segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Indomável Sonhadora - Oscar 2013

★★★★☆
Ótimo

[O texto a seguir contém alguns detalhes sobre a trama do filme]

Dentre vários filmes com orçamentos milionários e diretores e atores famosos, "Beasts Of The Southern Wild", no original, conseguiu entrar na lista de indicados ao Oscar de Melhor filme sem nenhum nome de renome na direção ou no elenco. Com menos de U$2.000.000, Benh Zeitlin fez seu primeiro filme apoiado apenas numa boa história (baseada na peça "Juicy And Delicious", de Lucy Alibar que co-escreve o roteiro junto com o próprio Zeitlin) e excelentes atores desconhecidos, muitos deles naturais da região. Isso lhe valeu uma indicação ao Oscar de Melhor Diretor, assim como uma indicação a Quvenzhané Wallis, que se tornou a atriz mais nova a ser indicada a Melhor Atriz, com 9 anos.

O filme conta a história de Hushpuppy, uma menina de 6 anos que precisa enfrentar as consequências de uma tempestade (provavelmente o Katrina) com seu pai, Wink (Dwight Henry), em Bathtub, uma comunidade ribeirinha, na Louisiana.
Naquele mundo de madeira, a comunidade vive não se importando com o mundo além da represa, que os separa do mundo "exterior". Dinheiro parece ser algo absoleto ali. Os moradores vivem junto com animais de todos os tipos que são, antes de mais nada, a fonte de alimento deles.
Nesse mundo tão "cru", a beleza está em vermos através dos olhos, e da imaginação, de uma criança. Hushpuppy está sempre procurando se conectar com a natureza (ela coloca pequenos animais próximo ao ouvido para ouvir o som de cada um). Entender, e respeitar, o ambiente em que vive é vital.

Apesar de Wink ser a única família que Hushpuppy possui, eles vivem em casas separadas, só se reunindo para comer. Isso ressalta ainda mais a distância entre os dois. Talvez Wink force essa distância para que Hushpuppy amadureça e se torne independente logo, já que a vida naquele lugar não é fácil e ele sabe que não estará ali para cuidar dela por muito tempo. É descoberto no início do filme que Wink sofre de uma doença no coração, que em pouco tempo pode levá-lo a falecer .
Com a chegada da tempestade, os poucos moradores de Bathtub que decidiram ficar têm que lutar pela sobrevivência, pois a chuva provoca uma enchente que deixa toda a comunidade alagada, só podendo se locomover com o uso de barcos. E se a vida naquele lugar já era difícil, agora fica ainda mais. A pobreza e a necessidade de improviso naquele lugar se mostra até no barco de Wink e Hushpuppy, que não nada mais é que uma caçamba de caminhonete adaptada para flutuar.


Passada a tempestade os sobreviventes se reuniem numa das casas flutuantes, e tentam se virar naquela situação. Com o tempo os animais morrem, a comida se torna escassa, e eles enfrentam o dilema de continuar ali na ilha ou tentar a sorte além da represa. Mas para Wink, cabeça dura e orgulhoso que é, deixar Bathtub não é uma possibilidade. Eles bolam um plano que melhora a vida no lugar, fazendo a água baixar, mas ao mesmo tempo os coloca no "radar" do mundo. Um grupo de agentes de saúde chega à comunidade, que precisa ser evacuada. É claro que os moradores não aceitam isso com bons olhos e lutam para ficar. Eles são levados contra a vontade a um centro de ajuda para receber o tratamento necessário.
Nessa momento temos o primeiro "choque" entre esses dois mundos. A primeira coisa que vemos do mundo "civilizado" é um ambiente claro que contrasta fortemente com tudo que vimos no filme até o então. Hushpuppy estranha aquela sala toda branca, mas não a vê como uma prisão, como o seu pai tinha lhe contado — "parece mais com um aquário sem água", ela diz. Wink é operado, mas mesmo assim consegue arrumar um jeito de fugir dali junto com os outros moradores de Bathtub, mesmo sabendo que pode morrer.

Para nós, pode ser difícil entender como alguém pretere uma qualidade de vida melhor para viver (ou morrer) no ambiente caótico em que viveu durante a vida toda. Esse, por sinal, é o principal motivo de queixa de pessoas que têm criticado o filme. Para elas, o filme "romantiza" a pobreza já que, na figura de Wink sobretudo, vemos uma grande resistência em deixar aquela vida para trás. Como todos ali, ele tem orgulho de ser daquela região. Mas o filme não é sobre isso. Aquelas pessoas que resistiam tanto a mudança só conheciam aquele mundo. Sim, a origem é tudo para eles, não só do lugar, mas também da cultura, o modo de vida... Mas essa forma até violenta de agir, é apenas reflexo do medo que eles têm do que não conhecem. E o filme é exatamente sobre isso: o medo do desconhecido.

Se o mundo exterior é a representação do medo de Wink e dos outros moradores, os Aurochs são a da pequena Hushpuppy. Desde que ela aprendeu sobre a soberania desses predadores na Era Glacial, ela constantemente os imagina se aproximando de Bathtub.
A cena em que os Aurochs se "ajoelham" diante da Hushpuppy é sensacional. A partir daquele momento ela aprende a dominar os seus medos, principalmente o de perder o pai.


E durante sua jornada, Hushpuppy cresce, amadurece, aprende sobre a vida, e conhece o mundo em que vive, inclusive além de Bathtub. O mundo aumenta, e deixa de ser apenas uma ilha. Com o conhecimento, vem a perda — ou melhor, dominação — do medo. Enquanto Wink não consegue dominá-lo, Hushpuppy consegue, dando um grande passo para fazer história, como ela mesma tanto queria.

Beasts Of The Southern Wild
EUA, 2012 - 93 min.  
Drama
Direção: Benh Zeitlin

Roteiro: Benh Zeitlin, Lucy Alibar  
Elenco: Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Levy Easterly, Gina Montanam Lowel Landes
Indicações ao Oscar: Melhor filme, Melhor diretor, Melhor atriz, Melhor roteiro adaptado

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Saldo Cinematográfico de 2012 (e melhores filmes)

O ano de 2012 foi um ano bastante bom para mim, inclusive na área cinematográfica, na qual vou focar. Me comprometi a ver, ou pelo menos tentar ver, um filme por dia. E quase consegui. Se em alguns dias não consegui ver nenhum, em outros cheguei a ver dois ou até três. A média foi quase mantida.
Fiz o incrível curso de Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica, do crítico Pablo Villaça, que me ajudou a abrir um pouco mais olhos para o que vejo no Cinema. Aprendi muito.

No blog foram 14 críticas (número pequeno, tentarei aumentar em 2013) e mais alguns comentários sobre outros filmes.
Ano passado, também, pela primeira vez, comecei a registrar todos os filmes que eu vi. Seja pela primeira vez ou revistos. Ao total, foram 355 filmes vistos (223 pela 1ª vez +132 revistos).

Embora não tenha sido um ano com filmes nota 10 (que dou apenas para filmes que eu considere que chegaram, pelo menos, próximos da perfeição), foi um ano com bons filmes. A seguir vou fazer uma lista de filmes VISTOS em 2012 que dei as maiores notas. Não é uma lista definitiva com os melhores do ano, já que ainda têm muitos filmes para ver, mas alguns desses certamente entrariam (ou entrarão, se eu vier a fazer tal lista) na lista dos melhores.

Separei 10 filmes de 2012 e 3 filmes de 2011, lançados aqui no Brasil em 2012.
Shall we?

Os Vingadores - 9

Que os cinéfilos mais intelectuais me perdoem mas, sim, a lista é encabeçada por dois filmes baseados em HQ.
"Os Vingadores" é um dos melhores filmes de super herói que já vi, e um blockbuster como deve ser. Muita ação, diálogos interessantes, momentos engraçados... A trama pode deixar um pouco a desejar, mas nem tudo é perfeito. O desenvolvimento dos heróis, como grupo, foi bem trabalhado. No início eles mal conseguem se aguentar, mas o roteiro e a direção de Joss Whedon faz essa aproximação e aceitação não se tornar tão forçada. Não é um filme que te faz sair do cinema refletindo sobre o sentido da vida, mas te faz sair alegre e muito animado com o que acabou de ver.

O Cavaleiro das Trevas Ressurge - 9

Diferente de "Os Vingadores", o último filme da trilogia do Batman feita por Chistopher Nolan é bem mais denso e sério. Apesar de alguns problemas e soluções preguiçosas no roteiro, o filme fecha muito bem a trilogia, fazendo o Cavaleiro de Gotham renascer para enfrentar Bane, um vilão que mostra que uma idealogia distorcida pode ser ainda mais perigosa que a "simples" loucura e psicopatia de Coringa.
Crítica completa aqui: http://www.isduarte.blogspot.com.br/2012/08/batman-o-cavaleiro-das-trevas-ressurge.html

Paradise Lost 3: Purgatory - 9

Terceira, e última, parte de uma série de documentários sobre três adolescentes que foram condenados pelos assassinatos de 3 meninos no Arkansas, EUA. Recentemente, quase 20 anos depois, a inocência deles foi provada. Os primeiros dois documentários da série de certa forma ajudaram para que isso acontecesse, pois, ao questionar se eles eram os verdadeiros assassinos, movimentos se criaram para que o caso fosse investigado mais a fundo. O documentário é emocionante e mostra como a justiça pode não ser tão justa assim.

As Aventuras de Pi - 8,5

Ang Lee usa as religiões (não tomando partido de nenhuma específica) e a luta pela sobrevivência como ponte para o seu belo ensaio sobre a fé e o auto-conhecimento. A jornada de Piscine Patel é retratada com um espetáculo visual que agrada os olhos. Você pode até não gostar do filme, mas com certeza ele vai te fazer pensar antes de decidir se gostou ou não. E a beleza do cinema é essa. Te fazer refletir sobre o filme, e trazer essa reflexão para a vida real.

A Invenção de Hugo Cabret (lançado aqui em 2012) – 8,5

Martin Scorsese larga as suas histórias densas de sangue e mistério para fazer um filme sensível sobre o cinema e o nosso lugar no mundo, essa grande "máquina", como o personagem de Asa Butterfield diz.
Crítica completa aqui: http://www.isduarte.blogspot.com.br/2012/02/invencao-de-hugo-cabret-oscar-2012.html

— Daqui em diante todos com nota 8:

O Artista (lançado aqui em 2012)

O ganhador do Oscar de 2012 teve sucesso ao nadar contra a corrente da indústria cinematográfica atual. O filme, além de ser em preto e branco, é mudo, o que afastou muita gente que não tem paciência de ver um filme assim hoje em dia.
"O Artista" conta a história de George Valentin (Jean Dujardin, que ganhou o Oscar de Melhor Ator), um ator do cinema mudo que não consegue acompanhar a evolução do cinema, com a adição do som, e vê sua carreira afundar. Uma das belezas do filme é, por ser mudo, contar detalhes da trama através de metalinguagem, como o letreiro escrito "Lonely Star", apontando o estado de espírito de Valentin em um momento em que ele se sentia sozinho e ultrapassado.
Crítica completa aqui: http://www.isduarte.blogspot.com.br/2012/02/o-artista-oscar-2012.html

O Segredo da Cabana

Joss Whedon aparece aqui novamente, dessa vez roteirizando e produzindo. Com uma história que você vai pensar que já viu em muitos filmes, e uma dose colossal de referências, "O Segredo da Cabana" homenageia ao mesmo tempo em que reinventa os filmes de terror. Feito mais pra rir do que para assustar, o roteiro acerta ao abusar do humor negro, impedindo que o filme fique muito sério e pretensioso.
Crítica completa aqui: http://www.isduarte.blogspot.com.br/2012/10/o-segredo-da-cabana.html 

The Raid: Redemption

Se você nunca viu um filme indonésio, é bom começar por esse, que é o melhor filme de ação de 2012. O filme aqui no Brasil foi lançado diretamente em vídeo, com o nome não lá muito chamativo "Operação Invasão".
Na trama, uma tropa de policiais de elite precisa invadir um enorme complexo dominado por bandidos. Claro que as coisas não dão certo, o caos se instala e os policiais têm que lutar para sair de lá vivos. O filme, ao contrário dos americanos, não tem só tiroteio. As cenas de luta são excepcionais.
Se eu não tivesse visto esse filme, talvez eu tivesse gostado mais de "Dredd", que é bom, mas parece uma versão futurista de "The Raid: Redemption".

Anjos da Lei

Se "The Raid" foi o melhor filme de ação que vi no ano, "Anjos da Lei" provavelmente foi a melhor comédia. É um filme que eu não dava a mínima. Jonah Hill e Channing Tatum são dois atores que eu não simpatizo, e a premissa parecia boba. Mas é um dos filmes mais divertidos que vi recentemente. Até hoje me pego lembrando da cena do caminhão explodindo e me seguro para não começar a rir do nada.
E ainda tem uma ponta ótima do Johnny Depp!

A Separação (lançado aqui em 2012)

Vencedor do Oscar de Filme Estrangeiro, "A Separação" mostra um Irã que o Ocidente não conhece muito. Um país moderno, em que o casal principal mora bem, tem boa situação financeira e não é fundamentalista. Bem diferente da imagem que a maioria das pessoas tem não só do Irã, mas dos países islâmicos em geral.
A trama acompanha um casal que está em processo de divórcio. Enquanto Simin quer se mudar para outro país, para que sua filha tenha uma melhor educação e mais oportunidades, Termeh quer ficar no País, para cuidar de seu pai que tem Alzheimer. Porém o melhor do filme é não focar na separação em si, e sim nos eventos que ela provoca.
Mesmo a história se passando num curto período de tempo, os personagens são bem desenvolvidos. Sabemos o suficiente de cada um. E nenhum deles é perfeito. Todos têm seus defeitos, tomam atitutes duvidosas, ninguém fala a verdade "completa". Mas, ao mesmo tempo, nenhum deles é mau.
Recentemente vi "Procurando Elly", filme anterior do diretor de "A Separação. Outro filme igualmente ótimo, se não melhor.

Moonrise Kingdom

Não costumo fazer isso, mas fui ver "Moonrise Kingdom" praticamente sem saber nada sobre o filme.
Pra começar, gostei muito da forma como foi gravado. Logo nos primeiros minutos pensei: "Bom, se o filme for ruim, pelo menos é estiloso". As posições e os movimentos da câmera (a fotografia em geral), a edição, o amarelo não apenas presente nos figurinos e nos cenários, mas na própria paleta de cores do filme. Tudo muito agradável aos olhos.
Mas o filme não se resume ao seu bonito visual. A história é bem legal, tem um senso de humor sensível e peculiar (a piada nem sempre está nos diálogos) e tem uma bela trilha sonora. Sem falar no elenco, que é espetacular.
Tanto Kara Hayward como Jared Gilman fazem sua estreia no cinema, e muito bem. Eles passam uma pureza, uma leveza, que, combinada com o humor, são cativantes.

Skyfall

A saga de James Bond volta a ter um filme que faz juz à sua grandeza. Em "007 - Operação Skyfall", Sam Mendes resgata o bom cinema que ficou meio esquecido em "Quantum Of Solace" e faz talvez o filme mais pessoal do Agente Secreto. O filme traz um vilão marcante (Javier Bardem), "novos velhos" personagens, referências a filmes anteriores e uma boa dose de ação, claro.
Crítica completa aqui: http://www.isduarte.blogspot.com.br/2012/11/skyfall-e-nova-saga-do-007-ate-aqui.html

Excision

Fechando a lista, um filme que quase ninguém deve ter ouvido falar, e quem viu pode não ter gostado. "Excision" é sobre Pauline, uma garota perturbada que tem uma mãe controladora, um pai controlado pela mãe e uma irmã que tem uma doença que precisa de um transplante de pulmão.
Pauline, interpretada increvelmente por AnnaLynne McCord, é uma freak. Não tem amigos, tem dificuldade em lidar com as pessoas, não liga para a forma como que se veste, fala coisas chocantes etc. Porém, ela não é uma coitada. Ela provoca, e parece ter orgulho de ser A diferente. Além disso tudo, ela constantemente tem delírios e sonhos doentios, regados a sangue, morte, sexo e, às vezes, tudo junto. E o interessante é que ela só aparece maquiada e produzida durante esses sonhos/delírios. É como se o mundo real não importasse. Ela só acha prazer nas fantasias sanguinolentas.
Apesar de Pauline não acreditar em Deus, ela conversa com Ele em vários momentos do filme. São "orações" cheias de ironia que acabam servindo para mostrar, verbalmente, o que ela sente, já que ela tem dificuldade de expressar seus sentimentos, e até mesmo de sentir.
As participações especiais do filme são um espetáculo à parte. John Water, interpreta um padre-psicólogo que tem a infeliz tarefa de atender Pauline, enquanto Malcolm McDowell é o professor de matemática dela.
O final pode ser um pouco anti climático e divergente com o que foi mostrado durante o filme (Pauline, apesar de suas alucinações, é bem racional), mas analisando em geral, é um ótimo filme.
Tecnicamente, "Excision" pode até não ser um dos melhores filmes do ano, mas com toda certeza é um dos mais interessantes...
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Outros filmes que merecem menção: Precisamos Falar Sobre Kevin (lançado em 2012), God Bless America, Os Infratores, Protegendo o Inimigo, Poder Sem Limites, 50% (lançado em vídeo em 2012), A Mulher de Preto, O Abrigo, Game Change, O Ditador, Frankenweenie, Os Mercenários 2.

Melhores filmes que vi em 2012, independente do ano: Era Uma Vez no Oeste (provavelmente o melhor filme que vi no ano), Um Corpo Que Cai, Janela Indiscreta , Psicose (1960), De Volta Para o Futuro, O Enigma de Outro Mundo (1982), A Sentinela dos Malditos, Além da Linha Vermelha, A Outra História Americana, Star Wars IV: Uma Nova Esperança, Dawn Of The Dead (1978), O Sétimo Selo, A Lista de Schindler, 13º Andar, Conspiração Americana, O Estranho Sem Nome, Confiar, Glória Feita de Sangue, Procurando Elly, Memórias de Um Assassino, No Calor da Noite, Noroi.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

[Esse é Clássico!] Janela Indiscreta

★★★★☆
Ótimo

Um fotógrafo preso a uma cadeira de rodas por ter quebrado a perna durante o trabalho se distrai observando a vida de seus vizinhos. Mas tudo muda quando ele começa a suspeitar que um de seus vizinhos pode ter cometido um assassinato.

Assim como muitos diretores, Alfred Hitchcock, conhecido como "o mestre do suspense", costumava ter seus atores e atrizes preferidos, com os quais fazia vários filmes. James Stewart era um deles e, com quatro filmes, eles fizeram uma das dobradinhas mais conhecidas no cinema. Depois de ser coadjuvante em "Festim Diabólico" (Rope), em "Janela Indiscreta" Stewart protagoniza pela primeira vez um filme de Hitchcock, que tem roteiro de John Michael Hayes.

Uma das coisas que mais chama atenção no filme, é o enorme set que Hitchcock mandou construir no estúdio da Paramount. Todos os apartamentos daquele bairro tinham eletricidade e água corrente — tanto que atriz que interpreta a Srta. Torso (Georgine Darcy) "morou" no apartamento de sua personagem durante o período de filmagem, descansando durante as tomadas. Pedido megalomaníaco de Hitchcock ou não, o fato é que, na época, foi o maior set criado dentro do estúdio.


O filme começa com um "passeio" pela vizinhança, situando o espectador e apresentando o local onde a trama irá se realizar. Num dos apartamentos vive L.B. "Jeff" Jefferies, um fotógrafo que quebrou a perna num trabalho e é obrigado a ficar de molho em casa, se locomovendo apenas com o uso de uma cadeira de rodas.
A direção faz questão de mostrar que na situação de Jeff até pequenas coisas, como conseguir coçar a perna engessada, são satisfações altamente estimadas pelo personagem, e conseguidas com muito esforço. Nada é fácil naquela situação e, sem muito o que fazer, ele passa o dia espiando a vida de seus vizinhos, como se a janela fosse sua TV e cada apartamento um canal diferente — e todos, diga-se de passagem, passando programações bem chatas. Stella, a enfermeira que cuida de Jeff (e um bom escape cômico no filme), o aconselha a parar com esse hábito recém adquirido já que ele pode até ser preso e "não há janelas na prisão", ela diz. Só que ela não percebe que ele, imóvel naquele apartamento, já está na prisão. Ficar confinado num apartamento é a pior coisa que poderia acontecer para alguém que vive viajando, nunca ficando num mesmo lugar por muito tempo.


Num dia as coisas começam a ficar um pouco mais interessantes em sua rotina, quando ele começa a suspeitar que um de seus vizinhos cometeu um assassinato. Mesmo com poucas — ou nenhuma — evidência, seu faro investigativo (aliado à vontade de que algo interessante aconteça em seu dia-a-dia entediante) o leva a investigar esse suposto crime. A partir daí ele deixa de ser apenas um "espectador" passivo.

Apesar do estilo de vida simples e itinerante, Jeff namora Lisa (a linda Grace Kelly), uma rica consultora de moda com quem não tem muito em comum. Ela quer se casar com Jeff, mas, por serem de mundos muito diferentes, ele não sabe se é isso que quer. As investidas de Lisa e as incertezas de Jeff culminam em uma bela sequência em que os dois discutem a relação e seu futuro juntos.
A princípio é uma sequência normal com plano e contraplano, mas é interessante notar que a direita do plano de Lisa tem algumas peças douradas que, junto com sua roupa chique e seu cordão de pérolas, remetem ao mundo de riqueza em que ela vive, enquanto no de Jeff, não há nada que chame atenção em sua volta, apenas escuridão atrás dele. A pouca luz que chega nele vem do grande abajur também ao lado de Lisa. Esses dois detalhes revelam muita coisa sobre o relacionamento deles:
1- Reforça a diferença entre eles. O mundo de Lisa é iluminado, dourado. O de Jeff é sem brilho, escuro; 2- mostra como Jeff se sente em relação a Lisa. Diante daquele mundo brilhante, ele não tem importância, luz própria. Ele se sente menor que Lisa. E isso piora pois ela tenta fazer com que ele mude o seu estilo de trabalho, para se adequar ao mundo dela, além de estar sempre querendo atrair publicidade para ele (ao ponto de plantar notas sobre Jeff nas suas colunas);  3- E, por final, isso também mostra o que eles sentem em relação ao seu futuro juntos. Desde o início sabemos que Jeff está hesitante em relação a um futuro casamento com Lisa, em contrapartida, ela não acha que a diferença entre o modo de vida deles possa significar o fim do relacionamento. Ela ainda está otimista quanto ao futuro deles. Mas, ao fim da discussão, quando ela percebe que o relacionamento realmente pode não ter futuro, é ela quem aparece num plano mais escuro, indo embora do apartamento de Jeff. Enquanto ele, que desde o início não está certo sobre ela, fica no plano mais claro — talvez por, naquele momento, ter sentido um certo alívio.
Uma sequência linda, com pequenos detalhes que revelam bem mais que os próprios diálogos, e que só poderia ter sido realizada por uma direção de arte sensível e competentíssima.


Mais tarde, Jeff e Lisa se encontram novamente e ele conta para ela sobre suas suspeitas, mas ela a princípio não acredita, assim como o seu amigo detetive Thomas Doyle (Wendell Corey). Jeff continua com sua investigação informal, por assim dizer, e, eventualmente, consegue fazer com que Lisa suspeite que algo realmente está errado, a trazendo para o seu lado, junto com Stella. Lisa, que até o momento era apenas uma ricaça alheia ao mundo, ao se tornar um tipo de parceira de Jeff, começa a entrar no mundo dele e experimentar a adrenalina de uma investigação. No momento em que ela se arrisca para conseguir provas, Jeff percebe que a subestimou e, quando ela volta, tendo êxito, vemos um certo orgulho, aceitação no olhar dele.
Essa mudança de Lisa é refletida até no seu modo de vestir. As roupas vão ficando menos "espalhafatosas", mais sóbrias a medida que o personagem começa a participar daquele mundo.

A fotografia, que insiste em passear, principalmente com panorâmicas, pelas janelas dos apartamentos — mas sempre a partir do ponto de vista do apartamento de Jeff nunca nos deixando esquecer onde estamos  — consegue fazer até o menos "bisbilhoteiro" dos espectadores se interessar pelos vizinhos de Jeff. Há um momento durante essas viagens que, só de a câmera passar por uma janela, você percebe que já sabe quem mora ali. A partir daí, você já está envolvido emocionalmente com essas pessoas, seja Srta. Lonelyhearts ou o casal que tem o curioso hábito de dormir na varanda de casa, por exemplo.


Usando a metáfora de alguém espiando seus vizinhos, Hitchcock faz uma crítica a sociedade americana, voyeurista, exibicionista e que cada vez mais ficava "imóvel" diante da tecnologia (como a própria televisão metafórica) e seus efeitos na vida diária. Essa crítica continua valendo — mais do que nunca. Se hoje temos programas, sites e revistas de fofoca é porque há procura. O ser humano sempre teve interesse pela vida alheia. A grama do vizinho sempre foi mais verde. E, se não bastasse isso, cada vez mais nós temos necessidade da exposição. A cada geração temos nos tornado a bailarina Miss Torso, que adora se exibir, dançando com pouquíssima roupa aos olhos de quem quiser ver. Se hoje temos o "stalking" na internet é porque as pessoas oferecem conteúdo para ser "stalkeado". O interesse pela vida alheia sempre existiu mas, com o passar dos anos, a necessidade de nos mostrar parece ter aumentado, principalmente com a internet e com as redes sociais disponíveis na palma da mão. Saímos e ficamos olhando para a tela de um celular, chegamos a um lugar e tiramos foto. Viramos reféns da tecnologia e do exibicionismo, exatamente como Hitchcock previu há quase 60 anos.

Por isso que Janela Indiscreta é um do pouco filmes que sobreviveram tão bem ao tempo. Não apenas por ser um ótimo suspense, mas por trazer questões que ainda valem ser discutidas hoje em dia.

Rear Window
EUA , 1954 - 112 min.  

Suspense
Direção: Alfred Hitchcock

Roteiro: John Michael Hayes
Elenco: James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey, Thelma Ritter, Raymond Burr, Judith Evelyn, Georgine Darcy

sábado, 15 de dezembro de 2012

Armas matam pessoas, sim.

Vamos chegando no final de 2012 e somos surpreendidos, mais uma vez, por um atentado com armas de fogo nos Estados Unidos (mais uma vez). O sétimo só nesse ano. Se já não fosse terror o suficiente o último em que um maluco vestido de Coringa entrou atirando num cinema, matando 12 pessoas e ferindo 38, agora temos um atirador, numa escola primária, que matou 20 crianças e 6 adultos. Foi o segundo ataque com mais vítimas na história dos Estados Unidos (em 2007 um estudando coreano deixou 33 mortos numa universidade na Virginia), mas que choca ainda mais por ter sido cometido contra crianças.

Ataques como esse sempre levantam a questão da regulamentação das armas no país, que é próximo a 0. Obama comentou, emocionado, sobre o atentado de hoje, mas falou que não é hora de discutir o assunto. Na verdade, é o momento perfeito. As pessoas precisam falar sobre isso. A cada vez que o assunto não é discutido, é tarde demais. Às vezes é melhor discutir no calor do momento do que adiar indefinidamente a discussão enquanto inocentes morrem. E mais difícil do que entender como uma pessoa é capaz de matar crianças a sangue frio, é entender como, após tantos massacres como o de hoje, tem gente que consegue não defender um controle rigoroso de armas nos EUA. Desde Columbine, em 1999, estima-se que aconteceram 14 ataques a escolas em todo o mundo. Nos Estados Unidos, nada menos que 31. Mais que o dobro.

"Mas é um problema cultural lá, eles sempre tiveram armas". Já passou da hora dessas pessoas (a Direita, principalmente) pararem de pensar no próprio nariz. A mesma lei que as permite ter um monte de armas, incluindo armamentos militares, para "se defender" permite que esses psicopatas cometam esse tipo de atentato todo ano. Sempre têm aqueles que vão dizer: "Armas não matam pessoas. Pessoas matam pessoas". É como se quisessem tirar a responsabilidade da arma de fogo, quando o próprio objetivo dela é ferir ou matar — daí o nome, arma. Fora que é a mesma lógica que dizer que aviões não voam. Pessoas voam. Um é meio para o outro. Ok, pessoas matam com outros tipos de arma, mas não tem como comparar a letalidade. Hoje mesmo na China um homem foi preso depois de ferir 22 crianças com uma faca. Quantos mortos? NENHUM. Em 2010 teve uma série de atentatos com facas a escolas, também na China, com o total de 20 mortos. O número de vítimas fatais num atentado com armas de fogo é massivamente superior ao com facas, por exemplo. E o que a China fez: obrigou pessoas que compravam facas grandes a se registrar com suas carteiras de identidade. Não foi uma medida extrema (até porque facas não tem como o único objetivo matar), mas ajudou a controlar a situação na época.
E se alguém me responder por que um cidadão normal precisa desse tipo de arma para se defender, ajudaria nessa discussão:


Sim. Essa foi uma das armas usadas no Massacre na escola de Connecticut.

Aí vem um americano no twitter me perguntar: "Então você acredita que criminosos seguem leis de armas (no caso, de controle de armas)? Se uma lei para desarmar cidadãos fosse aprovada, apenas criminosos estariam armados. O quão seguro é isso?"

O que eu penso, e que foi mais ou menos a minha resposta: Aham, todo mundo portando armas é MUITO mais seguro... Quantos desses atiradores, foram parados por cidadãos comuns armados? Geralmente eles têm três fins: são presos (o mais raro), se matam, ou são mortos por policiais. Muitos criminosos nos EUA compram armas legalmente. Tendo um controle, criminosos não parariam de comprar armas, mas pelo menos dificultaria o processo de conseguí-las, e o Estado não estaria "patrocinando" essas tragédias. Como morador de um país violenta, onde cidadãos comuns não compram armas, tenho certeza absoluta que se tivéssemos armas, não adiantaria nada. E que uso teria pra mim um rifle automático com mira e o escambau?

Não só nos Estados Unidos é permitido que cidadãos comprem armas, mas é lá que a maior incidência de eventos violentos como o de hoje ocorre. Meu objetivo não é entrar na discussão do porquê que tantas pessoas fazem isso. Mas sim o porquê de tantas pessoas terem ferramentas para fazer isso.
Quando você tem um paciente suicida, a primeira coisa a fazer é tirar a faca (ou qualquer coisa que ele possa usar contra si mesmo) de perto. E então ele será tratado psicologicamente. Talvez esse seja o caminho a se tomar. Tirar, ou controlar, a ferramenta que causa a destruição, para então tratar a sanidade mental de uma nação onde pessoas têm sofrido tanto com guerras e tragédias.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Skyfall (e nova saga do 007 até aqui)

Em meados de 2005, depois de muita especulação, Daniel Craig foi anunciado como o novo intérprete de James Bond. Pierce Brosnan, seu último intérprete, não renovou o seu contrato após quatro filmes. A escolha não foi muito bem aceita pelo público já que Craig, loiro, baixo e não tão bonito, quebrava os estereótipos do 007 que foram criados ao longo da filmografia do agente secreto.
Essa nova fase seria um reboot da série, sem qualquer relação direta com os filmes anteriores. E os novos filmes, começando por "Casino Royale", seriam mais baseados na realidade, sem bugigangas tecnológicas, enquanto apresentariam um James Bond mais inexperiente.

Com o lançamento de "Skyfall", o 3º filme com Craig, aproveito para fazer um apanhado dessa nova etapa do 007 até aqui — mas com o foco no último, claro. A essa altura Daniel Craig se firmou no papel de Bond, afastando as dúvidas quanto a escolha por ele, e a série se consolidou como uma das mais lucrativas dos últimos anos ("Skyfall" vem batendo recordes de bilheterias ao redor do mundo).

Se você não viu os filmes, já aviso da presença de spoilers.

007 - CASINO ROYALE

★★★★☆
Ótimo

Com a missão de contar a origem do agente 007, "Casino Royale" já começa mostrando como James Bond ganhou o status de 00, e sua primeira missão como tal. E logo nesse início já dá pra perceber que veremos que o James Bond de Daniel Craig será bem mais "físico" que os anteriores. Isso se confirma na impressionante cena de perseguição em Madagascar. É até curioso ver o James Bond, todo bruto, tentando de qualquer jeito acompanhar o negão mestre no Le Parkour. Nessa sequência Bond prova que aqueles que dizem que "técnica é superior a força" podem estar errados. Bem errados.
Apesar de ter feito um estrago numa embaixada em Madagascar, o que colocou o MI6 e ele mesmo em capas de jornais, Bond consegue informações que eventualmente o levam a Le Chiffre, um banqueiro que financia organizações terroristas. Desesperado, depois de Bond o fazer perder mais de U$100.000.000, ele organiza um torneio de pôquer em que espera recuperar a fortuna perdida, e continuar vivo (já que o dinheiro que ele perdeu era, na verdade, de seus clientes). A pedido de M, o governo britânico aceita bancar a participação de Bond no torneio contando que, com a derrota de Le Chiffre, ele, sem opções, aceite virar um informante do serviço secreto britânico, em troca de segurança.

Apesar do filme focar bastante no torneio de pôquer, "Casino Royale" não deve nada em ação. Várias cenas são de tirar o folêgo, assim como a bond-girl Vesper, interpretada pela linda Eva Green. Ela é a designada pelo governo para garantir a segurança do dinheiro investido em Bond. Eles acabam se apaixonando, o que, com os eventos que se seguirão, será essencial no desenvolvimento desse "novo" James Bond.

O que mais chama atenção em "Casino Royale" é a humanização "sofrida" por Bond. Sempre o conhecemos como um espião charmoso e mulherengo, mas inalcançável, por assim dizer. Nunca o vimos tão passível de falhas e sentimentos. O James Bond de Daniel Craig é rebelde, quebra regras, apanha bastante (e bate ainda mais), se machuca durante as perseguições, se apaixona... Enfim, parece mais crível. Essa talvez seja a maior pretensão desse reboot da série. E essa característica estará presente e fará parte dos elementos principais nos filmes que seguirão "Casino Royale".

007 - QUANTUM OF SOLACE:

★★★☆☆
Bom

O filme começa quase exatamente onde "Casino Royale" terminou. Um James Bond furioso, para dizer o mínimo, vai atrás daqueles que causaram a morte de Vesper, que o traiu, mas também o salvou. E ele não mede esforços para encontrar respostas, destruindo tudo e todos no seu caminho. Sua busca pelo responsável pela morte de Vesper o leva a uma grande organização terrorista. Tendo apoio até da CIA, a Quantum é praticamente intocável, e Bond é o único que ousa ficar contra a organização, mesmo que isso signifique ficar contra a Agência americana e ao próprio MI6.

"Quantum Of Solace" peca por ser meio confuso. Desde o roteiro às cenas de ação — em certos momentos nem dá pra entender o que está acontecendo; resta-nos presumir que seja lá o que aconteceu seja realisticamente possível, e seguir o filme.

Mas, por outro lado, é um filme que parece que "precisava" ser feito. Trabalhar a forma como os eventos de "Casino Royale" influenciaram James Bond como pessoa/agente era essencial para a saga (além de aprofundar mais a relação dele com M), ainda mais a longo prazo. Olhando superficialmente, para nós pode ter sido apenas uma conclusão da história de "Casino Royale". Mas para Bond, foi uma conclusão da sua história com a Vesper. Passado o período de "luto", o sentimento de raiva e vingança, agora ele pode seguir em frente — e "Skyfall" mostra exatamente isso: um Bond mais maduro.

Para a mitologia do 007, Quantum Of Solace foi útil. Mesmo não tendo sido muito bem executado.

007 - OPERAÇÃO SKYFALL:

★★★★☆
Ótimo
[Pequenos spoilers do filme a seguir]

Muita expectativa se criou por Skyfall. Depois do não-tão-bom "Quantum of Solace", o 3º filme desse "reboot" da saga do 007 tinha o dever de retomar o bom cinema apresentado em "Casino Royale". Para isso, Sam Mendes, um diretor com mais bagagem, foi chamado para dirigir o filme — mesmo que o roteiro seja de Neal Purvis, o mesmo de Quantum. E Mendes cumpre o seu dever, nos entregando um belíssimo filme.

Embora "Skyfall" seja um maravilhoso filme de ação, ele se distancia um pouco dos filmes anteriores do espião mais famoso do mundo (falando desse jeito até fica engraçado). Enquanto a maioria dos filmes — seja da "era" Craig, Brosnan, Connery etc — tem um clima mais "thriller de espionagem" (com bastante ação, é claro), "Skyfall" parece abrir mão da espionagem e foca mais no clima de perseguição. Lá pela metade do filme já descobrimos quem é o vilão e seu objetivo. Ponto. A partir daí o filme se joga de cabeça numa caça de gato e rato (ou rato e rato, quem já viu entenderá). 
Apesar do clima de caça, é claro que existem mais elementos que compõe a trama de "Skyfall", como M respondendo pelos erros do MI6 (inclusive um que quase causou a morte de Bond) e a volta à ativa de Bond, após ser baleado e dado como morto. Porém, tudo serve mais de preparação para o arco principal.

Mas além das incríveis cenas de ação, "Skyfall" guarda como seus maiores trunfos a exploração do passado de James Bond e o seu vilão, atuado por Javier Bardem, que já vai juntando uma coleção de ótimos vilões (vide Anton Chigurh de "Onde Os Fracos Não Tem Vez"). Esses são os maiores diferenciais de "Skyfall" em relação aos seus dois antecessores. Em Casino e Quantum, algumas pistas sobre o passado de Bond são dadas, mas nunca exploradas, e os vilões não eram "pessoais" como Silva. Nele, "Skyfall" encontra um inimigo perfeito para Bond. Um ex-agente (e outrora pupilo de M), que consegue pensar e lutar como ele. A primeira vez que os dois se encontram já é um dos melhores momentos da nova saga, não só pela metáfora que vai comandar o filme, mas pelo humor que alivia o clima de tensão do momento.
São esses dois elementos que fazem de "Skyfall" o filme mais pessoal do 007 (pelo menos dessa nova fase) até aqui.

Numa série tão duradoura como 007 é normal que os novos filmes façam refererências aos antigos, mesmo que eles não se passem num mesmo universo/linha de tempo. Essas conexões, além de demostrarem respeito aos filmes anteriores, servem para atrair o público mais saudosista, fãs dos filmes mais antigos. E o que não falta em "Skyfall", lançado no ano em que a série completa meio século, é referências aos seus predecessores. As referências vão desde citações à bugigangas usadas em filmes anteriores (como caneta explosiva) à um novo "Q",  passando pelo famoso Aston Martin — "Vamos voltar no tempo" diz Bond á M ao ser perguntado para onde vão. Isso é mais um ponto interessante de "Skyfall". Enquanto é o filme que menos se assemelha ao "modelo 007", é o filme que mais parece querer se conectar com os outros. Talvez a escolha por fazer tantas referências seja exatamente simular uma conexão com a série, já que o roteiro não faz isso — não que isso seja defeito, apenas algo diferente. De qualquer forma, as várias referências, que podiam até acabar soando forçadas, se mostram um dos pontos altos do filme.

Não sei se é porque "O Cavaleiro das Trevas Ressurge" ainda está muito fresco na minha cabeça, mas não pude deixar de notar algumas semelhanças entre as tramas de "Skyfall" e as dos filmes do Batman, de Christopher Nolan. "Skyfall" se passa um tempo depois dos dois filmes anteriores, provavelmente alguns anos, e mostra um herói mais maduro que tem que enfrentar as limitações físicas dos ferimentos e da própria idade. Outros elementos, como um vilão com senso de humor "curioso" e que está sempre a frente dos "mocinhos" (inclusive sendo preso de propósito), também remetem aos filmes de Nolan. Essas semelhanças podem ser apenas coincidências, mas parece que Skyfall bebeu um pouco da fonte de Batman.

Sendo uma história original ou não, o que importa é que "Skyfall" recupera o prestígio da saga. Sam Mendes, que pode voltar para a próxima continuação, faz um ótimo trabalho ao fazer um filme com bastante ação, sem esquecer do desenvolvimento dos personagens. Esse equilíbrio faz de "Skyfall" um dos melhores filmes recentes do 007.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O Segredo Da Cabana

★★★★★
Excelente


Apesar da primeira cena, que pode parecer fora de contexto pros desavisados, "The Cabin In The Woods" começa como um filme de terror normal, com a já batida história do grupo de amigos que vai passar uns dias numa cabana longe de tudo. Mas, não se engane, o filme pega essa premissa para fazer algo nunca visto nos filmes de terror e, aos poucos, a história se revela bem mais complexa do que parece.

O filme não chega a ser muito assustador, mas o que acaba conquistando o telespectador nem é o terror, mas a história (e o problema é que fazer uma análise do filme sem revelar detalhes da história é praticamente impossível). Você fica tentando adivinhar o que diabos está acontecendo naquele lugar e formulando várias teorias que vão mudando no decorrer do filme — desde o início dicas vão sendo dadas, mas não antes da metade do filme o espectador consegue ter uma idéia do que está acontecendo. E Joss Whedon mais uma vez não decepciona. Roteirista e produtor (ele deixou a direção para Drew Goddard que co-roteirizou o filme e, apesar de já ter uma boa carreira como roteirista, é novato na direção), ele consegue fazer uma homenagem — ou seria uma "paródia"? — aos filmes de terror ao mesmo tempo em que reinventa o gênero. Ponto para Whedon e Goddard que souberam construir um roteiro coeso, capaz de atiçar a curiosidade do espectador sem subestimar sua inteligência.


O humor negro e as referências à outros filmes de terror também são pontos altos do filme. Desde os esteriótipos dos pesonagens às situações. Marty implorando para Dana não ler a parte em latim de um diário sombrio pode remeter à Evil Dead (ou vários outros filmes, já que ler textos em latim NUNCA é uma boa ideia), enquanto um quebra cabeça em formato de esfera que invoca um monstro lembra Hellraiser, por exemplo. E ainda pequenas coisas, como o porquê de os personagens largarem uma ferramenta que acabaram de usar para matar quem ou o quê os perseguiam. Todas esses detalhes tornam o filme ainda mais divertido.

No elenco destacam-se (além das duas belas mulheres do grupo, claro) Fran Kranz (o maconheiro Marty) e Richard Jenkins (Sitterson). Eu até cheguei a pensar que Chris Hemsworth tinha entrado no filme por causa de "Thor" e "Os Vingadores" (principalmente o último, que foi dirigido por Whedon), mas provavelmente foi ao contrário, já que "The Cabin In The Woods", mesmo sendo lançado só agora, foi filmado em 2009, quando os dois filmes da Marvel nem tinham entrado em produção. O motivo do atraso do lançamento foi que o estúdio queria converter o filme para 3D, mesmo contra a vontade de Whedon e Goddard. O estúdio acabou desistindo e o filme ficou "engavetado" até ser lançado esse ano. Uma curiosidade é que Fran Kranz e Amy Acker trabalharam juntos com Whedon em Dollhouse.


Outra coisa legal é que Joss Whedon e Drew Goddard tiveram tudo para encerrar o filme de uma maneira que desse abertura para uma sequência, que é a tendência na indústria cinematográfica. Mas contrariando isso, eles escolheram terminar de um jeito que praticamente descarta uma continuação, o que achei corajoso. Mais um ponto pro filme (apesar que, confesso, gostaria se rolasse uma continuação).

"The Cabin In The Woods" está na minha lista dos melhores filmes do ano!

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Os Mercenários 2

★★★★☆
Ótimo

Em 2010 Sylvester Stallone reuniu vários astros de filmes de ação em "The Expendables", traduzido aqui no Brasil para "Os Mercenários". O filme fez sucesso e uma continuação foi confirmada para 2012. Stallone, agora com 66 anos, continua desafiando o tempo e a idade, e volta a liderar o seu grupo de Mercenários nessa continuação que, no geral, supera o original.

"Os Mercenários 2" é um filme sem muita frescura — e por frescura eu quero dizer coisas como direção, roteiro, compromisso com a realidade etc — que tem como único objetivo entreter os espectadores. E consegue com sucesso. Até mais do que o primeiro. O filme é capaz de fazer até a menos nostálgica das pessoas sentir saudade daqueles filmes de ação dos anos 80 e 90, principalmente. Ver astros como Sly, Arnold Schwarzenegger, Bruce Willis, Chuck Norris e os mais "novos" Jason Statham e Terry Crews juntos contra Jean-Claude Van Damme é um sonho para os fãs dos filmes de Ação assim como ver "Os Vingadores" foi para os fãs de HQ.


Se em "Os Mercenários" as presenças de figurões como Schwarzenegger e Willis eram apenas brindes, na continuação a presença deles é o carro chefe de divulgação, já que eles realmente entram em ação, e os elementos do filme funcionam em função deles. Se por um lado isso é bom — as piadas cheias de referências às carreiras dos atores são um dos pontos altos do filme — por outro isso é ruim, pois faz o filme se distanciar ainda mais da realidade. Porém essa distância é criada de uma forma divertida, que acaba funcionando a favor do filme. Um momento que comprova isso é quando o Chuck Norris aparece pela primeira vez. A cena é absurdamente engraçada. Não que o primeiro seja um exemplo de filme baseado na realidade, mas forçando bastante a imaginação até era possível pensar "até que isso poderia acontecer". Mas nessa sequência, qualquer base na realidade é divertidamente ignorada. E até dá pra entender. Não é uma coisa normal ver sessentões ou, no caso de Norris, setentões correndo e atirando por aí. Stallone pode estar lutando contra a idade, mas percebe-se que ela já chegou há um bom tempo para Schwarzenegger, por exemplo. Ou se faz um filme de ação menos realista ou coloca os "tiozinhos" apenas para dar ordens, de trás das mesas.


Outro ponto alto do filme é a trilha sonora. Ela já era destaque no original, e continua ótima.
O roteiro não é grande coisa, mas até melhora em relação ao primeiro filme. Os diálogos estão menos infantis e a história e os personagens, mesmo não muito originais, são menos clichês. Van Damme que tinha recusado um papel no original por achar que o personagem oferecido a ele não tinha profundidade, dessa vez entra no elenco pra fazer o vilão, Vilain. Não sei o que fez mudar de ideia, porque seu personagem não tem muita profundidade e nenhum tipo de background. Perguntas como "de onde ele veio?", "Por que ele faz o que faz?" são completamente ignoradas. Mas, ei, estamos vendo o filme dos sonhos de todo fã de Ação, who cares? Pedir profundidade nos personagens é a mesma coisa que querer que os brucutus atuem. E, sinceramente, se trancassem todos esses atores numa sala, com algumas armas, eu já pagaria para ver.
Mas, dentre tantos atores lendários, quem mais se destaca, mais uma vez, é Jason Statham. De longe é o mais carismático e o responsável pelas melhores cenas de luta (a participação de Jet Li nesse filme é pequena, que nem ele). Porém ver Van Damme com seus spinning kicks é sensacional. A luta dele contra Stallone é demais.


Alguns podem pensar "você apontou tantos defeitos no filme e ainda fala que gostou?". SIM! Posso até relevar os defeitos do filme, mas não posso ignorar que eles existem. "Os Mercenários 2" tem muitos problemas. Nem precisa procurar defeitos para achá-los. É um filme sem profundidade (e alcançá-la nem é o objetivo principal) que não dá para se levado a sério. E é exatamente aí que está o segredo: não levar o filme a sério. É para aproveitar a experiência, rir com os amigos, tentar sacar todas as referências. E o filme tem sucesso no que propõe: apresentar boas cenas de ação e lutas, reunindo um elenco espetacular.

Daqui a 10 anos "Os Mercenários 2" não será lembrado por seus defeitos e sim por ter reunido, pela primeira vez, os principais ícones da história do cinema de ação.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A Arte não muda. Nós mudamos.

Você já mudou de ideia em relação a algum filme, música ou qualquer outra expressão de arte? Como se você não gostasse num momento e mais tarde começasse a gostar, ou vice-versa.
Isso acontece comigo com uma certa frequência. Músicas que eu eu não gostava e aprendi a gostar com o tempo. Ou filmes que, antes sem graça, agora parecem algo perto de uma obra prima. O contrário também acontece, claro.

Um exemplo recente disso é o filme "Inverno da Alma", que vi pela primeira vez para comentar aqui no blog, já que era um dos concorrentes ao Oscar de melhor filme de 2011 (a crítica pode ser lida aqui). Era o "underdog" daquela lista que continha filmes como "O Discurso do Rei" (que ganhou a estatueta), "Cisne Negro", "O Vencedor", "A Origem" etc. Foi o filme que "apresentou" Jennifer Lawrence ao mundo. Até então atriz desconhecida, ela foi indicada como Melhor Atriz pela bela atuação como Ree. Apesar da indicação, ela só foi estourar depois com "X-Men: Primeira Classe" e "Jogos Vorazes". O filme ainda contou com outro desconhecido, John Hawkes, que interpretou Teardrop, simplesmente um dos melhores personagens do ano. Mas a disputa na sua categoria (Ator Coadjuvante) era cruel e ele não teve a mínima chance contra Christian Bale (por "O Vencedor") — e ainda tinha Geoffrey Rush.

Por que estou "ressuscitando" "Inverno da Alma" aqui no blog? Porque um dia desses revi o filme e tive uma outra impressão sobre ele. Pelo que eu escrevi sobre o filme ano passado, dá pra perceber que eu achei um bom filme. E só. Nem digno de estar na lista de melhores filmes de 2011. Porém, revendo mais de um ano depois, vi o filme com outros olhos. Se antes eu o achava muito lento e com problemas no desenvolvimento da história, dessa vez achei que o ritmo não poderia ter sido melhor. O filme continua sendo meio lento, porém coeso com o modo de vida daquele lugar, que parece parado no tempo (em nenhum momento você vê uma televisão na casa das pessoas da comunidade, por exemplo).

O que eu quero ilustrar com esse exemplo é como nós mudamos nossa percepção da Arte com o tempo, seja por enxergarmos aspectos técnicos antes não vistos, ou simplesmente relacionarmos o que estamos vendo ou ouvindo à alguma experiência vivida. Algo no meu modo de ver mudou de lá pra cá. Para pior ou para melhor. Pessoalmente eu gosto de pensar que amadureci um pouco o meu "faro" para a 7ª Arte (rs) — algo que venho tentando fazer nos últimos anos. Isso não acontecerá com todos os filmes, é claro, mas existem certos elementos que você vai enxergar de maneira diferente com o passar do tempo. Não porque eles mudarão, mas porque você mudará. A Arte é imutável e independente do tempo. Mas a mente humana não. Por isso tantas obras (filmes, músicas, quadros, poesias etc) que foram subestimadas na época em que foram criadas hoje são adoradas. Van Gogh, que só vendeu um quadro durante sua vida, hoje é reconhecido como um gênio da pintura. O Homem mudou de lá pra cá. Sua ideia de Arte evoluiu — e está em constante evolução.
E a capacidade do Homem, que hoje mais do que nunca vive em função do tempo, criar algo atemporal como a Arte é uma das contradições mais lindas que existem.


"O filme nunca muda. Não pode mudar. Mas cada vez que você vê parece diferente porque você mudou. Você vê coisas diferentes." - James Cole (Os 12 Macacos)

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge

★★★★☆
Ótimo

Sou fã declarado do Christopher Nolan. Acho um dos melhores diretores de sua geração. Ele sabe como poucos criar e dirigir filmes dos temas mais variados sem soarem bobos e desnecessários, sejam filmes mais modestos ("Amnésia", "O Grande Truque") ou blockbusters ("A Origem", trilogia Batman). É um diretor que sabe muito bem trabalhar com o orçamento que tem. Se tem pouco, faz um trabalho simples e direto, e com muito dinheiro, faz um espetáculo.
Tendo sucesso nos seus últimos filmes, Nolan teve carta branca da Warner Bros para usar 250 milhões de dólares no desfecho da trilogia do Batman. E ele apresenta um filme épico que encerra a jornada do Guardião de Gotham com perfeição, ou quase isso.

Assim como em "O Cavaleiro das Trevas", o filme começa com um prólogo incrível (completamente gravado em IMAX) onde o vilão é apresentado. No filme anterior foi um tenso assalto a banco planejado pelo Coringa. Em "O Cavaleiro das Trevas Ressurge" temos a espetacular fuga de Bane de um avião, após ter sido capturado pela CIA. O mais impressionante dessa cena é que a fuga foi toda gravada sem efeitos digitais. Dois aviões são utilizados (um é destruído), vários dublês, câmeras IMAX (que pesam mais de 100 Kg) e uma montanha de dinheiro, sem dúvida.

Onde o filme fica em relação a trilogia

"The Dark Knight Rises" fecha muito bem a trilogia. Não diria que é melhor que "The Dark Knight". Na verdade é até meio difícil comparar pois "Ressurge" tem um clima diferente do anterior. Aqui é algo mais político, uma história mais densa, com mais camadas. Gotham é mais uma vez feita refém, mas é uma situação sem precedentes. O terror causado por Bane é mais alarmista que o de Coringa. Enquanto Coringa queria aterrorizar as pessoas (com muita dinamite, pólvora e gasolina), Bane quer destruir a cidade, até não sobrar nada.  E apesar de ser sequência de TDK, o filme tem mais ligações com "Batman Begins". De TDK apenas elementos do final do filme são lembrados (principalmente a morte de Harvey Dent), mas de Begins, toda a história da Liga das Sombras é revisitada.

O desafio de superar o Coringa

Em TDK tínhamos o Coringa, um agente do caos que queria apenas implantar terror, sem "segundas intenções". Já em TDKR, Bane é um mercenário terrorista que quer literalmente destruir a cidade de Gotham, desde a sua economia (fazendo um link com a situação econômica atual no mundo) até a cidade em si, explodindo uma bomba nuclear.
Cabe ao Batman, que desapareceu desde que assumiu a culpa pelos crimes e pela morte de Harvey Dent, há 8 anos, a tarefa de parar Bane, um gigante que não sente dor e que tem um exército de mercenários ao seu comando. Só que Bruce Wayne carrega na pele (e nos ossos, cartilagens, músculos etc) as marcas da época em que enfrentou o Espantalho, Ra's Al Ghul, Coringa e Duas Caras. Ele se vê forçado a sair do seu exílio e arrumar um jeito de "ressurgir" o Batman, apesar das limitações físicas. E isso custará muito caro. Alfred, que sempre o apoiou, teme pelo pior e tenta mostrar a Bruce que o corpo dele não é o mesmo de 8 anos atrás e que Gotham não precisa mais do seu alter ego. Bruce não o ouve e acha que esse talvez seja o momento para que Batman volte à ativa — e vale mencionar que a reaparição do Morcego é sensacional, em grande estilo.

A escolha pelo Bane foi sábia. Pra fechar a história, tinha que ser alguém que fosse fisicamente páreo para o Batman. Um inimigo que significaria um perigo real, que teria o poder de matá-lo. No início, antes do filme começar a ser gravado, rumores diziam que o vilão seria o Charada (inclusive que Johnny Depp o interpretaria). Mas o desafio com o Charada seria algo mais intelectual. Além disso, o Coringa de Heath Ledger já tinha um tom de mistério e usava artifícios enigmáticos (as formas como ele revelava as suas próximas vítimas, por exemplo). Com o Charada o filme correria o risco de repetir um elemento utilizado no filme anterior. E Bane era o inimigo perfeito. Não só forte, mas inteligente. Um vilão com ideologia, mesmo que deturpada. Isso lembra de algo, não? Ra's Al Ghul e a Liga das Sombras, que no início de "Batman Begins" pareciam legítimos, até conhecermos suas verdadeiras ideologistas extremistas. E ideologia é algo contagioso. Ao contrário de Coringa, Bane é alguém que tem um plano maior, de longo prazo (só a preparação de seu plano para Gotham levou meses, no mínimo) e o mais importante: seguidores dispostos a se sacrificar por ele e para que seu plano fosse concretizado — isso é bem mostrado no prólogo, quando um dos seus "irmãos", como ele mesmo o chama (o que mostra ainda mais uma relação baseada na fidelidade), aceita morrer de bom grado sabendo que eles já tinham "começado o incêndio". Já Coringa — que, ao contrário do que disse para enganar Harvey Dent, planejava, sim, mas não a longo prazo — agia por conta própria, não tendo seguidores, no máximo alguns capangas que o serviam por medo. E aí fica a dúvida: É pior um louco com ideologia, ou um louco que apenas quer ver o mundo pegar fogo, pela diversão, sem compromisso? O que é certo é que o Coringa devia estar se sentindo em casa no meio do caos criado por Bane.


Inclusive, a princípio, estava nos planos de Nolan a volta do Coringa no desfecho da trilogia. E seria sensacional se isso acontecesse. Se a cidade foi aterrorizada "apenas" com o Bane, imagine como seria com o Coringa à solta? Mas, como o Heath Ledger resolveu tomar algumas dezenas de remédios e morreu de overdose "acidental", os planos foram por água abaixo.

Tom Hardy não consegue ter uma atuação tão espetacular como a de Ledger — e com uma máscara de metal na cara, nem dava — mas mesmo assim ele está ótimo como Bane. Com sua expressão facial limitada, ele só poderia usar três elementos na sua atuação: o olhar, a postura e a voz. E ele tem sucesso em pelo menos dois desses três elementos. Seu olhar sempre consegue transmitir o que ele sente no momento. Seja raiva, tranquilidade, ou até vulnerabilidade, como numa cena mais pro final do filme, onde é revelado uma parte importante de seu passado. Com sua postura corporal, ele passa um ar de superioridade, de autoridade, mostrando que Bane é alguém para ser temido. Tom Hardy não é muito alto, apenas musculoso (se você já o achava musculoso em "Guerreiro", vai se surpreender mais ainda). Mas, com todo o seu trabalho de postura, auxiliado pela fotografia, que sempre se preocupa em filmar Hardy de baixo para cima com o objetivo de fazê-lo parecer maior, o 1,78m de Hardy parece se transformar em quase 2 metros. Já a voz é um fator que incomoda. Muito criticada nas primeiras exibições do filme por não dar para entender o que Bane dizia, sua voz sofreu mudanças e redublagens até chegar na que ouvimos hoje. Mas o que me incomodou não foi o efeito da voz, que achei que ficou bem legal, mas sim o modo de falar do Tom Hardy, ou o sotaque. Pelos trailers, sua voz parecia ser mais forte, imponente. No filme, como já ouvi de algumas pessoas, parece a voz de um velho ofegante. É compreensível que o motivo do som ofegante é por ele estar sempre respirando um gás que faz sua dor desaparecer. Mas é inegável que causa estranheza.

Hans Zimmer e Wally Pfister: essenciais na trilogia de Nolan

A fotografia, sempre destaque nos filmes de Christopher Nolan, é maravilhosa. Gotham, ainda mais do que em "Begins" e "O Cavaleiro das Trevas", ganha vida através das lentes de Wally Pfister, diretor de fotografia de praticamente todos os filmes de Nolan. Além de "truques" mais simples (como filmar Tom Hardy com um ângulo mais baixo), a fotografia do filme tem sucesso em cenas muito mais complexas, como as de ação, que são muito bem filmadas, além de ter quase uma hora de cenas gravadas em IMAX.

A trilha sonora de Hans Zimmer, mais uma vez, é primorosa. Um espetáculo a parte. Cria tensão quando é pra criar e emociona quando é pra emocionar. Mas, ironicamente, no momento de maior tensão (a primeira luta entre Batman e Bane) e de maior emoção (a conversa "definitiva" entre Bruce e Alfred) a trilha sonora para. É nula. A tensão e emoção são apenas apoiadas nas atuações. Principalmente quando Alfred abre o jogo com Bruce. Christian Bale e Michael Caine dão um show. Provavelmente é o momento mais emocionante de toda a trilogia. É de cortar o coração. Michael Caine, em especial, merece até uma indicação ao Oscar por Melhor Ator Coadjuvante. Sempre que ele aparece (mesmo aparecendo menos dos que nos filmes anteriores) o filme ganha qualidade. Até que não ganhe, mas um reconhecimento pelo seu trabalho seria justo.

Uma nova leva de personagens

Confesso que tinha receio quanto à Anne Hathaway. Mas ela faz um trabalho excepcional como Selina Kyle. Sua atuação com nuances inesperados fazem a personagem ser imprevisível. Os modos como ela muda suas expressões faciais e corporais são de quem sabe muito bem o que está fazendo. Ela passa de garota indefesa a femme fatale em um segundo. Muita gente vai continuar tentando compará-la com a Michelle Pfeiffer, mas são personagens, histórias e universos diferentes. Tirando a roupa preta e o nome, não há nenhuma semelhança entre as duas personagens. A gatuna de Anne Hathaway é uma espécie de Robin Hood moderno. O olhar e toda a expressão e entonação de voz da Selina Kyle quando ela fala para Bruce Wayne que os ricos de Gotham logo vão imaginar como eles pensaram que podiam viver com tanto e deixar tão pouco para o resto das pessoas, revela o ódio, o nojo, que ela tem dessa forma de viver dos ricos, ostentando o que tem enquanto muitos passam fome. Isso mostra bem que ela faz o que faz por um motivo, ao contrário da Mulher Gato de Pfeiffer, que apenas faz o que dá na telha, além de procurar vingança.
Uma coisa interessante é que em nenhum momento Selina Kyle é referida como Mulher Gato. Mas as referências estão sempre lá. No baile de máscaras, após conversar com Bruce (e avisar da vindoura tempestade), ela sai da festa e o seu acompanhante fala pra Bruce que ele a "afugentou", como muitas vezes acontece quando uma pessoa tenta se aproximar de um gato, ou qualquer animal desconfiado. Esses tipos de metalinguagens e piadinhas estão sempre presentes em filmes do Batman, principalmente nos de Nolan.

Inclusive, no mesmo baile de máscaras Bruce Wayne é o unico a ir sem máscara. Como se ele próprio fosse a máscara do Batman, a verdadeira natureza de Bruce. Importante lembrar que isso já foi utilizado em "Batman Returns" quando o Bruce de Michael Keaton também se encontra com Selina Kyle num baile de máscaras e ambos são os únicos sem máscaras. É lá que um descobre a identidade do outro.


Outro pesonagem que vinha sendo bastante esperado pelos fãs é o Blake, interpretado por Joseph Gordon Levitt. Ele é um policial idealista que logo conquista a confiança do Comissário Gordon (Gary Oldman, mais apagado que em TDK, mas ainda assim muito bem) e vai crescendo ao decorrer da história. Assim como Miranda Tate, que começa apenas como uma possível parceira de Bruce Wayne na luta para melhorar a cidade e se transforma numa personagem importantíssima. Marion Cotillard está mais linda do que nunca, mesmo que a sua atuação seja burocrática.

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Interessante notar que todo o conceito do "Rise" do título, que foi traduzido como "Ressurge", mas na verdade é algo como "Ascende", é utilizado não somente na figura do Batman ao longo do filme. Logo antes do Bane derrubar o avião na sua fuga ele fala que o fogo "subia" (the fire rises), tinha começado; O Batman ascende duas vezes no decorrer do filme (a 2ª bem mais simbólica); Os policiais, que ficaram presos no túnel durante um bom tempo, ascendem no final e vão, praticamente sem armas, combater o exército de Bane. Eles sabiam que poderiam morrer, mas queriam lutar pela cidade e pela suas famílias, não importando o que acontecesse; E, por fim, depois de quase ser destruída, é a esperança que ressurge quando todos pensavam que tudo estava perdido e que Batman não voltaria mais.
O que eu quero dizer é que Christopher Nolan (que não só dirigiu, mas roteirizou toda a trilogia, junto com o seu irmão, Jonathan) faz questão de conectar tudo. Desde o título, até temas usados nos dois filmes anteriores que são revisitados aqui de alguma forma. Com outros diretores isso poderia ser usado de um jeito errado, fazendo parecer repetitivo, mas Nolan usa isso para aprimorar a história. E aí, mais uma vez, percebe-se como ele é um diretor diferenciado.



A trilogia de Christopher Nolan é o que sempre quisemos ver em filmes do Batman — e, por que não, filmes de super herói, em geral? Os dois Batman de Tim Burton tem seus méritos, mas não chegam aos pés do mundo que Nolan criou nesses três filmes. Muito menos aquelas duas bombas de Joel Schumacher. Esse universo de Batman é crível. É um mundo violento, corrupto, e nada colorido (ao contrário dos filmes antigos). E ao longo desses três filmes, aprendemos a nos importar com os personagens e suas histórias e, principalmente, com Gotham, que é a maior personagem nessa trilogia. "O Cavaleiros das Trevas Ressurge" não é um filme perfeito. Tem defeitos, sim, e alguns incomodam. Mas eles não chegam a comprometer o resultado final. O final é digno de aplausos (literalmente, nas duas sessões que fui o pessoal aplaudiu) e o filme fecha com louvores essa saga do Homem Morcego.