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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Gravidade


★★★★★
Excelente


Alfonso Cuarón é um diretor que prima pela qualidade sobre a quantidade. Em quase 20 anos de carreira cinematográfica, ele tem apenas 6 longas em sua filmografia (e um segmento em "Paris, Eu Te Amo"), onde "E Sua Mãe Também", "Harry Potter E O Prisioneiro de Azkaban" e, principalmente, o seu último filme, "Filhos da Esperança", se destacam. Sete anos depois de "Filhos", o diretor mexicano reaparece com a que pode ser a obra prima de sua carreira.

"Gravity", no original, conta a história de Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) e Matt Kowalsky (George Clooney), dois astronautas que, ao fazerem uma operação de rotina fora da nave, são surpreendidos por uma chuva de lixo espacial que destrói a nave e os deixa à deriva no espaço ligados apenas um ao outro por um cabo. Correndo contra o tempo, os dois terão que fazer de tudo para conseguir chegar à outra estação espacial e conseguir se salvar.

Eu nunca estive e, provavelmente, nunca irei ao Espaço, mas o que experimentei durante os 90 minutos de projeção de "Gravidade" deve ser a coisa mais próxima da experiência que é estar a centenas de quilômetros acima da Terra. O filme é de um primor técnico impressionante. A edição e mixagem de som, combinados com a fotografia de Emmanuel Lubezksi ("Árvore da Vida") imergem o espectador nesse "mundo" escuro e sem som. O design de produção recria o interior das naves e estações espaciais com detalhes impressionantes.


Esses elementos ainda são somados à câmera de Cuarón, que, num lugar onde é impossível a vida, parece viva ao passear pelo espaço, como numa bela dança, enquanto nos mostra a imensidão de um lugar tão hostil.
Em "Filhos da Esperança", já pudemos ver o apreço que o diretor tem por longos takes e planos-sequência, com dois planos de tirar o fôlego — um passado todo dentro de um carro e o outro seguindo o protagonista interpretado por Clive Owen em meio a uma revolta de rebeldes. Em seu novo trabalho, Cuarón mais uma vez cria com maestria planos que duram minutos, sejam apresentando os personagens, no início do filme, ou os seguindo em seus momentos de tensão.

É muito bonito, também, a forma como o diretor utiliza por várias vezes a câmera subjetiva, se aproximando do capacete do personagem, "entrando" pelo vidro e, enfim, assumindo o seu olhar. Outras vezes, querendo mostrar o que os personagens veem e suas reações, Cuarón usa um primeiríssimo plano, inteligentemente focando nos seus rostos e, pelo reflexo do vidro do capacete, exibindo o que acontece.


Essa subjetividade é importantíssima para nos fazer entrar na mente do personagem e sentir na pele o que ele passa. Porém, isso não teria efeito se não fosse o roteiro escrito pelo próprio Cuarón e seu filho, Jonas, a precisa montagem e as atuações maravilhosas de George Clooney e, principalmente, Sandra Bullock. Seis meses foi o tempo que sua personagem passou em treinamento para a missão no espaço e foi também o tempo que Bullock levou se preparando fisicamente para o papel, enquanto estudava cada detalhe do roteiro e de sua atuação junto com o diretor. O resultado é uma das melhores atuações do ano.

Dentro do limite de tempo, os dois personagens principais são bem desenvolvidos. Matt Kowaski é um astronauta prestes a se aposentar, boa pinta e bem humorado, que ajuda a aliviar a tensão em alguns momentos. Ryan Stone é uma médica em sua primeira missão espacial. Logo sabemos que ela recentemente sofreu uma tragédia pessoal e entendemos o motivo (ou um deles) que a levou a ir trabalhar no espaço. Apesar de continuar com seus deveres, depois do trauma ela para de viver. Esse elemento do seu passado a faz ficar a vontade com o silêncio oferecido pelo espaço.

[Desse ponto em diante, haverão spoilers sobre momentos-chave da trama do filme]


A partir desse momento, o verdadeiro significado do filme começa a se desenhar e podemos aos poucos perceber do que a história contada se trata. Já não estamos mais assistindo a um filme sobre uma astronauta em perigo, e sim, estamos testemunhando o renascer de uma pessoa. Isso é muito bem ilustrado com o belíssimo plano em que Stone, após conseguir entrar na estação russa e tirar seu equipamento, é enquadrada flutuando por alguns segundos em posição fetal enquanto descansa, remetendo a um bebê no útero.

Uma vez que o sentido principal é entendido, o filme deixa de ser apenas uma obra bonita, para se tornar algo intenso, uma experiência autêntica. Não há nada mais lindo do que o renascimento da vida numa pessoa — a vida como um sentimento, e não como um período de tempo. Interiormente, Ryan morre junto com sua filha. Não havendo mais pelo que viver, ainda na Terra, ela vivia o resto dos seus dias dirigindo, sem rumo, pois era assim que ela se sentia. Todavia, quando ela olha nos olhos da morte, várias vezes (sim, os obstáculos do filme parecem ser um pouco excessivos), ela descobre uma força que nunca imaginou ter. Se revela, então, um do maiores conceitos do filme: do ambiente mais estéril conhecido, nasce uma vida.


Mas Cuarón não para por aí. A última sequência, além de reafirmar a ideia do renascimento com Ryan "reaprendendo" a andar — no espaço, ela estava em gestação, como o plano já citado apresentou, enquanto seu nascimento se deu com sua chegada à Terra —, guarda um significado ainda mais profundo. Depois de quase se afogar, a personagem nada em direção a superfície, mas, alguns segundos antes disso, uma rã é vista também emergindo. A rã, que, como todos sabem, é o estado evoluído do girino após sofrer metamorfose, é inteligentemente posta nessa sequência em particular para indicar que Ryan evoluiu. Ela é um novo ser. E não só isso. Notem como a personagem, da água, vai lentamente se arrastando até a margem, até conseguir se levantar — como a vida terrestre teve início. A câmera ainda a enquadra de baixo para cima, a fazendo ficar maior e apontando sua mudança. Nesses segundos o diretor recria, ou melhor, personifica os milhões de anos de evolução na figura de Ryan Stone.

Por ser um filme quase todo passado no espaço e com muitas metáforas, comparações com o clássico "2001 - Uma Odisseia no Espaço" já foram feitas. Mas os dois diferem muito entre si. A obra de Stanley Kubrick se encaixa muito mais no gênero ficção científica que a de Cuarón, que pode ser classificado como um suspense dramático. Enquanto "2001" aborda a evolução numa maneira muito mais extensa (e ainda influenciada por terceiros), "Gravidade" é um filme muito mais pessoal, onde a evolução é intrínseca.


Com seu novo trabalho, Cuarón mostra que, para um filme ser genial, não precisa ter uma trama complicada. Mesmo quem não conseguir ler nas entrelinhas, poderá gostar do longa por sua simples história de superação da personagem de Sandra Bullock ante uma catástrofe e vários empecilhos. Algo muito diferente do próprio "2001", que é um filme tão comprometido com sua mitologia que não permite ao espectador que não entender a trama curtir o filme.

Há muito tempo eu não saía do cinema tão satisfeito. "Gravidade" vai muito mais além do "filme-catástrofe" — é um belo conto sobre renascimento e, mais que isso, evolução. Os méritos da obra vão muito além dos aspectos técnicos. A produção beira a perfeição, graças especialmente ao roteiro dos Cuarón e a atuação iluminada de Sandra Bullock. A metáfora do renascimento de Ryan Stone como uma pessoa evoluída é linda e muito bem apresentada. O filme, sem dúvida, já é um dos melhores do ano e será lembrado por muito tempo.

"It's time to stop driving. It's time to go home."

terça-feira, 17 de setembro de 2013

[Curtas] Sombras da Noite / Em Transe

Sombras da Noite

★★☆☆☆
Razoável

O problema maior de "Sombras da Noite" é o terceiro ato. Os dois primeiros têm seus problemas, mas até são divertidos. O clímax é bem fraco, e a cena final, dispensável. O mais legal mesmo do filme é a adaptação do vampiro Barnabas (Johnny Depp) aos novos tempos e a exploração de seu lado estranho, como ele dormir em lugares bizarros e até aquela cena em que ele fica encarando que nem um gato aquela luminária do quarto da Carolyn (Chloe Grace Moretz) que ele pensava conter sangue.
No geral, o elenco é bom e gostei bastante do Depp. É mais um personagem excêntrico que ele tem sucesso em compor. E as boas falas de Barnabás ajudam na criação dessa figura interessante, para dizer o mínimo.

Se fosse um filme mais centrado na família e que não tivesse a obrigação de ter cenas de ação, "Sombras da Noite" poderia ter dado mais certo, pois elas acabam sendo o maior ponto fraco do filme, por 1- não serem empolgantes; 2- terem revelações que acabam soando ridículas [selecionar o texto a seguir para ler o spoiler] (Carolyn ser lobisomem); 3- e pela própria conclusão com um deus ex machina (o fantasma aparece do nada e vencer a bruxa? Sério???)

Mas, apesar de tudo isso, ainda acho o filme melhor que "Alice". Tim Burton anda vacilando ultimamente, com uma filmografia irregular. Espero que ele se reencontre.
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Em Transe

★★☆☆☆
Razoável

"Trance" é tecnicamente muito bonito e tem uma estética visual inteligente (apesar de abusar de certas marcas, como planos inclinados), mas narrativamente decepciona com uma trama pretensiosa, feita para enganar, ou melhor, confundir o espectador.

Um filme, mesmo complexo, precisa dar ao espectador pistas para que ele possa desvendar a história. "Em Transe" não faz isso (pode até fazer em alguns momentos de transe, mas não para a descoberta dos pontos chave da história) pois, não bastasse o grande emaranhado de real e imaginário que o filme faz, o que é revelado ao final (com dois plot twists) é extremamente difícil que seja descoberto por alguém.

É um roteiro com um grande ego que, se orgulhando de ser TÃO inteligente, em vez de nos levar para dentro do filme, nos faz apenas de espectadores passivos, esperando uma explicação. Até porque, já que sugestão hipnótica é tão fácil, TUDO que estávamos vendo podia não ser real.
Porém, mesmo com esses problemas, o filme tem muitas qualidades, como a já citada estética, a fotografia e o elenco, que está muito bem (principalmente o trio principal formado por James McAvoy, Rosario Dawson e Vincent Cassel).

Para um filme que fala tanto em identidade, acho que faltou um pouco disso em Em Transe. É um filme que não tem alma. Por ter muitas qualidades, não chega a ser ruim, mas confesso que Danny Boyle dessa vez me desapontou.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Segredos de Sangue

★★★★☆
Ótimo


Texto com pequenos spoilers sobre a trama do filme.

O cinema coreano tem crescido muito nos últimos anos, inclusive exportando seus diretores para Hollywood. Curiosamente, três deles tiveram filmes programados para 2013. O primeiro da leva foi Kim Ji-woon (conhecido pelo excelente "Eu Vi O Diabo" e pelo terror "Medo") que dirigiu o novo filme de Arnold Schwarzenegger, "O Último Desafio". Bong Joon-ho ("Memórias de Um Assassino" e "O Hospedeiro") roteiriza e dirige "Snowpiecer", uma ficção científica com um elenco estelar, com direito ao Vingador Chris Evans e as ganhadoras do Oscar Tilda Swinton e Octavia Spencer, mas ainda sem data para estrear. E dia 14 chegou aos cinemas brasileiros o suspense "Segredos de Sangue", 10º longa do elogiado diretor Park Chan-Wook, mais conhecido pela Trilogia da Vingança (que tem em "Oldboy" seu ápice), e por seu último filme, o vampiresco "Sede de Sangue".

"Segredos de Sangue" conta a história da família Stoker (nome original do filme). Depois que o pai da introvertida India (Mia Wasikowska) morre, o seu tio Charles (Matthew Goode), que ela nunca soube que existia, vai morar com ela e sua mãe, Evelyn (Nicole Kidman). Charmoso e simpático, ele logo ganha a confiança de sua mãe, mas India começa a suspeitar que ele não é tão perfeito assim. A presença de Charlie irá fazer com que India descubra detalhes sobre o passado sombrio da família Stoker e sobre ela mesma.

Diretor que costuma realizar filmes com personagens excêntricos e bem desenvolvidos, Park Chan-Wook dessa vez aposta em tipos mais normais, ao menos à primeira vista, e concentra seu apreço pelo diferente no visual do filme, que é o que realmente chama a atenção. São planos imprevisíveis, com enquadramentos curiosos que valorizam o filme e ajudam a contar a história, já que a narrativa, dessa vez não é de tão alto nível.


A princípio remetendo ao Hitchcockiano "A Sombra de Uma Dúvida" (até no nome do tio), "Segredos de Sangue" se revela o oposto, já que, ao contrário do suspense de 1943, a sobrinha e o tio acabam tendo algo em comum. Pistas de que há algo de diferente em India vão sendo dadas desde o início do filme, mas só descobrimos (junto com ela) com o desenvolvimento de sua relação com Charles. E o auto conhecimento é tema forte no filme. India está em transição da adolescência para a fase adulta — o longa começa no dia de seu 18º aniversário. Ela sente emoções, ímpetos, que não sabe explicar. Seu tio acaba funcionando como um guia.
Em determinado momento, vemos que o falecido pai de India sabia muito bem o seu "segredo", porém conseguia administrá-lo, funcionando até como um tipo de super ego. O tio Charles tem o objetivo de liberar os impulsos da jovem, se transformando no Id. O resultado desde embate será muito interessante, ainda que não chegue ao nível dos clímax de outros filmes do diretor.

Porém, mesmo que o desenvolvimento da história esteja um pouco abaixo do padrão Park Chan-Wook, o diretor mostra uma exímia sensibilidade na hora de filmar e decupar o filme. Além dos já citados planos originais, ele utiliza, por exemplo, vários belos raccords* tanto para dar noção de elipses (a imagem de India caminhando no caminho que leva a sua casa sobrepõe a dela caminhando sozinha na estrada), quanto de flashbacks (funde os cabelos de Nicole Kidman sendo penteados a um campo onde India e seu pai caçavam).

*Raccord: ligação entre duas cenas por efeito visual ou sonoro, para reforçar ideia de continuidade.


A direção de arte acerta em cheio no clima do filme, utilizando cores sempre harmoniosas, como lilás, azul e laranja, mas sempre com atenção especial no verde e no vermelho em cenas chave. A iluminação e os filtros da fotografia de Chung-hoon Chung ajudam na padronização das cores do filme, como na sequência externa em que India tem um encontro com Whip. Não bastasse o ambiente com muita grama e árvores, percebe-se um cuidado especial no filtro utilizado nas câmeras, inteligentemente dando um tom ainda mais esverdeado à cena, já que é quando a natureza de India é revelada (ou pelo menos aparece mais). Se o verde representa a natureza (bastante explorada no filme), o vermelho forte, quase vinho, o sangue — no sentido de família e da violência que existe dentro da personagem principal.

Na mesma sequência citada de India com Whip no parque, vale citar o belo efeito que a câmera de Chung cria ao filmar India num plano médio girando no roda roda, dando inclusive um certo ar sobrenatural à jovem, que parece estar flutuando. Toda a sequência foi muito bem dirigida e nos dá a noção de uma predadora seduzindo sua vítima. Trabalho notável de Mia Wasikowska.
O diferencial de India é muito bem explorado especialmente em duas outros momentos também. Na sequência dela na mesa da cozinha, escutando o barulho da casca do ovo se quebrando, e a da aula de pintura, em que, enquanto todos pintam o vaso usado como modelo, ela pinta o padrão do lado de dentro do vaso ("Meus ouvidos ouvem o que outros não podem ouvir. Coisas pequenas e longes que pessoas não podem ver normalmente são visíveis para mim.")


Por tudo isso, "Segredos de Sangue" vale mais como um exercício visual do que como narrativo, já que peca um pouco no desenvolvimento da trama, e fica a impressão de que o roteiro de Wentworth Miller (ele mesmo, o Michael Scofield de "Prison Break") não teve o seu potencial máximo aproveitado. Mesmo assim Park Chan-Wook não decepciona em sua primeira empreitada no cinema americano, compensando a fragilidade da narrativa na forma como ele utiliza recursos visuais e metafóricos para enriquecer o estudo de seu personagem principal, India — a aranha, mais um exemplo, simbolizando o despertar de sua sexualidade.

Pelos muitos simbolismos (muitos nem citados nessa crítica), é um filme que vale ser visto mais de uma vez, pois certos detalhes só serão captados e completamente compreendidos depois de uma revisita ao filme.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Terapia de Risco


★★★★☆
Ótimo

Se há um adjetivo que poderia descrever Steven Soderbergh como diretor, definitivamente seria: versátil. Sua filmografia variada vai desde filmes extremamentes pipocas, como "Onze Homens e Um Segredo", a cults como "Che", passando por longas de ficção científica ("Solaris") e ação ("À Toda Prova").
Em seu novo e provavelmente último filme, "Side Effects" (no original), ele faz um suspense que mistura o universo da indústria farmacêutica — já abordado, dentre outros temas, dois anos atrás, em "Contágio" — com elementos que remetem até a obras de Hitchcock e seus jogos mentais.

A trama do filme conta a história de Emily Taylor (Rooney Mara, da versão americana de "Os Homens Que Não Amavam as Mulheres"), uma mulher que sofre com ataques de ansiedade e depressão. Mesmo com a volta do seu marido (Channing Tatum) para casa, depois de passar 4 anos preso por um negócio ilícito na Bolsa de Valores, as crises não melhoram e a levam a uma tentativa de suicídio. No hospital, ela conhece o psiquiatra Jonathan Barks (Jude Law), com quem começa a se tratar. Ele prescreve um novo remédio experimental que a faz melhorar, porém, causa alguns efeitos colaterais inesperados que mudarão a vida de todos.

O roteiro de Scott Z. Burns faz "Terapia de Risco" parecer dois filmes em um. A princípio um filme de investigação que trata de temas sérios como depressão e a responsabilidade de médicos que são pagos por laboratórios para testar novos medicamentos em seus pacientes (com a permissão deles, é claro), o filme toma uma guinada inesperada que o transforma num grande suspense psicológico.
Dentro do que foi pretendido o filme funciona muito bem (apesar de forçar a barra em alguns momentos), pois consegue pegar o espectador de surpresa. Mas talvez poderia ser um filme ainda mais interessante se Soderbergh fosse mais a fundo nas questões mais sérias que começou a abordar, pois elas só funcionam como uma escada para a verdadeira trama. Além da depressão, como ele tinha começado a tratar do tema da indústria farmacêutica há dois anos, eu esperava que em "Terapia de Risco" ele fosse mais a fundo, "investigando" esse universo pouco conhecido do público, como o filme dá a entender. Mas ele pretere esses dois temas para puxar o tapete do espectador em nome de um thriller que, dependendo do ponto de vista, pode ser considerado inteligente e intrigante, ou bobo e ilusório.


Porém, mesmo com minhas ressalvas, admito que gostei do filme. Dentre esses bons e maus adjetivos que citei, eu usaria intrigante e ilusório como a minha definição do longa. Minhas reservas quanto à obra são mais por gosto pessoal — e até expectativa — do que por questões narrativas ou técnicas. A fotografia, assumida mais uma vez pelo próprio Soderbergh (sob o pseudônimo de Peter Andrews), é excelente e trás detalhes muitos interessantes. Um deles é na primeira consulta de Emily com Jonathan. No início da sequência a câmera enquadra Emily de cima para baixo (posição em que o personagem/objeto filmado diminui), mas à medida que ela vai falando sobre como conheceu Martin, a câmera vai abaixando até enquadrá-la de baixo para cima (fazendo-a crescer), sinalizando como ele a fazia bem, inclusive para sua auto-estima.
Seja por meio da iluminação ou da direção de arte, a paleta de cores frias e foscas, como um amarelo-pastel muito utilizado nos vários ambientes escuros, dominam o filme em sua maioria, enfatizando ainda mais o universo sem cores e o clima depressivo do filme.

"Terapia de Risco" é muito bem dirigido e tem ótimas atuações. A dupla de protagonistas — Jude Law e Rooney Mara — levam muito o filme. Law está muito bem como o psiquiatra numa posição difícil que precisa provar sua inocência. E Mara é perfeita em todas as nuances que seu personagem pede. Já Catherine Zeta-Jones, que interpreta a antiga psiquiatra de Emily, fica abaixo do resto do elenco, não fugindo da caricatura de uma psiquiatra.

Steven Soderbergh vem prometendo se aposentar como diretor desde 2011, mas esse é o seu segundo filme de lá para cá. Se "Terapia de Risco" realmente for o seu adeus ao Cinema, ele o faz com um filme se não perfeito, com qualidade inquestionável. O longa tem seus defeitos, não é a sua melhor obra, mas gostando ou não do rumo tomado, funciona muito bem como suspense, e consegue surpreender.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

[Curtas] O Poder E A Lei

★★★★☆
Ótimo

Filmaço. Algumas pessoas podem achar um pouco chato por se passar muito tempo no tribunal, mas para quem gosta vale muito a pena.

A trama é inteligente e o roteiro consegue facilitar o entendimento das questões legais sem soar didático demais, além de amarrar bem a maioria das pontas da história — [selecionar o texto a seguir para ler o spoiler] (só achei sem sentido nem passar pela cabeça de Mick que outra pessoa, a mando de Roulet, poderia ter matado Levin). .

A direção aposta em planos fechados no rosto dos personagens, coisa que eu não sou muito fã, mas que ajuda a tornar o filme mais "pessoal", aproximando mais (literalmente) os personages do público. Esses primeiríssimos planos também servem para mostrar a mudança no semblante de Mick Haller, o protagonista, no decorrer do filme, com suas olheiras ficando cada vez mais fundas ao passo que ele vai se afundando no caso.
Achei muito interessante também o dilema moral criado no filme. A príncipio o personagem de Mick é retratado como um advogado sem escrúpulos, que faz tudo para ganhar e só pensando no dinheiro. Mas aos poucos vamos vendo que ele realmente tem uma consciência e quer fazer a coisa certa. Como ele mesmo fala, após tantos anos defendendo criminosos, ele não consegue mais acreditar na inocência, mesmo alegando que seus cliente são inocentes. Ele é um personagem em conflito com seus ideais e ações, longe de ser perfeito herói. Apenas humano.
Mick Haller é um ótimo personagem. E Matthew McConaughey o interpreta de maneira competentíssima. Grande atuação.

"O Poder E A Lei" é um dos melhores filmes sobre crimes que vi recentemente.

sexta-feira, 29 de março de 2013

A Hora Mais Escura - Oscar 2013

★★★★★
Excelente


Muito se esperava do novo filme de Kathryn Bigelow. Há 3 anos ela ganhou o Oscar de direção por seu filme anterior, "Guerra ao Terror" — que também levou o prêmio de Melhor filme ao bater "Avatar". A diretora mostrou que sabia contar uma história sobre guerra e, em "A Hora Mais Escura", ela repete a dose, mas dessa vez numa escala muito maior.
O filme narra, sob o olhar da jovem agente Maya (Jessica Chastain), os 10 anos da caçada da CIA a Osama Bin Laden, o líder da Al Qaeda e responsável pelo ataque ao World Trade Center, em 2001.

Indicando que não será um filme fácil, a primeira cena da produção é de tortura. Maya, que foi contra vontade designada à missão no Oriente Médio, mostra claro desconforto com a sessão de tortura ministrada, por assim dizer, por Dan (Jason Clarke). É uma sequência bem gráfica, e até revoltante. Dan não economiza na violência e, entre sessões de golpes e humilhações, repete a frase "Quando você mente para mim, eu te machuco", que deve ser a pior coisa a se ouvir para um torturado, culpado ou inocente.

Mas apesar de toda brutalidade nos interrogamentos, Dan não é um monstro. O roteiro de Mark Boal (também premiado no Oscar por "Guerra ao Terror"), mesmo não se aprofundando na vida dos personagens, faz questão de expor a habilidade das pessoas de cometerem atos bons e maus, seja por crença, desespero, ou trabalho (como os torturadores). Tanto que mais tarde Dan se cansa de viver torturando e sente necessidade de fazer algo normal por um tempo. Ele continua na CIA, mas se afasta das missões de campo. Ele sabe a hora de parar, ao contrário de Maya, que cada vez se torna mais obssessiva com a investigação do paradeiro de Bin Laden, vivendo exclusivamente para isso.


Com o passar dos anos Maya fica mais experiente e "durona". E, de observadora, ela começa a comandar sessões de tortura — inclusive repetindo o discurso de Dan, sobre seguir, estudar e conhecer o prisioneiro. Seu nome vai se tornando importante e ela ganha experiência e confiança, inclusive para peitar seus superiores. Mas, apesar de todo o seu esforço, a Al Qaeda continua sua onda de terror ao redor do mundo. Outros atentados terroristas supostamente causados pela organização também estão presentes no filme, como o de Londres, em 2005, e o no Hotel Marriott (Paquistão), em 2008 — onde Maya, convenientemente, estava com Jessica (Jennifer Ehle).
Esses atentados, somados com a ineficiência em conseguir pistas reais, começam a causar uma certa raiva, ou melhor, desespero, entre os agentes da CIA. Mas uma ficha achada que estava há anos no arquivo da Agência, pode mudar isso tudo, o que dá mais esperança a Maya.

Se há uma coisa que o roteiro de Mark Boal falha é tentar transformar Maya numa personagem badass demais. Um dos momentos que reflete isso é a frase "I'm the motherfucker that found this place, sir" dita por Maya ao chefe da CIA que daria ou não o sinal verde para a invasão à mansão de Bin Laden. É compreensível que ela, na reunião, estivesse se sentindo excluída e ignorada, mas ela realmente precisava falar assim para tentar ganhar respeito? Sem falar que é meio inverossímil que alguém faça isso na vida real sem receber ao menos uma advertência.
Porém, o roteiro tem mais acertos do que defeitos e esses vacilos não diminuem o ótimo trabalho de Mark Boal.

"A Hora Mais Escura" é tecnicamente excelente. O filme só levou o Oscar de Edição de Som (dividido com "Skyfall"), mas a montagem e a fotografia são fundamentos de prima importância para o sucesso da narrativa. Até pequenas coisas foram pensadas para combinar com o clima que Kathryn Bigelow queria aplicar no filme, como a câmera quase sempre no ombro, levemente tremida, que ajuda a passar uma ideia mais realista e até um clima de tensão — o que seria mais difícil com a leveza da steadicam.
Não sabemos até que ponto os eventos narrados foram reais, mas a diretora faz um belo trabalho ao estudar com cuidado os fatos e personagens que fizeram parte dessa história. Ela em nenhum momento sacrifica a boa narrativa para transformar o filme numa produção de ação, por exemplo. Tudo que é mostrado tem uma razão para estar ali.


Com a estreia do longa, as polêmicas envolvendo a tortura no filme começaram a surgir. Acusaram Bigelow de apoiar a tortura, o filme de mostrar que essa prática foi fundamental para a chegar a Bin Laden, etc. É bem verdade que no filme há muitas cenas de interrogamentos em que a tortura é utilizada, mas acusar Bigelow de ser a favor desse tipo de ação é injusto com ela, além de entender mal o filme. Contar uma história, como ela supostamente aconteceu (com suas devidas licenças poéticas, naturalmente), não é ser a favor dos eventos narrados. Sabemos que a tortura realmente foi utilizada pelos Estados Unidos. Agora, se isso foi essencial para a captura de Bin Laden, provavelmente nunca saberemos com certeza, pois é algo que os responsáveis não admitiriam facilmente. Sim, é uma obra de ficção baseada numa história real. Sim, foi criado todo um material em volta dos fatos conhecidos (como os próprios diálogos). Mas o que "A Hora Mais Escura" faz, na sua essência, é isso: narrar os fatos importantes que levaram à captura de um dos maiores terroristas que o mundo já viu.
Uma curiosidade sobre o filme é que, originalmente, era pra ser sobre os 10 anos de caça sem resultados a Bin Laden. Quando ele foi morto, o roteiro teve que ser reescrito. Se o filme tivesse sido lançado há 2 anos, com certeza o discurso não seria "Bigelow mostra que as torturas levaram a Bin Laden", e sim "Bigelow mostra que APESAR das torturas, Bin Laden não foi encontrado". O filme seria uma crítica a prática.

Outra prova que Bigelow de maneira nenhuma apoia a tortura está numa cena que pode ter passado despercebida para muitas pessoas (principalmente para as que a acusam).
Depois de fazer um establishing shot (plano que apresenta onde a próxima ação irá se passar) de uma prisão da CIA no Afeganistão onde prisioneiros são postos em celas individuais ao ar livre, a diretora mostra Dan alimentando pequenos macacos e, não satisfeita com isso, ainda faz questão de colocar num mesmo plano os macacos na gaiola e os prisioneiros "enjaulados", claramente fazendo uma analogia e crítica ao tratamento sub-humano que eles recebem. Portanto, acusar "A Hora Mais Escura" de apoiar a tortura é tão estúpido quanto acusar "Django Livre" de ser racista.


Pode-se até discutir se "A Hora Mais Escura" conta a história verdadeira ou toma liberdades em criar situações fictícias, mas o certo é que a dupla Bigelow/Boal teve sucesso em impor um clima de "investigação" real ao filme, que parece ser um grande documentário, contando todas as etapas que levaram à descoberta do abrigo de Bin Laden, inclusive as pistas que, pelo menos a princípio, não levaram a lugar nenhum. E, como um documentário, o roteiro se priva de explorar a vida particular de seus personagens. Pouco sabemos sobre Maya, ou Dan, por exemplo. O que na maioria dos filmes, seria visto como um ponto "contra" no roteiro, aqui essa característica se revela um "pró", pois num filme com mais de duas horas e meia e com as características documentais de "A Hora Mais Escura", se ater a algo além da História poderia acabar apenas sendo uma distração e atrapalhando a pretensão do filme e o resultado final.

Apesar de ser um filme investigativo, Bigelow sabia que não poderia deixar a invasão à casa de Bin Laden de fora do longa, já que é o momento mais esperado pelo público. E em "The Canaries", o sexto e último capítulo do filme, a diretora entrega uma sequência de ação recheada de tensão. Num breu quase total, claro apenas o bastante para nos permitir enxergar alguma coisa, acompanhamos o ataque (com vários imprevistos) dos Seal Team Six. A sequência é muito bem montada e vale ressaltar o impressionante trabalho de mixagem e edição de som. Imagino a experiência que deve ser ver aquela sequência — e, por que não o filme todo? — com um Home Theater.


A morte de Bin Laden desperta sentimentos variados nas pessoas envolvidas na operação. O membro dos SEALs que o matou, mal acredita — afinal ele acabara de fazer história — enquanto os outros do grupo ficam eufóricos. Já Maya por outro lado, após reconhecer o corpo do terrorrista, não consegue esboçar um sorriso. Depois de dedicar os últimos dez anos de sua vida apenas caçando um homem que virou sua obssessão, ela se sente aliviada, porém perdida quando tudo acaba. Ela não saber o que responder quando o piloto a pergunta onde quer ir é o retrato perfeito disso. A vida dela era o dever cívico que aos poucos foi virando um desejo de vingança (ela deixa bem claro seu objetivo de Matar Bin Laden). Não havia nada além disso. E o filme termina exatamente onde a vida da personagem principal deve realmente começar.

Se em "Guerra ao Terror" Kathryn Bigelow trabalhou o vicío de um soldado na guerra, em "A Hora Mais Escura" é a vez de mostrar a obessessão da América, retratada na figura de Maya, em vingar a morte de seus cidadãos mortos nos atentados cometidos pelo grupo de Osama Bin Laden. E a diretora o faz com louvor.

Zero Dark Thirty
Estados Unidos, 2012 - 157 min.
Drama/Suspense
Direção: Kathryn Bigelow
Roteiro: Mark Boal

Elenco: Jessica Chastain, Jason Clark, Kyle Chandler, Jennifer Ehle, Harold Perrineau, Joel Edgerton, Reda Kateb
Indicações ao Oscar: Melhor filme, Melhor atriz, Melhor roteiro original, Melhor montagem, Melhor edição de som

domingo, 10 de março de 2013

[Curtas] Killer Joe - Matador de Aluguel

★★★★☆
Ótimo

O filme, que estreou no cinema semana passada (infelizmente em pouquíssimas salas), é o novo trabalho de William Friedkin, diretor de clássicos como "O Exorcista" e "Operação França" — ambos da década de 70. Sua filmografia recente não é muito de se orgulhar, mas em "Killer Joe" ele parece recuperar o seu prestígio. O filme conta a história de Chris Smith (Emile Hirsch) que, desesperado com uma dívida a pagar, contrata o assassino Joe Cooper (Matthew McConaughey) para matar sua mãe, e ficar com o seguro, que dividiria com Cooper. É claro que tudo não ocorre como o planejado e as coisas ficam ruins para todos os envolvidos. Matthew McConaughey e Emile Hirsch estão muito bem. Para quem está acostumado a ver McConaughey em comédias românticas, é ótimo vê-lo num papel diferente. O filme ainda tem a bela Juno Temple, Thomas Haden Church e Gina Gershon.

Uma coisa que gostei na fotografia do filme foi os movimentos "delicados" da câmera em certos planos, como quando o Joe, Ansel e a Sharla estão na mesa discutindo a divisão do dinheiro. Aquele movimento sutil parece antecipar e preparar terreno para a insana sequência final. Aliás, toda a meia hora final é incrível. Um trabalho de direção sensacional. Podia estar tudo ali no roteiro, mas um diretor que não tivesse "controle" sobre seus atores e não soubesse utilizar a Mise-en-scène (movimentação dos atores em cena) poderia estragar toda a sequência. A construção do clima de suspense é impecável.

Ainda que falte alguma coisa em Killer Joe, é um ótimo filme que ressuscita a carreira de William Friedkin e dá um belo impulso na de Matthey McConaughey.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Argo - Oscar 2013

★★★★☆
Ótimo

Apesar de já atuar desde 1981, Ben Affleck entrou definitivamente no radar de Hollywood em outra profissão: como roteirista. Junto com seu amigo Matt Damon, ele escreveu o longa "Gênio Indomável" em que também ambos atuaram. A estreia da dupla foi tão boa que eles foram reconhecidos com o Oscar de melhor roteiro em 1998. Até então Affleck só tinha atuado em papéis menores. De uma certa maneira, a sua carreira como ator se deve muito a sua de roteirista (o mesmo caso vale para Matt Damon).

A partir dali, Affleck se dedicou apenas a atuação, passando 10 anos sem se envolver com o que acontece por trás das câmeras. Porém, em 2007 ele voltou à atividade que catapultou sua carreira e roteirizou o filme "Medo da Verdade", que também foi sua estreia na direção. Três anos depois ele voltou a roteirizar e dirigir, com o filme "Atração Perigosa". Ambos os filmes foram muito bem recebidos pela crítica, colocando o seu nome entre os melhores diretores novatos.

Em "Argo", Ben Affleck dá mais um passo para se firmar no seleto grupo dos bons atores/roteiristas/diretores atuais. Dessa vez só dirigindo (o roteiro é de Chris Terrio), ele tem sido lembrado e premiado em várias premiações, porém foi "esnobado" no Oscar — seu nome, para a surpresa de muitos, não apareceu na lista de indicados a Melhor diretor. Em compensação, depois de ganhar premiações como o SAG e PDA, o filme desponta como favorito à estatueta de Melhor Filme.

O filme, baseado em fatos, conta a história de uma operação secreta da CIA para resgatar um grupo de americanos refugiados na casa do Embaixador do Canadá, no Irã, durante a revolução no País. O plano criado por Tony Mendez (Ben Affleck, que também protagoniza o filme) foi bem curioso e tinha tudo para dar errado: criar um falso filme do zero, entrar no Irã como desculpa de filmar lá e resgatar o grupo, que receberiam novas identidades com cidadania canadense, e seriam parte da equipe de filmagem do filme.


Uma das coisas mais legais em "Argo", é mostrar todo o processo de criação de um filme. Vemos a escolha de um roteiro, a burocracia na área ("Preocupado com o Aiatolá? Não conhece o Sindicato dos Roteiristas."), a produção, como os cartazes e storyboards, figurinos, e a divulgação na imprensa, inclusive com uma grande festa onde acontece um table-read (onde atores lêem o roteiro do início ao fim)tudo bancado pela CIA, vale dizer. Com 2 horas de duração e uma história que aborda um tema maior, obviamente não dá para entrar nos mínimos detalhes mas, mesmo assim, é divertido ver como o mundo Holywoodiano funciona.

Affleck tem uma atuação sóbria e contida, parecendo não querer que seu Tony Mendez apareça mais do que os outros personagens (afinal não há apenas um herói no filme, e sim vários) e a própria história. O seu elenco de apoio é de primeiro escalão. Os sempre excelentes Alan Arkin e Bryan Cranston estão ótimos, assim como John Goodman. O núcleo dos refugiados, embora composto por atores não tão conhecidos do grande público, também está muito bem, passando o clima de tensão e o estado de espírito dos personagens com perfeição.

Assim como em "Atração Perigosa" (nem tanto em "Medo da Verdade"), Ben Affleck tem sucesso em criar uma conexão entre os personagens e o público. O público consegue se importar até mesmo com personagens de menor expressão e entender o que eles sentem — mérito também dos atores, sem dúvida.
Numa sensível demonstração de ironia e olhar crítico, o diretor faz questão de mostrar rapidamente uma iraniana comendo no KFC, uma das redes americanas de fast food mais conhecidas, constrastando fortemente com o clima de perseguição a americanos. Porém, logo em seguida ele mostra uma pessoa enforcada em público, para lembar-nos que realmente ali realmente não é um dos melhores lugares para se estar.

Aliás, se há uma coisa que Affleck tem aprimorado em sua carreira como diretor é a forma como ele cria tensão em suas produções. A própria escolha por usar imagens de arquivo reais, para situar o espectador a cada desdobramento da história ajuda nisso, criando um clima de urgência, alarmismo. Esse recurso, quando bem utilizado, sempre dá mais credibilidade ao filme. E essa tensão impera durante todo o filme, desde seus primeiros minutos, atingindo o auge na sequência do aeroporto. Assim como os personagens, sabemos que cada minuto a mais que o grupo passa no Irã, eles estão mais próximos de um final não muito feliz. É claro que o filme provavelmente tem mais obstáculos que de fato ocorreu (a reserva da passagem que não aparece no sistema da companhia aérea na primeira vez, soa forçado), mas numa produção cinematográfica, isso é muitas vezes preciso. E ele cria esse clima como poucos. Mesmo já sabendo como o filme irá terminar, ficamos com o "coração na mão" ao testemunhar o que os personagens têm que passar até chegar aos seus conhecidos destinos na história.


Embora não ache que "Argo" seja o melhor entre os nove indicados a melhor filme, eu ficaria muito satisfeito se o filme levasse a estatueta. O filme é interessante, inteligente, tenso, tem seus momentos engraçados e, sem dúvida alguma, se conecta mais com o público do que o outro favorito, "Lincoln", que é um filme político, mais difícil.
A vitória de "Argo" significaria a quebra desse costume da Academia de premiar filmes mais artísticos, que não se conectam tanto com o público. Não seria a primeira vez que um filme popular ganharia, mas seria uma das poucas vezes. E numa premiação que cada vez perde mais audiência, a aproximação com o público é necessária. A Academia, que tem fama de ser conservadora, já começou a tentar falar a mesma linguagem da audiência ao aumentar a lista de indicados a melhor filme de 5 para até 10, tendo espaço para filmes mais populares. Porém, mesmo assim, continua coroando na maioria das vezes filmes "frios", que, muitas vezes, nem são os melhores.

Mesmo não tendo sido indicado a Melhor diretor, a vitória de "Argo" na maior premiação do Cinema seria um justo reconhecimento da ainda curta porém ascencional carreira de Ben Affleck.

Argo
EUA, 2012 - 120 min.
Suspense/Drama
Direção: Ben Affleck

Roteiro: Chris Terrio
Elenco: Ben Affleck, Bryan Cranston, Alan Arking, John Goodman, Victor Garber, Tate Donovan, Clea DuVall, Zeljko Ivanek
Indicações ao Oscar: Melhor filme, Melhor ator coadjuvante, Melhor roteiro adaptado, Melhor trilha sonora original, Melhor montagem, Melhor edição de som, Melhor mixagem de som

*Em negrito os prêmios ganhos 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

[Esse é Clássico!] Janela Indiscreta

★★★★☆
Ótimo

Um fotógrafo preso a uma cadeira de rodas por ter quebrado a perna durante o trabalho se distrai observando a vida de seus vizinhos. Mas tudo muda quando ele começa a suspeitar que um de seus vizinhos pode ter cometido um assassinato.

Assim como muitos diretores, Alfred Hitchcock, conhecido como "o mestre do suspense", costumava ter seus atores e atrizes preferidos, com os quais fazia vários filmes. James Stewart era um deles e, com quatro filmes, eles fizeram uma das dobradinhas mais conhecidas no cinema. Depois de ser coadjuvante em "Festim Diabólico" (Rope), em "Janela Indiscreta" Stewart protagoniza pela primeira vez um filme de Hitchcock, que tem roteiro de John Michael Hayes.

Uma das coisas que mais chama atenção no filme, é o enorme set que Hitchcock mandou construir no estúdio da Paramount. Todos os apartamentos daquele bairro tinham eletricidade e água corrente — tanto que atriz que interpreta a Srta. Torso (Georgine Darcy) "morou" no apartamento de sua personagem durante o período de filmagem, descansando durante as tomadas. Pedido megalomaníaco de Hitchcock ou não, o fato é que, na época, foi o maior set criado dentro do estúdio.


O filme começa com um "passeio" pela vizinhança, situando o espectador e apresentando o local onde a trama irá se realizar. Num dos apartamentos vive L.B. "Jeff" Jefferies, um fotógrafo que quebrou a perna num trabalho e é obrigado a ficar de molho em casa, se locomovendo apenas com o uso de uma cadeira de rodas.
A direção faz questão de mostrar que na situação de Jeff até pequenas coisas, como conseguir coçar a perna engessada, são satisfações altamente estimadas pelo personagem, e conseguidas com muito esforço. Nada é fácil naquela situação e, sem muito o que fazer, ele passa o dia espiando a vida de seus vizinhos, como se a janela fosse sua TV e cada apartamento um canal diferente — e todos, diga-se de passagem, passando programações bem chatas. Stella, a enfermeira que cuida de Jeff (e um bom escape cômico no filme), o aconselha a parar com esse hábito recém adquirido já que ele pode até ser preso e "não há janelas na prisão", ela diz. Só que ela não percebe que ele, imóvel naquele apartamento, já está na prisão. Ficar confinado num apartamento é a pior coisa que poderia acontecer para alguém que vive viajando, nunca ficando num mesmo lugar por muito tempo.


Num dia as coisas começam a ficar um pouco mais interessantes em sua rotina, quando ele começa a suspeitar que um de seus vizinhos cometeu um assassinato. Mesmo com poucas — ou nenhuma — evidência, seu faro investigativo (aliado à vontade de que algo interessante aconteça em seu dia-a-dia entediante) o leva a investigar esse suposto crime. A partir daí ele deixa de ser apenas um "espectador" passivo.

Apesar do estilo de vida simples e itinerante, Jeff namora Lisa (a linda Grace Kelly), uma rica consultora de moda com quem não tem muito em comum. Ela quer se casar com Jeff, mas, por serem de mundos muito diferentes, ele não sabe se é isso que quer. As investidas de Lisa e as incertezas de Jeff culminam em uma bela sequência em que os dois discutem a relação e seu futuro juntos.
A princípio é uma sequência normal com plano e contraplano, mas é interessante notar que a direita do plano de Lisa tem algumas peças douradas que, junto com sua roupa chique e seu cordão de pérolas, remetem ao mundo de riqueza em que ela vive, enquanto no de Jeff, não há nada que chame atenção em sua volta, apenas escuridão atrás dele. A pouca luz que chega nele vem do grande abajur também ao lado de Lisa. Esses dois detalhes revelam muita coisa sobre o relacionamento deles:
1- Reforça a diferença entre eles. O mundo de Lisa é iluminado, dourado. O de Jeff é sem brilho, escuro; 2- mostra como Jeff se sente em relação a Lisa. Diante daquele mundo brilhante, ele não tem importância, luz própria. Ele se sente menor que Lisa. E isso piora pois ela tenta fazer com que ele mude o seu estilo de trabalho, para se adequar ao mundo dela, além de estar sempre querendo atrair publicidade para ele (ao ponto de plantar notas sobre Jeff nas suas colunas);  3- E, por final, isso também mostra o que eles sentem em relação ao seu futuro juntos. Desde o início sabemos que Jeff está hesitante em relação a um futuro casamento com Lisa, em contrapartida, ela não acha que a diferença entre o modo de vida deles possa significar o fim do relacionamento. Ela ainda está otimista quanto ao futuro deles. Mas, ao fim da discussão, quando ela percebe que o relacionamento realmente pode não ter futuro, é ela quem aparece num plano mais escuro, indo embora do apartamento de Jeff. Enquanto ele, que desde o início não está certo sobre ela, fica no plano mais claro — talvez por, naquele momento, ter sentido um certo alívio.
Uma sequência linda, com pequenos detalhes que revelam bem mais que os próprios diálogos, e que só poderia ter sido realizada por uma direção de arte sensível e competentíssima.


Mais tarde, Jeff e Lisa se encontram novamente e ele conta para ela sobre suas suspeitas, mas ela a princípio não acredita, assim como o seu amigo detetive Thomas Doyle (Wendell Corey). Jeff continua com sua investigação informal, por assim dizer, e, eventualmente, consegue fazer com que Lisa suspeite que algo realmente está errado, a trazendo para o seu lado, junto com Stella. Lisa, que até o momento era apenas uma ricaça alheia ao mundo, ao se tornar um tipo de parceira de Jeff, começa a entrar no mundo dele e experimentar a adrenalina de uma investigação. No momento em que ela se arrisca para conseguir provas, Jeff percebe que a subestimou e, quando ela volta, tendo êxito, vemos um certo orgulho, aceitação no olhar dele.
Essa mudança de Lisa é refletida até no seu modo de vestir. As roupas vão ficando menos "espalhafatosas", mais sóbrias a medida que o personagem começa a participar daquele mundo.

A fotografia, que insiste em passear, principalmente com panorâmicas, pelas janelas dos apartamentos — mas sempre a partir do ponto de vista do apartamento de Jeff nunca nos deixando esquecer onde estamos  — consegue fazer até o menos "bisbilhoteiro" dos espectadores se interessar pelos vizinhos de Jeff. Há um momento durante essas viagens que, só de a câmera passar por uma janela, você percebe que já sabe quem mora ali. A partir daí, você já está envolvido emocionalmente com essas pessoas, seja Srta. Lonelyhearts ou o casal que tem o curioso hábito de dormir na varanda de casa, por exemplo.


Usando a metáfora de alguém espiando seus vizinhos, Hitchcock faz uma crítica a sociedade americana, voyeurista, exibicionista e que cada vez mais ficava "imóvel" diante da tecnologia (como a própria televisão metafórica) e seus efeitos na vida diária. Essa crítica continua valendo — mais do que nunca. Se hoje temos programas, sites e revistas de fofoca é porque há procura. O ser humano sempre teve interesse pela vida alheia. A grama do vizinho sempre foi mais verde. E, se não bastasse isso, cada vez mais nós temos necessidade da exposição. A cada geração temos nos tornado a bailarina Miss Torso, que adora se exibir, dançando com pouquíssima roupa aos olhos de quem quiser ver. Se hoje temos o "stalking" na internet é porque as pessoas oferecem conteúdo para ser "stalkeado". O interesse pela vida alheia sempre existiu mas, com o passar dos anos, a necessidade de nos mostrar parece ter aumentado, principalmente com a internet e com as redes sociais disponíveis na palma da mão. Saímos e ficamos olhando para a tela de um celular, chegamos a um lugar e tiramos foto. Viramos reféns da tecnologia e do exibicionismo, exatamente como Hitchcock previu há quase 60 anos.

Por isso que Janela Indiscreta é um do pouco filmes que sobreviveram tão bem ao tempo. Não apenas por ser um ótimo suspense, mas por trazer questões que ainda valem ser discutidas hoje em dia.

Rear Window
EUA , 1954 - 112 min.  

Suspense
Direção: Alfred Hitchcock

Roteiro: John Michael Hayes
Elenco: James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey, Thelma Ritter, Raymond Burr, Judith Evelyn, Georgine Darcy

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O Segredo Da Cabana

★★★★★
Excelente


Apesar da primeira cena, que pode parecer fora de contexto pros desavisados, "The Cabin In The Woods" começa como um filme de terror normal, com a já batida história do grupo de amigos que vai passar uns dias numa cabana longe de tudo. Mas, não se engane, o filme pega essa premissa para fazer algo nunca visto nos filmes de terror e, aos poucos, a história se revela bem mais complexa do que parece.

O filme não chega a ser muito assustador, mas o que acaba conquistando o telespectador nem é o terror, mas a história (e o problema é que fazer uma análise do filme sem revelar detalhes da história é praticamente impossível). Você fica tentando adivinhar o que diabos está acontecendo naquele lugar e formulando várias teorias que vão mudando no decorrer do filme — desde o início dicas vão sendo dadas, mas não antes da metade do filme o espectador consegue ter uma idéia do que está acontecendo. E Joss Whedon mais uma vez não decepciona. Roteirista e produtor (ele deixou a direção para Drew Goddard que co-roteirizou o filme e, apesar de já ter uma boa carreira como roteirista, é novato na direção), ele consegue fazer uma homenagem — ou seria uma "paródia"? — aos filmes de terror ao mesmo tempo em que reinventa o gênero. Ponto para Whedon e Goddard que souberam construir um roteiro coeso, capaz de atiçar a curiosidade do espectador sem subestimar sua inteligência.


O humor negro e as referências à outros filmes de terror também são pontos altos do filme. Desde os esteriótipos dos pesonagens às situações. Marty implorando para Dana não ler a parte em latim de um diário sombrio pode remeter à Evil Dead (ou vários outros filmes, já que ler textos em latim NUNCA é uma boa ideia), enquanto um quebra cabeça em formato de esfera que invoca um monstro lembra Hellraiser, por exemplo. E ainda pequenas coisas, como o porquê de os personagens largarem uma ferramenta que acabaram de usar para matar quem ou o quê os perseguiam. Todas esses detalhes tornam o filme ainda mais divertido.

No elenco destacam-se (além das duas belas mulheres do grupo, claro) Fran Kranz (o maconheiro Marty) e Richard Jenkins (Sitterson). Eu até cheguei a pensar que Chris Hemsworth tinha entrado no filme por causa de "Thor" e "Os Vingadores" (principalmente o último, que foi dirigido por Whedon), mas provavelmente foi ao contrário, já que "The Cabin In The Woods", mesmo sendo lançado só agora, foi filmado em 2009, quando os dois filmes da Marvel nem tinham entrado em produção. O motivo do atraso do lançamento foi que o estúdio queria converter o filme para 3D, mesmo contra a vontade de Whedon e Goddard. O estúdio acabou desistindo e o filme ficou "engavetado" até ser lançado esse ano. Uma curiosidade é que Fran Kranz e Amy Acker trabalharam juntos com Whedon em Dollhouse.


Outra coisa legal é que Joss Whedon e Drew Goddard tiveram tudo para encerrar o filme de uma maneira que desse abertura para uma sequência, que é a tendência na indústria cinematográfica. Mas contrariando isso, eles escolheram terminar de um jeito que praticamente descarta uma continuação, o que achei corajoso. Mais um ponto pro filme (apesar que, confesso, gostaria se rolasse uma continuação).

"The Cabin In The Woods" está na minha lista dos melhores filmes do ano!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Contágio - Melhores Filmes de 2011

★★★★☆
Ótimo

O que logo chama atenção em "Contágio", é o elenco de primeira. Mas, ao mesmo tempo em que isso pode ser uma vantagem - chamando atenção da mídia e do público -, pode ser também uma maldição. Um elenco excelente não é sinônimo de bom filme, apenas cria espectativa e coloca mais pressão para que o filme realmente seja bom. E a nova produção de Steven Soderbergh consegue corresponder as espectativas.

"Contágion" (no original) é sobre uma doença viral com alto índice de fatalidade que rapidamente se espalha por todo o mundo, se transformando numa pandemia sem precedentes. Uma equipe de médicos e cientistas de várias nacionalidades se junta para tentar rastrear o paciente 0 e achar uma cura, antes que seja tarde demais.

Além do já citado elenco, que tem boas atuações, outro ponto forte de Contágio é mostrar o início da epidemia em vários pontos de vista. Temos duas famílias comuns, representadas por Mitch Emhoff (Matt Damon) - que perde a mulher (Gwyneth Paltrow) e o enteado logo no início -, Roger (John Hawkes, indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante ano passado por Inverno da Alma), um jornalista investigativo (Jude Law) e as instituições públicas e científicas. Nesse último núcleo que temos o maior número de personagens (interpretados por atores como Laurence Fishburne, Kate Winslet e Marion Cotillard). Instituições como CDC e OMS montam uma força tarefa para descobrir mais sobre o vírus, que tem uma taxa de mortalidade alarmante, ao mesmo tempo em que tentam rastrear o paciente 0. Nos bastidores dessa corrida contra o tempo, vemos a impotência crescente nos médicos, epidemiologistas, cientistas e até políticos frente a algo que eles não conseguem entender ou controlar. Impotência essa, que em níveis mais baixos da sociedade costuma evoluir para o caos; e é isso que eventualmente acontece.
Soderbergh ainda aproveita para levantar uma discussão sobre a atuação do governo nesse tipo de situação crítica e ainda a possível parceria com indústrias farmacêuticas, dando preferência a alguma em particular na fabricação das vacinas, por exemplo.

Atualmente filmes de grande orçamento parecem ter a necessidade de ter mais de 2 horas de duração, o que na maioria das vezes não é necessário, e faz com que isso se torne um ponto negativo. Já Contágio, vai contra essa "máxima". Com um bom ritmo, roteiro e edição ágeis, e uma trilha sonora que dá um clima ainda mais tenso, o filme desenrola bem a sua história contando tudo em 1h40, o que impede o filme de ser cansativo.

Apesar dos vários pontos positivos, alguns defeitos se tornam bem visíveis. Por ter muitos personagens importantes, o desenvolvimento deles acaba sendo comprometido, tornando-os por vezes superficiais. São tantos personagens em tantos núcleos, que às vezes dá impressão que faltou foco. Nisso Steven Soderbergh peca.
Mas, no final das contas, "Contágio" não decepciona e é um bom filme. Mesmo tratando de um tema não muito original, Soderbergh e sua equipe não deixaram o filme cair na mesmisse e o resultado acaba sendo bem interessante.

Contagion
EUA , 2011 - 106 min.
Drama/Suspense
Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: Scott Z. Burns
Elenco: Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Kate Winslet, Laurence Fishburne, John Hawkes, Jude Law, Marion Cotillard