark busca é praticamente um estado de simbiose com a armadura.

O problema é que a resolução desse conflito de Stark não é só decepcionante como chega a trair a mitologia do herói. Aliás, muitas das resoluções das subtramas do filme são um tanto abaixo do esperado (como a do Mandarim, por exemplo, que com certeza deixou muita gente com raiva) e ainda deixam pontas soltas. O final escolhido por Black parece ter preocupado até Joss Whedon, que quando viu o filme comentou "Agora o que eu devo fazer? O que vou fazer em O Vingadores 2?". E realmente é uma "pepino" que passa para as mãos de Whedon, já que percebe-se que Shane Black não fez "Homem de Ferro 3" com uma ideia de continuidade, e sim de conclusão, o que é um erro já que o personagem é parte de um universo muito maior.


Mas se há uma coisa que Shane Black sabe fazer, e faz bem, é filme de ação com elementos cômicos. Você pode até não concordar com as escolhas narrativas que o diretor faz, mas a verdade é que o filme diverte. Não faltam cenas de ação com ótimos efeitos visuais — mesmo que a maioria seja sem as armaduras, ou pelo menos do Tony fora delas — e piadas. A escolha de tirar Tony Stark da sua zona de conforto e fazê-lo ser um herói apenas de carne e osso foi muito corajosa. O problema é que isso transformou o filme em algo muito parecido com a obra pela qual o diretor é mais conhecido. Sim, em determinados momentos, "Homem de Ferro 3" parece ser mais um "Máquina Mortífera" com armaduras e soldados luminosos do que um filme da franquia da Marvel. Há também elementos de filmes de espionagem, como quando Stark invade a mansão de Mandarim. A trilha sonora de Brian Tyler não deixa mentir, já que sua composição nessa sequência parece saída de um filme do James Bond.

Se o primeiro "Homem de Ferro" tentava ser um filme calcado no mundo real, o terceiro filme do herói toma muitas licenças poéticas em relação a HQ e a realidade, se tornando o filme mais fantasioso da saga.
Entre erros e acertos, "Homem de Ferro 3" fecha a trilogia de Tony Stark de forma decepcionante, deixando para "Thor: O Mundo Sombrio" a responsabilidade de ser o primeiro filme relevante da nova fase da Marvel.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O Substituto

★★★★★
Excelente


"Detachment" (no original) é o 6º filme de Tony Kaye, diretor mais conhecido pelo forte "A Outra História Americana" — que rendeu Edwart Norton uma indicação ao Oscar pelo seu papel de um Neo Nazista.
Em seu novo filme, Kaye aborda não só o problema na educação atual, mas expande a visão procurando a fonte desse problema, que tem piorado nas gerações atuais. Vemos alunos cheios de raiva, pais irresponsáveis e incompreensíveis e professores estressados, que muitas vezes levam seus problemas pessoais para a escola, comprometendo suas funções e relacionamentos com os alunos. Falta compreensão e a única coisa que todos compartilham, é o vazio que sentem, por mais contraditório que soe.

Até Henry Barthes (Adrien Brody, numa atuação arrebatadora), que é uma boa pessoa e professor inspirador, carrega seus demônios do passado que o impedem de se relacionar com pessoas e amá-las/ser amado — o nome original do filme, que quer dizer desapego ou distanciamento, é exatamente sobre isso. Quando o perguntam o porquê de ter escolhido essa profissão, ele foge da questão, mas durante o filme fica claro que esse seu problema é o verdadeiro motivo que o leva a ser um professor substituto (não querer ficar muito tempo num lugar e se apegar aos alunos) e ter entregado Erica, uma adolescente que se prostitua e foi acolhida por ele, ao Serviço Social — ele só se "livra" dela depois dos dois terem criado um laço muito forte.

Todos os personagens tem dificuldades em sua vida pessoal que comprometem seus deveres. Seja professores que não conseguem mais dar conta do ensino, pais que negligenciam os filhos (a sequência da reunião dos pais mostra bem isso) ou alunos com problemas de auto-estima que não conseguem ter uma vida normal (dentro e fora da escola). O próprio Henry consegue conquistar e inspirar os alunos, até os mais problemáticos, mas uma vez que ele vai embora, ninguém pode assegurar que eles continuem no caminho certo. Se ele não tivesse seus conflitos e conseguisse assumir um compromisso com pessoas, provavelmente ele faria uma maior diferença na vida desses jovens que precisam de um modelo a seguir.


A fotografia do filme, feita pelo próprio Tony Kaye, assume um ar documental nas cenas da escola, se afastando um pouco dos personagens — talvez para reforçar a distância emocional. Já fora dela, primeiros e primeiríssimos planos são muito utilizados, procurando extrair o máximo da emoção dos personagens.
A montagem nervosa retrata perfeitamente o caos, principalmente na vida de Henry (vemos muitas cenas de seu passado e presente em certos momentos). O roteiro do estreante Carl Lund é muito bom, explorando a vida dos personagens e fazendo questionamentos oportunos — e ainda é potencializado pela direção de Kaye que o transforma num belo e poderoso filme.

"O Substituto" é interessante por não ser uma simples história de um professor que chega na escola e muda a vida do lugar e dos alunos. Aqui não há professores heróis, apenas seres humanos danificados. O caos está em todo lugar, inclusive dentro de cada personagem. E reconhecê-lo, entender sua origem, é vital para combatê-lo e encontrar a distante e já esquecida paz.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Terapia de Risco


★★★★☆
Ótimo

Se há um adjetivo que poderia descrever Steven Soderbergh como diretor, definitivamente seria: versátil. Sua filmografia variada vai desde filmes extremamentes pipocas, como "Onze Homens e Um Segredo", a cults como "Che", passando por longas de ficção científica ("Solaris") e ação ("À Toda Prova").
Em seu novo e provavelmente último filme, "Side Effects" (no original), ele faz um suspense que mistura o universo da indústria farmacêutica — já abordado, dentre outros temas, dois anos atrás, em "Contágio" — com elementos que remetem até a obras de Hitchcock e seus jogos mentais.

A trama do filme conta a história de Emily Taylor (Rooney Mara, da versão americana de "Os Homens Que Não Amavam as Mulheres"), uma mulher que sofre com ataques de ansiedade e depressão. Mesmo com a volta do seu marido (Channing Tatum) para casa, depois de passar 4 anos preso por um negócio ilícito na Bolsa de Valores, as crises não melhoram e a levam a uma tentativa de suicídio. No hospital, ela conhece o psiquiatra Jonathan Barks (Jude Law), com quem começa a se tratar. Ele prescreve um novo remédio experimental que a faz melhorar, porém, causa alguns efeitos colaterais inesperados que mudarão a vida de todos.

O roteiro de Scott Z. Burns faz "Terapia de Risco" parecer dois filmes em um. A princípio um filme de investigação que trata de temas sérios como depressão e a responsabilidade de médicos que são pagos por laboratórios para testar novos medicamentos em seus pacientes (com a permissão deles, é claro), o filme toma uma guinada inesperada que o transforma num grande suspense psicológico.
Dentro do que foi pretendido o filme funciona muito bem (apesar de forçar a barra em alguns momentos), pois consegue pegar o espectador de surpresa. Mas talvez poderia ser um filme ainda mais interessante se Soderbergh fosse mais a fundo nas questões mais sérias que começou a abordar, pois elas só funcionam como uma escada para a verdadeira trama. Além da depressão, como ele tinha começado a tratar do tema da indústria farmacêutica há dois anos, eu esperava que em "Terapia de Risco" ele fosse mais a fundo, "investigando" esse universo pouco conhecido do público, como o filme dá a entender. Mas ele pretere esses dois temas para puxar o tapete do espectador em nome de um thriller que, dependendo do ponto de vista, pode ser considerado inteligente e intrigante, ou bobo e ilusório.


Porém, mesmo com minhas ressalvas, admito que gostei do filme. Dentre esses bons e maus adjetivos que citei, eu usaria intrigante e ilusório como a minha definição do longa. Minhas reservas quanto à obra são mais por gosto pessoal — e até expectativa — do que por questões narrativas ou técnicas. A fotografia, assumida mais uma vez pelo próprio Soderbergh (sob o pseudônimo de Peter Andrews), é excelente e trás detalhes muitos interessantes. Um deles é na primeira consulta de Emily com Jonathan. No início da sequência a câmera enquadra Emily de cima para baixo (posição em que o personagem/objeto filmado diminui), mas à medida que ela vai falando sobre como conheceu Martin, a câmera vai abaixando até enquadrá-la de baixo para cima (fazendo-a crescer), sinalizando como ele a fazia bem, inclusive para sua auto-estima.
Seja por meio da iluminação ou da direção de arte, a paleta de cores frias e foscas, como um amarelo-pastel muito utilizado nos vários ambientes escuros, dominam o filme em sua maioria, enfatizando ainda mais o universo sem cores e o clima depressivo do filme.

"Terapia de Risco" é muito bem dirigido e tem ótimas atuações. A dupla de protagonistas — Jude Law e Rooney Mara — levam muito o filme. Law está muito bem como o psiquiatra numa posição difícil que precisa provar sua inocência. E Mara é perfeita em todas as nuances que seu personagem pede. Já Catherine Zeta-Jones, que interpreta a antiga psiquiatra de Emily, fica abaixo do resto do elenco, não fugindo da caricatura de uma psiquiatra.

Steven Soderbergh vem prometendo se aposentar como diretor desde 2011, mas esse é o seu segundo filme de lá para cá. Se "Terapia de Risco" realmente for o seu adeus ao Cinema, ele o faz com um filme se não perfeito, com qualidade inquestionável. O longa tem seus defeitos, não é a sua melhor obra, mas gostando ou não do rumo tomado, funciona muito bem como suspense, e consegue surpreender.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

A Morte do Demônio

★★★☆☆
Bom

Texto com pequenos spoilers.

Remake de um dos filmes de terror mais celebrados do cinema, "Evil Dead" (no original) estreou sobre forte alarde, com uma pré-estreia que causou muitos comentários nas redes sociais, inclusive de pessoas que não aguentaram ver o filme até o final — aquele blá blá blá de sempre, quando o assunto é filmes de terror atuais.

Mas essa nova versão nem de longe tem o mesmo "charme" do original. Por charme eu quero dizer o fator trash, meio amador, que um orçamento de apenas $350.000 proporciona a um filme com muitos efeitos especiais. O novo "A Morte do Demônio" saiu do papel já com status de grande lançamento, e foi distribuído por um grande estúdio (Sony), algo que Sam Raimi sequer poderia sonhar quando fez o original. Para se ter uma ideia, o orçamento de "A Morte do Demônio" ($17.000.000) foi maior que outros filmes recentes do gênero como Mama, que usa muitos efeitos digitais e tem nomes mais chamativos no elenco, como Jessica Chastain.

Com a responsabilidade de ser um grande lançamento, vem a pretensão de ser um grande filme. E essa pretensão, que pode ser vista logo na frase que estampa o cartaz do filme, que atrapalha o resultado final. Sam Raimi, que agora aparece como produtor (assim como Bruce Campbell, o eterno Ash, que faz uma participação minúscula depois dos créditos), passou a responsabilidade de "reciclar" seu filme ao novato Fede Alvarez, um diretor uruguaio que até então só tinha feito curtas — o mais conhecido, "Ataque de Pânico" pode ser visto aqui. Ele não é só responsável pela direção, mas também pelo roteiro, que é também escrito pelas mãos de Rodo Sayagues e revisado por Diablo Cody.
Na nova trama, Mia está se recuperando de uma overdose de drogas e vai com seu irmão e seus amigos passar uns dias na cabana da família. No porão do lugar eles encontram o livro dos mortos, que desperta forças demoníacas que possuem os vivos.


Logo no início do longa já percebemos que será uma produção mais séria que o esperado. A trama carregada por problemas familiares e com drogas, nada lembra o tom escrachado e despretensioso do original, e de filmes mais recentes como "Arreste-me Para O Inferno" (do próprio Raimi) e "O Segredo da Cabana". Além disso, nota-se uma mudança de objetivo. Enquanto a trilogia de Raimi tinha como objetivo divertir os espectadores, o novo filme de Alvarez quer chocá-los. A violência/gore que antes fazia parte da experiência do filme, agora É a experiência. Talvez esse seja o principal pecado de "A Morte do Demônio". Há ainda as soluções fáceis de roteiro, como a ação que dá o ponta pé inicial na trama principal — uma pessoa supostamente inteligente que resolve ler em voz alta trechos de um livro feito com carne humana e escrito com sangue —, mas os fãs de filmes de terror (e eu sou um deles), que já estão acostumados com tamanhas asneiras, provavelmente não vão ligar muito para isso.

O lado técnico do filme chama a atenção com cenas interessante e sangrentas que são muito bem executadas. E o CGI, tão corriqueiro nos filmes atuais, só é usado quando realmente preciso. Fede Alvarez quis manter as raízes de Raimi e, com sua equipe, faz um bom trabalho com maquiagem e efeitos práticos — inclusive na cena em que Mia corta sua língua, diziam para Alvarez que seria melhor o uso de efeito digital, mas ele insistiu em fazer do jeito "mais difícil". E o resultado é bem convincente.
Mas não só a equipe de efeitos especiais merece menção. A trilha sonora de Roque Baños é excelente e prepara uma atmosfera tensa, já não bastasse o que acontece na tela.

O elenco jovem é na sua maioria fraco e decepciona. Só se salvam a bela Jane Levy (que começou a aparecer meio como uma Emma Stone genérica, na série Suburgatory), e Jessica Lucas (Cloverfield). Shiloh Fernandez, que faz no filme mais ou menos o papel que seria de Ash, só não é mais inexpressivo e sem carisma que Elizabeth Blackmore, sua namorada no filme. Lou Taylor Pucci fica no meio do caminho. Não tem grande atuação, mas também não compromete.


Apesar de ter um clima totalmente diferente, "A Morte do Demônio" também usa de referências ao original para se conectar com os fãs do clássico. O Necronomicon Ex Mortis foi atualizado para uma versão bem mais chamativa visualmente. Aliás, a fim narrativos, a semelhança entre os dois filmes termina aí. São filmes completamente diferentes. E não há só referências ao primeiro Evil Dead, mas também ao segundo, que recebeu o nome "Uma Noite Alucinante" aqui. Uma delas é uma cena durante o eletrizante clímax, que acontece sob uma chuva de sangue — se o filme já é uma, nesse momento ela se torna literal. Na batalha entre o último sobrevivente e o Demônio, ele fala "I'll feast on your soul!" e recebe a resposta "Feast On This, Motherfucker". Essa cena claramente lembra esse momento do segundo filme.

E construindo uma nova mitologia enquanto faz referências ao original, o "A Morte do Demônio" de Fede Alvarez, mesmo com seus defeitos, se faz notável dentre um gênero que carece de filmes relevantes. Não, não é "O filme mais apavorante que você verá", como é prometido, mas é um bom filme que vai agradar quem aprecia o gênero.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Mama

★★★☆☆
Bom

Talvez uma das produções de terror mais esperadas do ano, "Mama" provém de um curta feito por Andrés Muschietti em 2008 chamado "Mamá". O assustador vídeo de 3 minutos (pode ser visto aqui), que é basicamente duas irmãs fugindo de um ser amedrontador, chamou a atenção de um dos maiores nomes do gênero de terror dos dias atuais. O roteirista, diretor e produtor Guillermo del Toro resolveu bancar a versão completa da história imaginada por Muschietti, que seria responsável pelo roteiro (junto com sua irmã, Barbara, e Neil Cross) e pela direção.

Mas em vários momentos do filme vemos a mão de Del Toro, inclusive nos créditos iniciais, onde há uma arte que já virou uma marca sua, ou o próprio desdobramento da trama, em que as possibilidades de um final feliz vão diminuindo.

Na trama, depois de matar seus dois sócios e sua ex-mulher num ato de desespero, Jeffrey (Nikolaj Coster-Waldau, o Jaime Lannister de Game Of Thrones) foge sem destino com suas duas filhas, Victoria e Lily, até que eles sofrem um acidente na estrada e vão parar numa cabana abandonada. Cinco anos mais tarde, os detetives contratados por Lucas, irmão gêmeo de Jeffrey, finalmente conseguem encontrar as meninas, que dizem ter sobrevivido com a ajuda de Mama. Elas vão morar com Lucas e sua namorada, Annabel (Jessica Chastain, "A Hora Mais Escura"), mas algo a mais acompanha as meninas ao novo lar.

Foi importante o mesmo roteirista e diretor do curta ser o responsável também pelo longa, mas nota-se a sua falta de experiência — antes de Mama, ele só tinha feito dois curtas. Criar uma história e todo um universo em torno de um curta de 3 minutos, é muito mais complicado. Como exemplo posso citar a super exposição da Mama na 2ª metade do filme, pessoalmente (tentam humanizá-la, ou pelo menos sua figura humana) e visualmente — sim, todos queremos ver a cara de um monstro/espírito, mas se isso é exposto demais, perde o efeito amedrontador, e é o que acontece no filme. Outro exemplo é o personagem Lucas, que parece perdido no filme. Depois que ele vai pro hospital, perde sua relevância na trama. O sonho em que o irmão o manda ir ao lugar onde tudo aconteceu, não tem valor narrativo algum, mesmo que seja uma sequência esteticamente interessante — o sonho de Annabel, sim, serve tanto para fins narrativos quando para estéticos pois, visualmente ainda mais poderoso, vemos por uma câmera subjetiva a história de Mama. Se Lucas não tivesse ido onde a ação se desenrola no terceiro ato do filme, não mudaria nada na história. Só serviu para ele se reunir com a Annabel que iria para lá de qualquer jeito. Se o personagem dele morresse, não faria a mínima diferença.


Mas há muitos prós no filme. A sacada dos óculos de Victoria foi excelente. Eles representam a ligação dela com o universo "material". A primeira vez que ela vê Mama está sem eles (talvez até por isso não tenha ficado assustada). E durante o decorrer do filme, quando ela já mora com Lucas e Annabel e, o mais importante, os aceita, está sempre com eles. Mas quando Mama aparece ela os tira, pois não quer vê-la como realmente é. Lily, que era muito pequena quando conheceu Mama (e mesmo 5 anos depois não entende o perigo), não tem mais essa ligação com o nosso mundo. Quando conhece Mama, a aceita como protetora e a partir daí, não volta atrás.

O filme também tem suas cenas engraçadas, inclusive apostando no elemento sobrenatural. Numa delas, bem inteligente visualmente, o diretor faz quase um Split screen mostrando na mesma tela duas ações diferentes. À esquerda vemos Annabel fazendo seus serviços de casa, enquanto à direita vemos um a parte do quarto das meninas, onde Lily brinca com Mama (que não é vista), que a faz flutuar.

Andrés Muschietti mostra que tem um bom conhecimento em linguagem visual, fazendo um filme com cenas belas e assustadoras onde a atmosfera de suspense (que vem do curta) permanece na maioria do longa, mas que precisa de mais experiência como roteirista, se ele quer seguir na atividade.


No geral, eu confesso que esperava mais de "Mama". O filme se sustenta bem como uma produção de Terror, mas no momento em que tenta levar pro Drama e ser original, falha. O final não irá agradar a todos, mas a verdade é que os problemas começam já na segunda metade do filme, que é onde os problemas no roteiro começam a ficar mais visíveis.
Porém, mesmo com suas falhas, o filme está longe de ser ruim. É muito bem produzido, tem uma boa fotografia e trilha sonora, e dá bons sustos.
Eu recomendo um outro filme que o Guillermo del Toro produziu: O Orfanato (2007). Acho o melhor (ou pelo menos um dos melhores) filme de terror latino dos últimos anos.