quarta-feira, 14 de agosto de 2013

[Fora de Série] Hannibal - 1ª Temporada


Acho que "Hannibal" é uma boa escolha para começar essa nova seção do blog. A série terminou de ser exibida recentemente no AXN, portanto não precisarei me preocupar com spoilers. Mas, de qualquer forma, já aviso que terá alguns detalhes sobre a primeira temporada.

2013 parece ter sido o ano escolhido para levar o cinema para o mundo das séries. Além de "Hannibal", ainda tivemos "Bates Motel" (que ainda escreverei sobre). Ambas estrearam sob olhares duvidosos, pois explorariam o passado de dois ícones do cinema: Hannibal Lecter (de "Dragão Vermelho" e "O Silêncio dos Inocentes") e Norman Bates (de "Psicose"). Porém, para alegria dos fãs de suspense, as séries foram sucesso de crítica. Apesar de "Hannibal" ter lutado contra a baixa audiência (dificuldade não encontrada por "Bates Motel"), a série conseguiu ser renovada para a segunda temporada, que promete ser muito boa.

Sem mais delongas, desde o início gostei muito da proposta de "Hannibal", que aposta numa mistura de série criminal (com casos semanais), com suspense e drama psicológico. Mesmo quando os casos não tem a ver com o arco principal, a trama evolui através dos personagens. Mas algo que, passada a primeira temporada, ainda não consegui me acostumar, é a retratação completamente diferente de Will Graham (interpretado pelo ator britânico Hugh Dancy, de "The Big C"), que, aqui, tem um "quê" de esquizofrênico — no episódio 10, "Buffet Froid", descobrimos o motivo de seus problemas. Porém, com o tempo, aprendi a ao menos aceitar essa nova abordagem para o personagem. Já o Hannibal Lecter de Mads Mikkelsen (de "Casino Royale" e "A Caça"), mesmo bastante diferente do de Anthony Hopkins, foi do meu agrado. É um personagem misterioso e inteligente que sempre está a um passo a frente dos heróis e, quando não está, consegue virar o jogo ao seu favor. E ver a sua evolução como vilão é algo bem interessante. O jeito como Hannibal vai fazendo de todos os seus cúmplices (de assassinatos e/ou mentiras) é sensacional.


A estética visual de "Hannibal" também chama atenção pela inteligência em elementos como design de produção, direção de arte e fotografia, e pela falta de censura nas cenas de violência, que são bem gráficas. — difícil acreditar que a série é exibida num canal aberto, tamanha violência mostrada. O nível de gore é notável. Um prato cheio pra quem gosta (expressão bem pontual numa história sobre um canibal, aliás). E quando a violência gráfica dialoga com um bom roteiro, o resultado é melhor ainda. Como no início do episódio 9 ("Trou Normand"), quando uma paisagem paradisíaca é seguida por um totem de corpos mutilados, resultando numa bizarra ironia visual. Michael Haneke abre o seu último filme "Amor" com algo parecido, mostrando um corpo morto na cama, no momento em que aparece o título do filme. Algo sutil, mas que funciona muito bem e tem um significado forte na história.
Vale citar a referência a "O Iluminado" feita logo no primeiro episódio e o modo como a série apresenta a forma como Will observa e descobre detalhes da cena do crime, recriando o assassinato, com um tipo de flashback, mas em camadas. Algo bem legal de se ver.

Um detalhe interessante da fotografia da série é a profundidade de campo mínima que é usada na grande maioria das cenas, deixando só os atores focados e "embaçando" o resto do ambiente. Pessoalmente, isso me incomoda. Porém, talvez esse seja o objetivo: causar desconforto. Uma profundidade de campo pequena tende a fazer com que o ambiente pareça menor, causando até uma certa sensação claustrofóbica. Não sei se isso acontece com mais alguém, mas é exatamente isso que eu sentia vendo os episódios. E sendo "Hannibal" uma série psicológica, com um clima quase opressivo (algo bem explorado pela direção de arte), acho que esse detalhe foi fundamental para a construção desse mundo, e mais do que isso, para emular o que os personagens sentem (principalmente Will). Mesmo ainda me incomodando, reconheço que é um recurso genial.


Finalizando, com uma trama interessante, inteligente, violenta e assustadora (para nenhum fã de filmes de terror botar defeito), e poucos pontos fracos (o descuido com alguns personagens, como Bella Crawford e Freddie Lounds, que somem), "Hannibal" teve uma ótima temporada de estreia. O atual triunfo de Hannibal sobre Will, e como o herói irá reverter essa situação e provar sua inocência, já deixa uma alta expectativa para a próxima temporada, que só voltará em 2014. E esse combate entre duas mentes geniais — uma, especialista em prever passos, a outra em refazê-los — provavelmente durará um bom tempo. Isso se a audiência não atrapalhar.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Novidade no blog: [Fora de Série]

Já faz um tempo que penso em ampliar o horizonte das críticas e escrever sobre séries. Tenho adiado pois, além de gostar mais de Cinema (e de escrever sobre), se o improvável dia em que eu serei conhecido pelos meus textos vier, eu quero que seja pelas críticas de Cinema, e não de séries. Porém, como eu tenho tido dificuldade em produzir conteúdo sobre filmes (não é sempre que vejo um que desperte em mim a vontade de escrever sobre e, como esse espaço é pessoal e o tenho como hobby, não me esforço tanto para escrever quando não sinto vontade), acho que com um leque de assuntos maior e mais flexível, o blog ganhará no próprio conteúdo e, principalmente, qualidade. Possivelmente, até em público.

Nas próximas semanas e meses, postarei aqui comentários sobre temporadas de séries como Hannibal, Arrow, Orphan Black e Bates Motel (quando terminar de ser exibida pelo Universal Channel), entre outras. Quem é meu amigo no Filmow, sabe que de vez em quando gosto de comentar sobre vários episódios que acabei de ver, mas não o farei aqui. Prefiro juntar o conteúdo e resumi-lo numa avaliação sobre a temporada. Ainda não decidi, mas talvez, eu poste também algumas notícias e trailers sobre novas temporadas de séries que eu mais gosto.

Mas gostaria de lembrar que o foco do blog continuará sendo as críticas de filmes.

É isso aí. Espero que vocês gostem da novidade.
E não deixem de explorar as outras seções "Esse É Clássico!" e "Curtas".

PS: Quanto ao nome da nova seção, será temporariamente "Fora de Série", mas pensei em "Na TV" que até gosto mais, mesmo sendo mais simples. Se alguém quiser dar sugestões, fique a vontade!

segunda-feira, 29 de julho de 2013

[Curtas] Only God Forgives / Invasão À Casa Branca

Only God Forgives 
★★☆☆☆
Razoável

Um filme visualmente marcante, mas que falha nas questões mais básicas numa produção cinematográfica. A belíssima fotografia, design de produção e direção de arte não salvam o filme, que tem uma trama desinteressante, personagens sem um pingo de carisma e atuações fracas. O diretor foi de Drive (um filmaço), para isso.

"Only God Forgives" é bonitinho, mas ordinário.
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Invasão À Casa Branca
★★☆☆☆
Razoável

Seria mais legal se fosse um filme da série "Duro de Matar". Os filmes do John McClane são forçados, mas com orgulho. É uma linha de filmes de ação sem compromisso com a realidade, visando apenas o entretenimento. Aí esse "Olympus Has Fallen" quer se levar a sério, forçando a barra, com um tom solene, até épico... Complica.
O McClane no lugar do Mike Banning, e um tom mais leve, faria o filme ser bem melhor.
E de acordo com o filme, os EUA são responsáveis pela paz mundial. Tirando a sua frota do lugar desencadearia um caos nuclear. Menos, né...

Mas, como um filme de ação, é bem decente. O problema mesmo é o complexo americano de Deus e as forçações da história.

domingo, 14 de julho de 2013

O Homem de Aço


★★★★☆
Ótimo

Talvez a maior ironia em relação ao Super Homem, o super herói mais famoso da história, é que sua indestrutibilidade é seu maior ponto fraco na disputa com outros heróis pela preferência do público. Com toda sua força, poderes e praticamente nenhuma fraqueza, o kryptoniano se distancia de heróis mais humanos (no sentido falível da palavra), como o Homem Aranha, um fotógrafo pobre com poderes adquiridos por meios radioativos, e Batman, que, apesar de milionário, é um dos heróis mais humanos, por sua vulnerabilidade física e emocional.

A dificuldade de adaptar o personagem para a telona é percebida só de olhar a carreira de Clark Kent no Cinema. Dos 5 filmes lançados, apenas os dois primeiros, de Richard Donner e Richard Lester, são tidos como relevantes. Portanto, Zack Snyder — diretor com muitos filmes de ação no currículo, como "300", "Sucker Punch" e "Watchmen" (um dos melhores filmes de super heróis já feitos) — sabia do peso da responsabilidade (e das duas centenas de milhões de dólares, diga-se de passagem) que estava em suas mãos. Com o sucesso cada vez maior da Marvel, e com o término da saga do Batman, a Warner Bros. precisava de uma nova "super saga" urgentemente. Falhar não era uma alternativa.

E a boa notícia é que Zack Snyder não decepciona. "Man Of Steel", filme mais sobre Kal-el do que Clark Kent, mesmo com seus defeitos, é um ótimo filme, além de ser diferente de tudo que já vimos em adaptações do Superman para as telas, grandes ou pequenas. Esqueça a famosa trilha sonora de John Williams, o inocente e unidimensional Super Homem de Christopher Reeve, a baboseira de defender o "jeito americano" e tudo referente ao filme de Donner e suas sequências. "O Homem de Aço" é bem mais maduro e sério. E isso já era esperado pela presença de dois grandes nomes envolvidos no projeto: Christopher Nolan e David S. Goyer — ambos vindos da trilogia do Cavaleiro das Trevas. Enquanto Nolan aparece apenas como produtor dessa vez, Goyer é responsável pelo roteiro.


A trama de "O Homem de Aço" apresenta muitos elementos de ficção científica, e essa característica é percebida logo nas primeiras cenas do filme, ambientadas em Krypton. Snyder faz uma remontagem bem curiosa do Planeta natal de Kal-el, com um território aparentemente hostil, visualmente decadente, que contrasta com a tecnologia avançada dos kryptonianos — a própria exploração de recursos naturais condenou o planeta a destruição. Aliás, algo bem interessante no design de Krypton é essa contradição entre o moderno e o arcaico. Ao mesmo tempo em que o povo kryptoniano é muito avançado tecnologicamente, seus habitantes mais importantes usam armaduras de batalhas, como os povos antigos da Terra, e suas máquinas, mesmo com visuais "orgânicos", estranhamente parecem datadas. A concepção de arte e o design de produção do filme parecem ter se inspirado nas obras de H.G. Giger. As armaduras, máquinas e cenários de "O Homem de Aço" remetem às obras do criador do Alien mais temido do cinema.

Possivelmente um dos maiores erros do roteiro de Goyer comece exatamente depois da introdução em Krypton — em que, sabendo que o planeta vivia seus últimos dias, Jor-el manda o seu filho recém-nascido para a Terra, contrariando General Zod, que promete achá-lo de qualquer maneira. De lá, somos apresentados a Clark já adulto, trabalhando num barco pesqueiro, onde pela primeira vez vemos um momento heroico do personagem. O problema é a mudança brusca de ambiente. Das cenas de ação em Krypton, o filme já leva o espectador para uma cena de ação no meio do mar. Não há preparação, naturalidade. A partir daí o filme conta a infância de Clark (Lana marca presença rapidamente) e a descoberta de seus poderes por meio de flashbacks, o que pode não ter sido uma boa escolha, por ser um filme sobre a origem de um herói. Por outro lado, a narrativa sendo linear, implicaria em desenvolver bem mais a infância do menino kryptoniano, e não apenas rápidas sequências. O filme, que já tem 140 minutos, poderia ficar bem maior.


A trama ainda tem outros dois problemas que incomodam: a utilização além do necessário de Jor-el (a sua consciência não serve apenas como guia para Kal-el descobrir sua origem) e o paralelo constante de Kal-el com Jesus Cristo — principalmente na sequência da igreja, onde ele divide um enquadramento com a imagem de Jesus num vitral, de maneira nada sutil.
Entretanto, se o roteiro vacila em alguns momentos, acerta em muitos outros, principalmente na construção de Kal-el como pessoa e herói, mesmo que seja algo diferente do que estávamos acostumados. Como nunca antes, vemos e sentimos Clark como um peixe fora d'água. Sofrendo na sua infância com a descoberta de suas habilidades (a frase "Pessoas têm medo do que não entendem" dita por Jonathan para Clark, vale para o próprio, que não entendia o porquê de ser diferente) e quando adulto, vagando de um lugar para o outro, como um nômade — porém, mais sem identidade do que lar.

Apesar de ser filho de dois mundos, Kal-el é estranho em ambos, já que é um alienígena na Terra e, por ser filho de concepção natural, uma abominação para os Kryptonianos — que nasciam já com uma "classe" e propósito estabelecidos (Jor-el, cientista, e Zod, Guerreiro, por exemplo). Todavia, como tudo no filme, há os dois lados da moeda, pois, ainda que não pertença a nenhum dos dois mundos, ele é o único ser livre de sua raça e um deus na Terra. Até Zod, inimigo mortal do Superman e um dos últimos sobreviventes de Krypton, é escravo de sua predestinação. Ele nasceu para proteger seu planeta e irá até o fim para isso.

E até o fim ele vai. Superman precisa testar toda a sua força para parar Zod e salvar a Terra, nem que para isso leve arranha-céus e todo tipo de construções abaixo. O resultado (meio over, é verdade) são cenas espetaculares de luta e destruição em Smallville, Metropolis e até no Espaço. Sim, se você achou que "Superman Returns" não teve ação o suficiente, já aviso que "Man Of Steel" é um prato cheio. O nível de destruição é capaz de ter levado Michael Bay às lágrimas, de alegria e emoção.


Outra coisa resgatada pelo filme, é o carisma do Superman, graças ao britânico Henry Cavill. Ele consegue passar para o público a solidão e o peso que o kryptoniano tem nas costas, com todas as nuances pedidas pelo personagem. Um exemplo de sua boa atuação é num flashback onde Clark, ainda adolescente, discute com seus pais. Em nada lembra o Clark calado que vemos na maioria do filme. Amy Adams interpreta uma Lois Lane forte e decidida, que foge da donzela que sempre precisa ser salva do vilão. Michael Shannon tem sucesso ao dar a Zod uma aura realmente ameaçadora, já o Jor-el de Russel Crowe representa a figura paterna e sábia. Outra figura paterna muito bem representada é Jonathan Kent. Kevin Costner, o melhor no elenco, não precisa de muitos momentos para brilhar como o pai de Clark Kent. Diane Lane também aproveita seu pouco tempo na tela para esbanjar sensibilidade, especialmente na sequência em que ela precisa confortar o seu filho, assustado com os dons recém-descobertos da super audição e visão de raio x. Os atores Cooper Timberline e Dylan Sprayberry, que fazem Clark com 8 e 14 anos, respectivamente, também fazem ótimos trabalhos.

Outro elemento a se destacar é a belíssima trilha sonora do sempre genial Hans Zimmer. Desde o início com o clima de urgência em Krypton, passando pelos momentos mais dramáticos às lutas de Superman com Zod, a trilha se encaixa perfeitamente e emociona. Percebe-se o tom completamente diferente dos filmes do Batman, por exemplo. Zimmer é um compositor que se adapta muito bem aos diferentes tipos de filmes.
Apesar da trilha ser diferente da trilogia do Cavaleiro das Trevas, Christopher Nolan trouxe para "O Homem de Aço" o mesmo clima sério e épico. Não há espaço para muitas piadas, e as poucas que têm são mais visuais, e até bem inteligentes. Em uma delas, vemos um plano fechado na palavra "ALERT" em vermelho logo depois do Governo Americano descobrir a nave de Zod em direção à Terra. Mas logo a câmera abre o plano e é revelado que é o alerta da falta de papel da impressora que Lois usava. A falta de humor tem sido um dos motivos de críticas ao filme, mas eu acho interessante uma pegada mais séria nos filmes da DC Comics, diferentemente dos filmes da Marvel.


Com todos esses altos e baixos, Zack Snyder faz um filme um pouco problemático, mas divertido e eficiente, conseguindo honrar a grandeza que esse personagem representa para a cultura pop. O diretor desmonta o mito de perfeição do Superman, um herói que precisava se inovar e se adequar ao mundo de hoje — um mundo menos colorido (como sua roupa) e onde fazer o certo pode significar sujar suas mãos (como a decisão que ele toma perto do final). Clark Kent passa a se assemelhar, também, com os dois heróis citados no início da crítica — vivendo com pouco dinheiro e buscando seu lugar no mundo.

Percebe-se que é apenas o primeiro passo para o estabelecimento de uma franquia, pois Kal-el ainda parece não ter chegado à maturidade de seus poderes e de sua personalidade. Esse ainda não é o Superman que daqui a alguns anos veremos liderando a Liga da Justiça. Mas, de qualquer forma, foi um bom primeiro passo, e com o pé direito.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Segredos de Sangue

★★★★☆
Ótimo


Texto com pequenos spoilers sobre a trama do filme.

O cinema coreano tem crescido muito nos últimos anos, inclusive exportando seus diretores para Hollywood. Curiosamente, três deles tiveram filmes programados para 2013. O primeiro da leva foi Kim Ji-woon (conhecido pelo excelente "Eu Vi O Diabo" e pelo terror "Medo") que dirigiu o novo filme de Arnold Schwarzenegger, "O Último Desafio". Bong Joon-ho ("Memórias de Um Assassino" e "O Hospedeiro") roteiriza e dirige "Snowpiecer", uma ficção científica com um elenco estelar, com direito ao Vingador Chris Evans e as ganhadoras do Oscar Tilda Swinton e Octavia Spencer, mas ainda sem data para estrear. E dia 14 chegou aos cinemas brasileiros o suspense "Segredos de Sangue", 10º longa do elogiado diretor Park Chan-Wook, mais conhecido pela Trilogia da Vingança (que tem em "Oldboy" seu ápice), e por seu último filme, o vampiresco "Sede de Sangue".

"Segredos de Sangue" conta a história da família Stoker (nome original do filme). Depois que o pai da introvertida India (Mia Wasikowska) morre, o seu tio Charles (Matthew Goode), que ela nunca soube que existia, vai morar com ela e sua mãe, Evelyn (Nicole Kidman). Charmoso e simpático, ele logo ganha a confiança de sua mãe, mas India começa a suspeitar que ele não é tão perfeito assim. A presença de Charlie irá fazer com que India descubra detalhes sobre o passado sombrio da família Stoker e sobre ela mesma.

Diretor que costuma realizar filmes com personagens excêntricos e bem desenvolvidos, Park Chan-Wook dessa vez aposta em tipos mais normais, ao menos à primeira vista, e concentra seu apreço pelo diferente no visual do filme, que é o que realmente chama a atenção. São planos imprevisíveis, com enquadramentos curiosos que valorizam o filme e ajudam a contar a história, já que a narrativa, dessa vez não é de tão alto nível.


A princípio remetendo ao Hitchcockiano "A Sombra de Uma Dúvida" (até no nome do tio), "Segredos de Sangue" se revela o oposto, já que, ao contrário do suspense de 1943, a sobrinha e o tio acabam tendo algo em comum. Pistas de que há algo de diferente em India vão sendo dadas desde o início do filme, mas só descobrimos (junto com ela) com o desenvolvimento de sua relação com Charles. E o auto conhecimento é tema forte no filme. India está em transição da adolescência para a fase adulta — o longa começa no dia de seu 18º aniversário. Ela sente emoções, ímpetos, que não sabe explicar. Seu tio acaba funcionando como um guia.
Em determinado momento, vemos que o falecido pai de India sabia muito bem o seu "segredo", porém conseguia administrá-lo, funcionando até como um tipo de super ego. O tio Charles tem o objetivo de liberar os impulsos da jovem, se transformando no Id. O resultado desde embate será muito interessante, ainda que não chegue ao nível dos clímax de outros filmes do diretor.

Porém, mesmo que o desenvolvimento da história esteja um pouco abaixo do padrão Park Chan-Wook, o diretor mostra uma exímia sensibilidade na hora de filmar e decupar o filme. Além dos já citados planos originais, ele utiliza, por exemplo, vários belos raccords* tanto para dar noção de elipses (a imagem de India caminhando no caminho que leva a sua casa sobrepõe a dela caminhando sozinha na estrada), quanto de flashbacks (funde os cabelos de Nicole Kidman sendo penteados a um campo onde India e seu pai caçavam).

*Raccord: ligação entre duas cenas por efeito visual ou sonoro, para reforçar ideia de continuidade.


A direção de arte acerta em cheio no clima do filme, utilizando cores sempre harmoniosas, como lilás, azul e laranja, mas sempre com atenção especial no verde e no vermelho em cenas chave. A iluminação e os filtros da fotografia de Chung-hoon Chung ajudam na padronização das cores do filme, como na sequência externa em que India tem um encontro com Whip. Não bastasse o ambiente com muita grama e árvores, percebe-se um cuidado especial no filtro utilizado nas câmeras, inteligentemente dando um tom ainda mais esverdeado à cena, já que é quando a natureza de India é revelada (ou pelo menos aparece mais). Se o verde representa a natureza (bastante explorada no filme), o vermelho forte, quase vinho, o sangue — no sentido de família e da violência que existe dentro da personagem principal.

Na mesma sequência citada de India com Whip no parque, vale citar o belo efeito que a câmera de Chung cria ao filmar India num plano médio girando no roda roda, dando inclusive um certo ar sobrenatural à jovem, que parece estar flutuando. Toda a sequência foi muito bem dirigida e nos dá a noção de uma predadora seduzindo sua vítima. Trabalho notável de Mia Wasikowska.
O diferencial de India é muito bem explorado especialmente em duas outros momentos também. Na sequência dela na mesa da cozinha, escutando o barulho da casca do ovo se quebrando, e a da aula de pintura, em que, enquanto todos pintam o vaso usado como modelo, ela pinta o padrão do lado de dentro do vaso ("Meus ouvidos ouvem o que outros não podem ouvir. Coisas pequenas e longes que pessoas não podem ver normalmente são visíveis para mim.")


Por tudo isso, "Segredos de Sangue" vale mais como um exercício visual do que como narrativo, já que peca um pouco no desenvolvimento da trama, e fica a impressão de que o roteiro de Wentworth Miller (ele mesmo, o Michael Scofield de "Prison Break") não teve o seu potencial máximo aproveitado. Mesmo assim Park Chan-Wook não decepciona em sua primeira empreitada no cinema americano, compensando a fragilidade da narrativa na forma como ele utiliza recursos visuais e metafóricos para enriquecer o estudo de seu personagem principal, India — a aranha, mais um exemplo, simbolizando o despertar de sua sexualidade.

Pelos muitos simbolismos (muitos nem citados nessa crítica), é um filme que vale ser visto mais de uma vez, pois certos detalhes só serão captados e completamente compreendidos depois de uma revisita ao filme.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Novidade no blog: Notas.

Já faz um tempo que eu pensava em implementar um sistema de avaliação para as críticas/comentários do blog. Acho que na maioria das vezes, o texto fala por si e, por ele, dá para perceber se quem escreve gostou ou não do filme, e se vale a pena ou não ver o filme. Por isso eu só colocava notas na seção [Curtas] por serem textos menores em que, por não falar muito sobre o filme, eu sentia que tinha necessidade de completar os comentários com uma avaliação. Porém, admito que grande parte das minhas críticas são escritas mais para quem já viu os filmes, pelo fato de eu gostar de discutir detalhes da trama ou da linguagem cinematográfica do filme que pode vir a ser spoiler.
Além disso, eu sei que nota é algo que as pessoas valorizam numa crítica (até muitas vezes pela preguiça de lê-la).

Dito isso, apesar de eu me sentir mais a vontade com um sistema indo de 0 a 10, decidi por algo mais habitual no campo da crítica cinematográfica: as famosas 5 estrelas. Como eu não costumo escrever críticas de filmes que eu não gosto, salvo algumas exceções, preferi variar mais as notas positivas do que as negativas.

Portanto, assim será:

★☆☆☆☆ = Ruim

★★☆☆☆ = Razoável

★★★☆☆ = Bom

★★★★☆ = Ótimo

★★★★★ = Excelente

Já atualizei todos os posts, e as notas já estão no ar.
Aproveitem para ler os textos novos e os antigos também. =)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A Conscientização Coletiva e o Jornalismo de R$ 0,20

Sabe o que acho interessante nessa onda de protestos em São Paulo (e em várias outras capitais)? Jornais de grandes emissoras que muitas vezes passam vídeos fofos de animais ou bebês que fazem sucesso na internet e ignoram vídeos realmente importantes como os gravados ontem em que policiais atacam os manifestantes, que gritavam "Sem Violência" e jornalistas, que estava fazendo seu trabalho. Jornais que enchem a boca para falar de imparcialidade, quando só quem não quer ver não percebe que eles defendem X partido/ideologia político escondendo ou "suavizando" suas ações, enquanto colocam a culpa no lado mais fraco (que, como vemos, tem se fortalecido).

Enquanto os que têm acesso a internet e se interessam um pouco em saber o que acontece, sabem o que realmente está acontecendo, grande parte da população aceita qualquer coisa que a grande imprensa diz. Essas pessoas não sabem que policiais atiraram em manifestantes que não eram vândalos, em jornalistas e em pessoas em seus apartamentos apenas por estarem filmando.
Mas isso é um processo lento. Acredito (ou, pelo menos, quero acreditar) que nossa passividade vai, aos poucos, ser substituída por um desejo de mudança. Não que todos vão sair para a rua para protestar. Só em se interessar em votar em quem realmente está disposto a defender o povo, e não em quem tem uma cara bonita, já será uma grande vitória.

Os protestos são apenas o início de uma conscientização coletiva. Quando não violentos, são altamente válidos, até porque eles têm exposto a verdadeira face da PM (que responde ao Estado). As atuais gestões têm covardemente reprimido quem protesta nas ruas, mas elas não podem fazer nada quando são vencidas nas urnas.

EDIT 16/06:
Observando e pensando no que tem acontecido, acho que é até provável que uma mudança no governo (ou na forma de governar) aconteça, mas não por causa dos protestos em si, das ações dos protestantes, mas por causa da incrível incompetência da polícia (que atira até em repórteres, inclusive internacionais, e em áreas com mães e crianças aqui no Rio de Janeiro) que está ficando MUITO feio.
O governo e a prefeitura fazendo de tudo para que a ação da sua polícia não seja vista — chegando ao ponto de desligar as câmeras da CET Rio — está pegando mal demais.

Sim, os protestantes causaram isso, mas indiretamente.
Eles estão servindo apenas (não no sentido de "só", pois isso é uma grande coisa) como agentes catalisadores que mostram a verdadeira face daqueles que supostamente deveriam nos proteger.
A culpa principal é do próprio despreparo da polícia e da censura do Estado, que não sabe lidar com a situação e está atirando no próprio pé.


Quantos aos protestantes, está ficando bem claro que faltam duas coisas fundamentais: foco e liderança. Já é sabido, pelo menos por nós, que os protestos já não são mais apenas pelos preços das passagens. O problema é que os protestos englobam muita coisa, como corrupção, gastos na Copa, melhora na educação e na Saúde, e acaba que ninguém se entende, e a mídia continua noticiando que são por causa das passagens — felizmente algo que está começando a mudar.
Até o movimento ter uma real direção, cada um protestará por uma coisa, ninguém se entenderá e todos vão apanhar. Por outro lado, o quanto mais apanham, o movimento se fortalece. 
Não me entendam mal. Admiro e fico feliz de ver o povo finalmente se levantando, mas o movimento precisa evoluir.

_O site http://nomovimento.com.br/ está organizando/compilando as informações sobre os manifestos ao redor do Brasil.

_Tumblr com relatos de pessoas (muitas delas foram feridas) que estiveram no protesto do dia 13/06/2013 em São Paulo: http://feridosnoprotestosp.tumblr.com/

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Homem de Ferro 3

★★☆☆☆
Razoável

Em 2007, a Marvel Studios estreou no universo cinematográfico para revolucionar a maneira como é feito os filmes de super heróis. Começando com um personagem que até então tinha papel secundário nas HQs da Marvel, a produtora lançou "Homem de Ferro", que até hoje é uma unanimidade dentre os fãs de quadrinhos e cinéfilos — um grande filme para ninguém botar defeito. Assim, a produtora mostrou a que veio e, a partir daí, lançou "O Incrível Hulk", "Homem de Ferro 2", "Thor" e "Capitão América", todos passados no mesmo universo e interligados entre si, até culminar no impressionante "Os Vingadores". Esse foi o final da Fase 1 da Marvel Studios.

Por isso, "Homem de Ferro 3" veio com duas grandes responsabilidades: fechar por cima a trilogia de Tony Stark, personagem mais querido da Marvel nos cinemas, e começar a Fase 2 com o pé direito. Infelizmente, o filme falha nos dois quesitos.
É o primeiro filme sem Jon Favreau na direção, que é assumida por Shane Black, criador da série "Máquina Mortífera" e diretor do ótimo "Beijos e Tiros" (protagonizado também por Robert Downey Jr.). Black, que também assina o roteiro (junto com Drew Pearce), faz um filme bobo que é mais comédia do que qualquer outra coisa — esqueça o tom sombrio tão enfatizado nos trailers.

Já buscando se conectar com o primeiro filme, uma das primeiras cenas de "Homem de Ferro 3" mostra o primeiro encontro de Stark com Yinsen, que o ajudou a construir a Mark 1 quando ele foi capturado no Afeganistão. Nesse mesmo evento onde os dois se encontram, Stark também conhece Aldrich Killian, que queria apresentá-lo um de seus projetos, mas acaba sendo ignorado já que o playboy estava ocupado demais com a cientista Maya Hanssen — e não por motivos profissionais.
No presente, um fragilizado Tony Stark tenta voltar a ter uma vida normal depois dos eventos de "Os Vingadores", afinal, conhecer semideuses, monstros verdes e combater forças extra terrestres vindas de um buraco de minhoca, mexe com qualquer um. E, não conseguindo mais dormir e tendo ataques de ansiedade, Stark passa o tempo construindo dezenas de armaduras e aprimorando suas tecnologias.
Enquanto isso, o mundo é assombrado por um terrorista chamado Mandarim, que num dos seus ataques acaba pondo em risco a vida de uma pessoa do círculo de Tony, que leva para o lado pessoal. Aí é onde a aventura começa e a sua vida pode terminar.


Apesar dos muitos defeitos, o filme tem um tema muito interessante: como os acontecimentos do passado moldam uma pessoa. Killian, enganado, e até pode-se dizer humilhado, por Stark no primeiro encontro dos dois, vira o jogo e se torna um brilhante e ambicioso cientista. Já Stark não consegue se livrar de seus medos e se esconde no seu casulo, a armadura. Ele já não consegue se sentir seguro fora dela (s). É impossível não lembrar da frase "A armadura e eu somos um" dita por ele em "Homem de Ferro 2". Só que na ocasião a frase tinha um sentido mais político e científico (de um inventor querendo defender sua invenção enquanto o governo queria confiscá-la). Agora, o sentido é literal, já que o que Stark busca é praticamente um estado de simbiose com a armadura.

O problema é que a resolução desse conflito de Stark não é só decepcionante como chega a trair a mitologia do herói. Aliás, muitas das resoluções das subtramas do filme são um tanto abaixo do esperado (como a do Mandarim, por exemplo, que com certeza deixou muita gente com raiva) e ainda deixam pontas soltas. O final escolhido por Black parece ter preocupado até Joss Whedon, que quando viu o filme comentou "Agora o que eu devo fazer? O que vou fazer em O Vingadores 2?". E realmente é uma "pepino" que passa para as mãos de Whedon, já que percebe-se que Shane Black não fez "Homem de Ferro 3" com uma ideia de continuidade, e sim de conclusão, o que é um erro já que o personagem é parte de um universo muito maior.


Mas se há uma coisa que Shane Black sabe fazer, e faz bem, é filme de ação com elementos cômicos. Você pode até não concordar com as escolhas narrativas que o diretor faz, mas a verdade é que o filme diverte. Não faltam cenas de ação com ótimos efeitos visuais — mesmo que a maioria seja sem as armaduras, ou pelo menos do Tony fora delas — e piadas. A escolha de tirar Tony Stark da sua zona de conforto e fazê-lo ser um herói apenas de carne e osso foi muito corajosa. O problema é que isso transformou o filme em algo muito parecido com a obra pela qual o diretor é mais conhecido. Sim, em determinados momentos, "Homem de Ferro 3" parece ser mais um "Máquina Mortífera" com armaduras e soldados luminosos do que um filme da franquia da Marvel. Há também elementos de filmes de espionagem, como quando Stark invade a mansão de Mandarim. A trilha sonora de Brian Tyler não deixa mentir, já que sua composição nessa sequência parece saída de um filme do James Bond.

Se o primeiro "Homem de Ferro" tentava ser um filme calcado no mundo real, o terceiro filme do herói toma muitas licenças poéticas em relação a HQ e a realidade, se tornando o filme mais fantasioso da saga.
Entre erros e acertos, "Homem de Ferro 3" fecha a trilogia de Tony Stark de forma decepcionante, deixando para "Thor: O Mundo Sombrio" a responsabilidade de ser o primeiro filme relevante da nova fase da Marvel.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

[Curtas] Deus da Carnificina / Coriolano

Deus da Carnificina
★★★★☆
Ótimo
Eu gosto muito de filmes que se passam em apenas um ambiente pois, mesmo superficialmente simples, na prática são bem mais complexos. O roteiro, a direção, a fotografia, a direção de arte... Tudo tem que ser 10 vezes mais preciso porque não há distração. O filme é todo baseado na força dos diálogos, nos personagens e no ambiente. E em filmes com esse estilo, não há como mascarar atuações. O ator tem que dar tudo de si. Fora que o recurso da Mise-en-scène ganha ainda maior importância. A movimentação dos atores tem um papel fundamental no contar da história.

E "Carnage" é um bom exemplo de como a boa execução desses fundamentos e um elenco de peso (dos 4, 3 são ganhadores de Oscar) fazem a diferença.
As atuações são primorosas, com destaque para a sempre excelente Kate Winslet e Christoph Waltz. John C. Reilly não brilha tanto, mas também está muito bem. Já a Jodie Foster tem momentos que parece estar meio "over", mas no geral também não decepciona.

Roman Polansnki conseguiu adaptar muito bem a peça para o cinema, fazendo um filme bem divertido. A maneira como a cordialidade dos pais vai sendo substituída por um certo antagonismo (começando com algumas simples alfinetadas), criando o caos, é sensacional. Mesmo que em alguns momentos os conflitos soem meio forçados, o resultado do filme é ótimo.
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Coriolano
★★☆☆☆
Razoável

Uma boa ideia, mas que não foi executada da melhor maneira.
É interessante ver o Império Romano no século XXI, mas o texto literalmente tirado da obra de Shakespeare acaba soando bem artificial no contexto do filme e nos distancia da obra, não apenas por muitas vezes ser de difícil entendimento, mas por citar coisas que não se aplicam mais ao nosso tempo — como espadas, por exemplo, que são muitas vezes citadas, mesmo não fazendo parte do nosso mundo. Uma adaptação mais moderna do texto, sem mudar a essência da história, ajudaria o filme.

Outra coisa que poderia ter sido melhor trabalhado é o lado "militar". Os exércitos de Roma e Volscos parecem apenas pelotões, nada semelhante a grandeza do exército de um Império. Fica até difícil acreditar como o exército de Aufidius, que mais parece um grupo de guerrilheiros, poderia ameçar um Império do tamanho do Romano.

É um filme interessante, mas que poderia ter sido melhor.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O Substituto

★★★★★
Excelente


"Detachment" (no original) é o 6º filme de Tony Kaye, diretor mais conhecido pelo forte "A Outra História Americana" — que rendeu Edwart Norton uma indicação ao Oscar pelo seu papel de um Neo Nazista.
Em seu novo filme, Kaye aborda não só o problema na educação atual, mas expande a visão procurando a fonte desse problema, que tem piorado nas gerações atuais. Vemos alunos cheios de raiva, pais irresponsáveis e incompreensíveis e professores estressados, que muitas vezes levam seus problemas pessoais para a escola, comprometendo suas funções e relacionamentos com os alunos. Falta compreensão e a única coisa que todos compartilham, é o vazio que sentem, por mais contraditório que soe.

Até Henry Barthes (Adrien Brody, numa atuação arrebatadora), que é uma boa pessoa e professor inspirador, carrega seus demônios do passado que o impedem de se relacionar com pessoas e amá-las/ser amado — o nome original do filme, que quer dizer desapego ou distanciamento, é exatamente sobre isso. Quando o perguntam o porquê de ter escolhido essa profissão, ele foge da questão, mas durante o filme fica claro que esse seu problema é o verdadeiro motivo que o leva a ser um professor substituto (não querer ficar muito tempo num lugar e se apegar aos alunos) e ter entregado Erica, uma adolescente que se prostitua e foi acolhida por ele, ao Serviço Social — ele só se "livra" dela depois dos dois terem criado um laço muito forte.

Todos os personagens tem dificuldades em sua vida pessoal que comprometem seus deveres. Seja professores que não conseguem mais dar conta do ensino, pais que negligenciam os filhos (a sequência da reunião dos pais mostra bem isso) ou alunos com problemas de auto-estima que não conseguem ter uma vida normal (dentro e fora da escola). O próprio Henry consegue conquistar e inspirar os alunos, até os mais problemáticos, mas uma vez que ele vai embora, ninguém pode assegurar que eles continuem no caminho certo. Se ele não tivesse seus conflitos e conseguisse assumir um compromisso com pessoas, provavelmente ele faria uma maior diferença na vida desses jovens que precisam de um modelo a seguir.


A fotografia do filme, feita pelo próprio Tony Kaye, assume um ar documental nas cenas da escola, se afastando um pouco dos personagens — talvez para reforçar a distância emocional. Já fora dela, primeiros e primeiríssimos planos são muito utilizados, procurando extrair o máximo da emoção dos personagens.
A montagem nervosa retrata perfeitamente o caos, principalmente na vida de Henry (vemos muitas cenas de seu passado e presente em certos momentos). O roteiro do estreante Carl Lund é muito bom, explorando a vida dos personagens e fazendo questionamentos oportunos — e ainda é potencializado pela direção de Kaye que o transforma num belo e poderoso filme.

"O Substituto" é interessante por não ser uma simples história de um professor que chega na escola e muda a vida do lugar e dos alunos. Aqui não há professores heróis, apenas seres humanos danificados. O caos está em todo lugar, inclusive dentro de cada personagem. E reconhecê-lo, entender sua origem, é vital para combatê-lo e encontrar a distante e já esquecida paz.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Terapia de Risco


★★★★☆
Ótimo

Se há um adjetivo que poderia descrever Steven Soderbergh como diretor, definitivamente seria: versátil. Sua filmografia variada vai desde filmes extremamentes pipocas, como "Onze Homens e Um Segredo", a cults como "Che", passando por longas de ficção científica ("Solaris") e ação ("À Toda Prova").
Em seu novo e provavelmente último filme, "Side Effects" (no original), ele faz um suspense que mistura o universo da indústria farmacêutica — já abordado, dentre outros temas, dois anos atrás, em "Contágio" — com elementos que remetem até a obras de Hitchcock e seus jogos mentais.

A trama do filme conta a história de Emily Taylor (Rooney Mara, da versão americana de "Os Homens Que Não Amavam as Mulheres"), uma mulher que sofre com ataques de ansiedade e depressão. Mesmo com a volta do seu marido (Channing Tatum) para casa, depois de passar 4 anos preso por um negócio ilícito na Bolsa de Valores, as crises não melhoram e a levam a uma tentativa de suicídio. No hospital, ela conhece o psiquiatra Jonathan Barks (Jude Law), com quem começa a se tratar. Ele prescreve um novo remédio experimental que a faz melhorar, porém, causa alguns efeitos colaterais inesperados que mudarão a vida de todos.

O roteiro de Scott Z. Burns faz "Terapia de Risco" parecer dois filmes em um. A princípio um filme de investigação que trata de temas sérios como depressão e a responsabilidade de médicos que são pagos por laboratórios para testar novos medicamentos em seus pacientes (com a permissão deles, é claro), o filme toma uma guinada inesperada que o transforma num grande suspense psicológico.
Dentro do que foi pretendido o filme funciona muito bem (apesar de forçar a barra em alguns momentos), pois consegue pegar o espectador de surpresa. Mas talvez poderia ser um filme ainda mais interessante se Soderbergh fosse mais a fundo nas questões mais sérias que começou a abordar, pois elas só funcionam como uma escada para a verdadeira trama. Além da depressão, como ele tinha começado a tratar do tema da indústria farmacêutica há dois anos, eu esperava que em "Terapia de Risco" ele fosse mais a fundo, "investigando" esse universo pouco conhecido do público, como o filme dá a entender. Mas ele pretere esses dois temas para puxar o tapete do espectador em nome de um thriller que, dependendo do ponto de vista, pode ser considerado inteligente e intrigante, ou bobo e ilusório.


Porém, mesmo com minhas ressalvas, admito que gostei do filme. Dentre esses bons e maus adjetivos que citei, eu usaria intrigante e ilusório como a minha definição do longa. Minhas reservas quanto à obra são mais por gosto pessoal — e até expectativa — do que por questões narrativas ou técnicas. A fotografia, assumida mais uma vez pelo próprio Soderbergh (sob o pseudônimo de Peter Andrews), é excelente e trás detalhes muitos interessantes. Um deles é na primeira consulta de Emily com Jonathan. No início da sequência a câmera enquadra Emily de cima para baixo (posição em que o personagem/objeto filmado diminui), mas à medida que ela vai falando sobre como conheceu Martin, a câmera vai abaixando até enquadrá-la de baixo para cima (fazendo-a crescer), sinalizando como ele a fazia bem, inclusive para sua auto-estima.
Seja por meio da iluminação ou da direção de arte, a paleta de cores frias e foscas, como um amarelo-pastel muito utilizado nos vários ambientes escuros, dominam o filme em sua maioria, enfatizando ainda mais o universo sem cores e o clima depressivo do filme.

"Terapia de Risco" é muito bem dirigido e tem ótimas atuações. A dupla de protagonistas — Jude Law e Rooney Mara — levam muito o filme. Law está muito bem como o psiquiatra numa posição difícil que precisa provar sua inocência. E Mara é perfeita em todas as nuances que seu personagem pede. Já Catherine Zeta-Jones, que interpreta a antiga psiquiatra de Emily, fica abaixo do resto do elenco, não fugindo da caricatura de uma psiquiatra.

Steven Soderbergh vem prometendo se aposentar como diretor desde 2011, mas esse é o seu segundo filme de lá para cá. Se "Terapia de Risco" realmente for o seu adeus ao Cinema, ele o faz com um filme se não perfeito, com qualidade inquestionável. O longa tem seus defeitos, não é a sua melhor obra, mas gostando ou não do rumo tomado, funciona muito bem como suspense, e consegue surpreender.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

A Morte do Demônio

★★★☆☆
Bom

Texto com pequenos spoilers.

Remake de um dos filmes de terror mais celebrados do cinema, "Evil Dead" (no original) estreou sobre forte alarde, com uma pré-estreia que causou muitos comentários nas redes sociais, inclusive de pessoas que não aguentaram ver o filme até o final — aquele blá blá blá de sempre, quando o assunto é filmes de terror atuais.

Mas essa nova versão nem de longe tem o mesmo "charme" do original. Por charme eu quero dizer o fator trash, meio amador, que um orçamento de apenas $350.000 proporciona a um filme com muitos efeitos especiais. O novo "A Morte do Demônio" saiu do papel já com status de grande lançamento, e foi distribuído por um grande estúdio (Sony), algo que Sam Raimi sequer poderia sonhar quando fez o original. Para se ter uma ideia, o orçamento de "A Morte do Demônio" ($17.000.000) foi maior que outros filmes recentes do gênero como Mama, que usa muitos efeitos digitais e tem nomes mais chamativos no elenco, como Jessica Chastain.

Com a responsabilidade de ser um grande lançamento, vem a pretensão de ser um grande filme. E essa pretensão, que pode ser vista logo na frase que estampa o cartaz do filme, que atrapalha o resultado final. Sam Raimi, que agora aparece como produtor (assim como Bruce Campbell, o eterno Ash, que faz uma participação minúscula depois dos créditos), passou a responsabilidade de "reciclar" seu filme ao novato Fede Alvarez, um diretor uruguaio que até então só tinha feito curtas — o mais conhecido, "Ataque de Pânico" pode ser visto aqui. Ele não é só responsável pela direção, mas também pelo roteiro, que é também escrito pelas mãos de Rodo Sayagues e revisado por Diablo Cody.
Na nova trama, Mia está se recuperando de uma overdose de drogas e vai com seu irmão e seus amigos passar uns dias na cabana da família. No porão do lugar eles encontram o livro dos mortos, que desperta forças demoníacas que possuem os vivos.


Logo no início do longa já percebemos que será uma produção mais séria que o esperado. A trama carregada por problemas familiares e com drogas, nada lembra o tom escrachado e despretensioso do original, e de filmes mais recentes como "Arreste-me Para O Inferno" (do próprio Raimi) e "O Segredo da Cabana". Além disso, nota-se uma mudança de objetivo. Enquanto a trilogia de Raimi tinha como objetivo divertir os espectadores, o novo filme de Alvarez quer chocá-los. A violência/gore que antes fazia parte da experiência do filme, agora É a experiência. Talvez esse seja o principal pecado de "A Morte do Demônio". Há ainda as soluções fáceis de roteiro, como a ação que dá o ponta pé inicial na trama principal — uma pessoa supostamente inteligente que resolve ler em voz alta trechos de um livro feito com carne humana e escrito com sangue —, mas os fãs de filmes de terror (e eu sou um deles), que já estão acostumados com tamanhas asneiras, provavelmente não vão ligar muito para isso.

O lado técnico do filme chama a atenção com cenas interessante e sangrentas que são muito bem executadas. E o CGI, tão corriqueiro nos filmes atuais, só é usado quando realmente preciso. Fede Alvarez quis manter as raízes de Raimi e, com sua equipe, faz um bom trabalho com maquiagem e efeitos práticos — inclusive na cena em que Mia corta sua língua, diziam para Alvarez que seria melhor o uso de efeito digital, mas ele insistiu em fazer do jeito "mais difícil". E o resultado é bem convincente.
Mas não só a equipe de efeitos especiais merece menção. A trilha sonora de Roque Baños é excelente e prepara uma atmosfera tensa, já não bastasse o que acontece na tela.

O elenco jovem é na sua maioria fraco e decepciona. Só se salvam a bela Jane Levy (que começou a aparecer meio como uma Emma Stone genérica, na série Suburgatory), e Jessica Lucas (Cloverfield). Shiloh Fernandez, que faz no filme mais ou menos o papel que seria de Ash, só não é mais inexpressivo e sem carisma que Elizabeth Blackmore, sua namorada no filme. Lou Taylor Pucci fica no meio do caminho. Não tem grande atuação, mas também não compromete.


Apesar de ter um clima totalmente diferente, "A Morte do Demônio" também usa de referências ao original para se conectar com os fãs do clássico. O Necronomicon Ex Mortis foi atualizado para uma versão bem mais chamativa visualmente. Aliás, a fim narrativos, a semelhança entre os dois filmes termina aí. São filmes completamente diferentes. E não há só referências ao primeiro Evil Dead, mas também ao segundo, que recebeu o nome "Uma Noite Alucinante" aqui. Uma delas é uma cena durante o eletrizante clímax, que acontece sob uma chuva de sangue — se o filme já é uma, nesse momento ela se torna literal. Na batalha entre o último sobrevivente e o Demônio, ele fala "I'll feast on your soul!" e recebe a resposta "Feast On This, Motherfucker". Essa cena claramente lembra esse momento do segundo filme.

E construindo uma nova mitologia enquanto faz referências ao original, o "A Morte do Demônio" de Fede Alvarez, mesmo com seus defeitos, se faz notável dentre um gênero que carece de filmes relevantes. Não, não é "O filme mais apavorante que você verá", como é prometido, mas é um bom filme que vai agradar quem aprecia o gênero.