terça-feira, 17 de setembro de 2013

[Curtas] Sombras da Noite / Em Transe

Sombras da Noite

★★☆☆☆
Razoável

O problema maior de "Sombras da Noite" é o terceiro ato. Os dois primeiros têm seus problemas, mas até são divertidos. O clímax é bem fraco, e a cena final, dispensável. O mais legal mesmo do filme é a adaptação do vampiro Barnabas (Johnny Depp) aos novos tempos e a exploração de seu lado estranho, como ele dormir em lugares bizarros e até aquela cena em que ele fica encarando que nem um gato aquela luminária do quarto da Carolyn (Chloe Grace Moretz) que ele pensava conter sangue.
No geral, o elenco é bom e gostei bastante do Depp. É mais um personagem excêntrico que ele tem sucesso em compor. E as boas falas de Barnabás ajudam na criação dessa figura interessante, para dizer o mínimo.

Se fosse um filme mais centrado na família e que não tivesse a obrigação de ter cenas de ação, "Sombras da Noite" poderia ter dado mais certo, pois elas acabam sendo o maior ponto fraco do filme, por 1- não serem empolgantes; 2- terem revelações que acabam soando ridículas [selecionar o texto a seguir para ler o spoiler] (Carolyn ser lobisomem); 3- e pela própria conclusão com um deus ex machina (o fantasma aparece do nada e vencer a bruxa? Sério???)

Mas, apesar de tudo isso, ainda acho o filme melhor que "Alice". Tim Burton anda vacilando ultimamente, com uma filmografia irregular. Espero que ele se reencontre.
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Em Transe

★★☆☆☆
Razoável

"Trance" é tecnicamente muito bonito e tem uma estética visual inteligente (apesar de abusar de certas marcas, como planos inclinados), mas narrativamente decepciona com uma trama pretensiosa, feita para enganar, ou melhor, confundir o espectador.

Um filme, mesmo complexo, precisa dar ao espectador pistas para que ele possa desvendar a história. "Em Transe" não faz isso (pode até fazer em alguns momentos de transe, mas não para a descoberta dos pontos chave da história) pois, não bastasse o grande emaranhado de real e imaginário que o filme faz, o que é revelado ao final (com dois plot twists) é extremamente difícil que seja descoberto por alguém.

É um roteiro com um grande ego que, se orgulhando de ser TÃO inteligente, em vez de nos levar para dentro do filme, nos faz apenas de espectadores passivos, esperando uma explicação. Até porque, já que sugestão hipnótica é tão fácil, TUDO que estávamos vendo podia não ser real.
Porém, mesmo com esses problemas, o filme tem muitas qualidades, como a já citada estética, a fotografia e o elenco, que está muito bem (principalmente o trio principal formado por James McAvoy, Rosario Dawson e Vincent Cassel).

Para um filme que fala tanto em identidade, acho que faltou um pouco disso em Em Transe. É um filme que não tem alma. Por ter muitas qualidades, não chega a ser ruim, mas confesso que Danny Boyle dessa vez me desapontou.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

[Fora de Série] Sons Of Anarchy - 5ª temporada



Quem me acompanha no Twitter ou no Facebook, sabe que "Sons Of Anarchy" é a minha série preferida. Não ouso dizer que é a melhor, claro. Reconheço que em matéria de linguagem audiovisual, por exemplo, "Breaking Bad" é superior. Mas o que me cativa e o que faz a criação de Kurt Sutter ("The Shield") dar tão certo é a qualidade do roteiro, que além de ser muito regular, inclui personagens muito bem escritos e desenvolvidos. O texto de Sutter e o seu elenco muito bem escolhido, consegue criar uma relação de cumplicidade entre personagem e espectador quase tão forte quanto o laço de irmandade (cada vez mais frágil) do clube de motociclistas. Mesmo não concordando com muitas de suas ações, amamos aqueles personagens pois, antes de criminosos, eles são humanos, amigos, família.

Prestes a estrear a sexta temporada lá fora (dia 10/09 lá fora, aqui sem previsões), decidi fazer um apanhado do excelente quinto ano, um ano de muitas mudanças na SAMCRO e na personalidade do protagonista Jax Teller (Charlie Hunnam, de "Círculo de Fogo"), que segue o seu rumo — sem volta? — à escuridão.

Nem preciso citar que haverá spoilers à frente, certo?

Jax se firmou como líder do Clube (no verdadeiro sentido da palavra, não só como título), mesmo que isso esteja custando sua "humanidade". A mudança que o personagem sofreu no decorrer da série, principalmente nas duas últimas temporadas, chega a assustar. Ele faz o que tem que ser feito (pelo menos em seu julgamento) e o mundo que se dane. E o pior é que ele, gradativamente, tem se deixado mover pelos sentimentos, principalmente de vingança — por Clay e pelos responsáveis pela morte de Opie (ao ponto de jogar fora anos de relacionamento com os Grim Bastards para matar o cara).


Agora, além de redimir o clube, ele precisa redimir a si mesmo. A perda de controle de Jax vem sido demonstrada pela atuação cada vez mais carregada de Charlie Hunnam. O personagem, que antes se impunha e se destacava por sua clareza de pensamento e soluções criativas para problemas aparentemente sem soluções, ou ao menos sem soluções não violentas — essa segunda característica ainda permanece —, agora, sempre sem paciência, o faz levantando a voz, tentando ganhar discussões no grito.
Por um tempo até cheguei a pensar que Hunnam estava erraticamente se excedendo em suas atuações, já que em várias vezes na série ele conseguiu se impor ou expressar sua raiva, por exemplo, sem precisa gritar (só com um gesto, olhar, entonação de voz, etc). Entretanto, me convenci que ele usa tal recurso para reforçar a mudança de personalidade de Jax, e como ele ficou arrogante e "selvagem" depois de assumir o martelo ("Opie was right. The gavel corrupts. You can't sit in this chair without being a savage").

Mesmo com sua crescente altivez, continua sendo notável a habilidade de Jax de fazer situações que parecem sem saída se virarem ao seu favor. O próprio Damon Pope (Harold Perrineau, de "Lost") reconheceu essa habilidade: "Finding the hidden advantage in an unfortunate circumstance. Using pain to take it to the next level. Those are the things that turn players into kings." Usar a arma de Clay para matar Pope (eu gostava dele, descanse em paz) foi um jogada de gênio. Matou 2 coelhos com uma cajadada só.


Para ser sincero, eu achava que Clay (Ron Perlman) morreria no final da temporada e, até alguns episódios antes, que ele faria o papel de vilão até o seu fim. Essa questão talvez tenha sido a única decisão errada de Sutter na temporada. Fazer o vilão se arrepender de tudo que fez e tentar se redimir é um recurso batido para criar empatia com o público durante a fase final do personagem, e dificultar a decisão do (anti) herói sobre qual será o destino — que, no caso de SoA, não há meio termo para um personagem que vacilou tanto: ou te deixam viver, ou te matam (não acredito que Clay ficará preso por muito tempo).

Porém, a série não chega a perder pontos por causa disso. Desde o início eu gostava do Clay, apesar de seu lado desumano, e confesso que foi bom vê-lo se arrepender. Agora ele que está sofrendo. Deu pra sentir a dor dele ao ser traído por Gemma e Juice (Katey Sagal e Theo Rossi, respectivamente). Falando no Juice, ele foi um dos personagens mais importantes da quarta temporada, mas nesse ano se resumiu a capacho do Clay. Ele sempre foi um dos mais queridos pelo público, até por ter um lado ingênuo, mas a facilidade com que é manipulado já está incomodando. Duas temporadas, direto. Fora que a culpa por suas ações continua crescendo. Será que ele tentará cometer suicídio novamente? Tentando ou não, algo me diz que ele não sobreviverá à sexta temporada.


A relação de Gemma e Tara, é outra coisa que se deteriorou na série. Particularmente, eu gostava mais quando as duas eram amigas (2ª e 3ª temporada). No início da série elas se odiavam, depois aprenderam a gostar uma da outra e criaram uma bonita amizade, agora voltaram a ser antagonistas, e para sempre, pelo jeito.
Uma das coisas mais legais desse ano foi a entrada de Jimmy Smits pro elenco. Simpático e com boas tiradas, o seu personagem, Nero Padilla, ganhou o público logo em sua primeira aparição. Belíssimo trabalho de Smits. E, ainda no território de relacionamentos, a amizade/parceria criada entre Nero e Jax foi muito importante para os dois personagens. Reformado de sua vida no crime, Nero funcionava como um conselheiro de Jax. Todavia, não só não conseguiu colocá-lo no caminho certo, como acabou voltando para o mundo criminoso.

Muitas cenas fortes marcaram a quinta temporada. A morte de Opie (Ryan Hurst) foi um dos momentos mais emocionantes de toda a série. Vendo em retrospectiva sua jornada, porém, o seu destino não poderia ser menos dramático. Desde a primeira temporada Opie foi retratado como um personagem infeliz e em conflito, que precisava escolher entre a família e o clube. Acabou acusado de trair o clube, perdeu a esposa, mais tarde se casou de novo (com Lyla), não deu certo e ainda perdeu o pai, Pyne, assassinado por Clay na quarta temporada.
A última temporada ainda teve dois outros momentos de impacto. A filha de Tig (Kim Coates) sendo queimada viva por Pope, logo no primeiro episódio, e a sequência em que Otto (interpretado pelo próprio Kurt Sutter), outro personagem que há anos sofre pelo clube, assassina uma enfermeira da prisão com um crucifixo, mais uma vez provando sua lealdade aos seus irmãos (depois de quase os trair), mas, por outro lado, complicando a vida de Tara, que tinha levado o crucifixo a ele ("Sons live, Redwood bleeds.").


A temporada termina com Tara sendo presa e Gemma, aparentemente, voltando a ser a figura materna (que sempre teve um grande valor na série) na vida de Jax. A última cena do season finale, por sinal, foi muito bem pensada. Gemma em pé abraçando Jax, sentado, contrasta com a última imagem da quarta temporada, quando era Tara que o abraçava. E, na minha opinião, a quarta temporada deveria ter terminado assim. Não tinha necessidade alguma da foto antiga de John Teller e Gemma surgir na tela "explicando" a referência ao espectador. Lembro que na hora até senti minha inteligência sendo subestimada. Mas esse é um daqueles comuns tropeços que não comprometem o resultado final.

[Foto da Gemma com Jax]


No início do texto comentei sobre a regularidade da série. E é impressionante como "Sons Of Anarchy" não tem uma temporada ruim. Ainda mais, não tem um episódio ruim. Mesmo na terceira temporada, que considero a "menos boa", não consigo lembrar de um episódio fraco. Todos desenvolvem bem a história, os personagens, tem boas cenas, te fazem querer ver logo o seguinte. Nesse ano Kurt Sutter mais uma vez não decepcionou e nos presenteou com uma temporada sensacional.

Com o fim se aproximando (a série terminará na sétima temporada), o destino de Jax e do clube vai tomando uma forma sombria. O trailer da próxima temporada destaca, além das dificuldades de Tara na prisão e a ameaça representada por Lee Marshal (ex-oficial de justiça que busca vingança contra o clube), o caos que impera no clube, onde o sentimento irmandade parece estar sendo esquecido aos poucos. Além disso, podemos ver que o novo vice-presidente será Chibs (Bobby entregou o cargo por não concordar com as ações de Jax).
A sexta temporada tem tudo para ser uma das melhores. E tudo indica que será.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Círculo de Fogo


★★★★★
Excelente

Conhecido por seus filmes de terror e fantasia, como "O Labirinto do Fauno", "A Espinha do Diabo" e "Hellboy", o multitarefa Guillermo Del Toro — que já havia produzido "Mama" esse ano — dessa vez se joga de cabeça num sonho antigo seu (e de 90% dos jovens que cresceram  principalmente nos anos 80 e 90): um filme sobre monstros contra robôs gigantes.

Na trama, legiões de monstruosas criaturas, conhecidas como Kaiju, começam a emergir do Oceano (mais precisamente do Círculo de Fogo do Pacífico) e destruir cidades ao redor do mundo, matando milhões de pessoas. Quando as armas convencionais não se mostram o bastante para deter os monstros, a Pan Pacific Defense Corp começa a criar enormes robôs controlados por dois pilotos para defender as cidades. Nasce o Programa Jaeger. A princípio um sucesso, os Jaegers não conseguem resistir por muito tempo devido às aparições cada vez mais frequentes dos Kaijus e ao custo e demora na fabricação e reparo dos robôs.
A PPDC, então, decide suspender os fundos do Programa e dar prioridade à construção de muros em volta das cidades. Contrariado com a decisão, Stacker Pentecost, o responsável pelo Programa Jaeger, decide levar os quatro Jaegers remanescentes para o último post de batalha em Hong Kong, onde pretende liderar um ataque final.


Uma das coisas mais legais do filme é subverter a máxima do herói de ação, na maioria das vezes, americano. Em "Pacific Rim" (título original), a Pan Pacific Defense Corp, organização criada para defender a humanidade dos Kaijus é transnacional. Pentecost, o comandante do Programa Jaeger, é britânico e as equipes que pilotam os quatro robôs principais são da China, Rússia, Austrália e, no caso do Gipsy Danger, um americano e uma japonesa. Raleigh Becket (Charlie Hunnam, da série "Sons Of Anarchy"), um piloto aposentado e traumatizado por um evento do passado, e a inexperiente Mako Mori (Rinko Kikuchi, de Babel) são os personagens principais que se levantam como heróis quando tudo dá errado. E, apesar de Becket ser o óbvio protagonista, uma vez que a personagem de Mori é apresentada, a trama começa a girar em torno dela. Vemos a história através dos olhos de Becket, mas é Mori quem se torna a protagonista do filme.


Se um filme de ação/ficção científica com uma heroína já não é comum em Hollywood, um filme em que a heroína não seja sexualizada, é raridade. Del Toro queria que os personagens e seus dramas fossem o foco do longa, e não seus físicos (ainda assim ele presenteia as mulheres com um Charlie Hunnam sem camisa por alguns segundos) ou, ainda vou mais longe, os robôs. Sim, os robôs são as coisas mais divertidas no filme, mas sem os humanos, eles são milhares de toneladas de metal inanimado. A "alma" desses seres gigantes é o que os move, assim como a alma dos personagens é o que move o filme. Um elemento bem inteligente (e legal, vai!) que mostra isso é a conexão neural que os pilotos precisam fazer para pilotar os Jaegers. Duas pessoas (ou três, no caso dos chineses) compartilharem as mentes quer dizer compartilhar alegrias, tristezas, virtudes, defeitos, medos, decepções, fraquezas, traumas, e tudo o que nos faz humanos. Dentro de um Jaeger os pilotos — e o robô — se tornam um.

O significado disso é muito mais profundo e interessante do que qualquer embate entre um Jaeger e um Kaiju. E devo dizer que as batalhas são excepcionais. Apesar de serem feitas completamente com computação gráfica, não há uma cena em que os movimentos — seja dos seres gigantes, do mar, ou dos ambientes destruídos — soem artificiais. Del Toro e o supervisor de efeitos especiais, John Knoll, passaram semanas discutindo a física dos Jaegers e Kaijus e até os detalhes da reação que eles causariam nos ambientes (como o tremor das janelas de prédios causados pelo deslocamento de ar quando um Jaeger passa por eles). O resultado são efeitos visuais muito reais e impressionantes.


Um elemento que chama atenção na fotografia do filme é as cores, que são bem fortes. Pela primeira vez, Guillermo del Toro e Guillermo Navarro (diretor de fotografia com quem já trabalhou várias vezes) optaram pelas câmeras Red Epic, que tem uma saturação bem intensa de cores — muito maior do que uma câmera analógica. Essa intensidade das cores dá ainda mais vida aos planos que sempre buscam ostentar o tamanho das imensas criações do diretor, frequentemente os mostrando de baixo e os comparando com outros objetos e construições enormes, como arranha-céus, pontes, e até a própria profundidade do mar, onde os Jaegers raramente ficam submersos. Um momento que ilustra bastante essa ideia de proporção e que, particulamente, eu esperava muito desde que vi o trailer, é quando Gipsy Danger usa um navio cargueiro como espada, na batalha contra um Kaiju em Hong Kong (cidade onde a maioria da ação acontece). É um daqueles raros momentos em filmes pipoca em que penso "gostaria ter tido essa ideia" — a sequência da explosão do gramado enquanto um jogador faz um touchdown, em "Batman - O Cavaleiros das Trevas Ressurge", é outro momento desses.

Apesar de suas muitas qualidades, porém, o filme tem seus pontos fracos. A maioria deles mora no roteiro escrito por Travis Beacham e pelo próprio del Toro, que abusa de personagens, situações e diálogos clichês. Temos o comandante casca grossa (o sempre ótimo Idris Elba, de "Prometheus"), o piloto arrogante que rivaliza com o mocinho e o cientista maluco que funciona como escape cômico. Aliás, em "Círculo de Fogo" é uma dupla de cientistas — Newt Geiszler e Gottlieb, irritantemente interpretados por Charlie Day e Burn Gorman, respectivamente. Outro personagem responsável pelo humor é Hannibal Chau, um vendedor de partes de Kaijus no mercado negro, interpretado por Ron Pealman (também de "Sons Of Anarchy", e "Hellboy").
Há ainda situações que soam artificiais, como quando Becket e Mori "checam o pulso" de um Kaiju já morto. Percebe-se claramente que é uma cena apenas com o objetivo de impactar visualmente. Provavelmente na cabeça de Del Toro a cena teria um efeito empolgante ou até cômico quando, na verdade, soa bobo.


Entretanto, os visíveis defeitos e tropeços no roteiro não tiram o mérito do diretor e de seu filme excelente, que não só funciona como bom entretenimento, mas também é capaz de despertar a criança interior de muitos marmanjos, que certamente sentirão uma sensação de nostalgia vendo as batalhas colossais.
E, mesmo sendo cheio de metal e monstros, "Círculo de Fogo" não é um filme bruto, artificial, mas sensível, que envolve o espectador, principalmente pela força de seus personagens. O elo que Guillermo del Toro cria entre Raleigh e Mako é muito bonito. É emocionante quando, perto do final do filme, Raleigh diz à ela "All I have to do is fall, Mako. Anyone can fall". É verdade que a fala teria ainda mais peso se o destino de seu personagem fosse diferente, mas, por tudo o que significa, pela construção da cena, e interpretação de Charlie Hunnam (que merece ser mais conhecido) é um momento comovente e importantíssimo para a história do filme.

"Círculo de Fogo" é um dos melhores filmes do ano, mas com um texto mais cuidadoso seria ainda melhor do que já é. Não é uma produção que visa premiações, ainda assim é capaz de tocar e envolver o público de uma forma que muitos filmes oscarizados não conseguem.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

[Fora de Série] Hannibal - 1ª Temporada


Acho que "Hannibal" é uma boa escolha para começar essa nova seção do blog. A série terminou de ser exibida recentemente no AXN, portanto não precisarei me preocupar com spoilers. Mas, de qualquer forma, já aviso que terá alguns detalhes sobre a primeira temporada.

2013 parece ter sido o ano escolhido para levar o cinema para o mundo das séries. Além de "Hannibal", ainda tivemos "Bates Motel" (que ainda escreverei sobre). Ambas estrearam sob olhares duvidosos, pois explorariam o passado de dois ícones do cinema: Hannibal Lecter (de "Dragão Vermelho" e "O Silêncio dos Inocentes") e Norman Bates (de "Psicose"). Porém, para alegria dos fãs de suspense, as séries foram sucesso de crítica. Apesar de "Hannibal" ter lutado contra a baixa audiência (dificuldade não encontrada por "Bates Motel"), a série conseguiu ser renovada para a segunda temporada, que promete ser muito boa.

Sem mais delongas, desde o início gostei muito da proposta de "Hannibal", que aposta numa mistura de série criminal (com casos semanais), com suspense e drama psicológico. Mesmo quando os casos não tem a ver com o arco principal, a trama evolui através dos personagens. Mas algo que, passada a primeira temporada, ainda não consegui me acostumar, é a retratação completamente diferente de Will Graham (interpretado pelo ator britânico Hugh Dancy, de "The Big C"), que, aqui, tem um "quê" de esquizofrênico — no episódio 10, "Buffet Froid", descobrimos o motivo de seus problemas. Porém, com o tempo, aprendi a ao menos aceitar essa nova abordagem para o personagem. Já o Hannibal Lecter de Mads Mikkelsen (de "Casino Royale" e "A Caça"), mesmo bastante diferente do de Anthony Hopkins, foi do meu agrado. É um personagem misterioso e inteligente que sempre está a um passo a frente dos heróis e, quando não está, consegue virar o jogo ao seu favor. E ver a sua evolução como vilão é algo bem interessante. O jeito como Hannibal vai fazendo de todos os seus cúmplices (de assassinatos e/ou mentiras) é sensacional.


A estética visual de "Hannibal" também chama atenção pela inteligência em elementos como design de produção, direção de arte e fotografia, e pela falta de censura nas cenas de violência, que são bem gráficas. — difícil acreditar que a série é exibida num canal aberto, tamanha violência mostrada. O nível de gore é notável. Um prato cheio pra quem gosta (expressão bem pontual numa história sobre um canibal, aliás). E quando a violência gráfica dialoga com um bom roteiro, o resultado é melhor ainda. Como no início do episódio 9 ("Trou Normand"), quando uma paisagem paradisíaca é seguida por um totem de corpos mutilados, resultando numa bizarra ironia visual. Michael Haneke abre o seu último filme "Amor" com algo parecido, mostrando um corpo morto na cama, no momento em que aparece o título do filme. Algo sutil, mas que funciona muito bem e tem um significado forte na história.
Vale citar a referência a "O Iluminado" feita logo no primeiro episódio e o modo como a série apresenta a forma como Will observa e descobre detalhes da cena do crime, recriando o assassinato, com um tipo de flashback, mas em camadas. Algo bem legal de se ver.

Um detalhe interessante da fotografia da série é a profundidade de campo mínima que é usada na grande maioria das cenas, deixando só os atores focados e "embaçando" o resto do ambiente. Pessoalmente, isso me incomoda. Porém, talvez esse seja o objetivo: causar desconforto. Uma profundidade de campo pequena tende a fazer com que o ambiente pareça menor, causando até uma certa sensação claustrofóbica. Não sei se isso acontece com mais alguém, mas é exatamente isso que eu sentia vendo os episódios. E sendo "Hannibal" uma série psicológica, com um clima quase opressivo (algo bem explorado pela direção de arte), acho que esse detalhe foi fundamental para a construção desse mundo, e mais do que isso, para emular o que os personagens sentem (principalmente Will). Mesmo ainda me incomodando, reconheço que é um recurso genial.


Finalizando, com uma trama interessante, inteligente, violenta e assustadora (para nenhum fã de filmes de terror botar defeito), e poucos pontos fracos (o descuido com alguns personagens, como Bella Crawford e Freddie Lounds, que somem), "Hannibal" teve uma ótima temporada de estreia. O atual triunfo de Hannibal sobre Will, e como o herói irá reverter essa situação e provar sua inocência, já deixa uma alta expectativa para a próxima temporada, que só voltará em 2014. E esse combate entre duas mentes geniais — uma, especialista em prever passos, a outra em refazê-los — provavelmente durará um bom tempo. Isso se a audiência não atrapalhar.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Novidade no blog: [Fora de Série]

Já faz um tempo que penso em ampliar o horizonte das críticas e escrever sobre séries. Tenho adiado pois, além de gostar mais de Cinema (e de escrever sobre), se o improvável dia em que eu serei conhecido pelos meus textos vier, eu quero que seja pelas críticas de Cinema, e não de séries. Porém, como eu tenho tido dificuldade em produzir conteúdo sobre filmes (não é sempre que vejo um que desperte em mim a vontade de escrever sobre e, como esse espaço é pessoal e o tenho como hobby, não me esforço tanto para escrever quando não sinto vontade), acho que com um leque de assuntos maior e mais flexível, o blog ganhará no próprio conteúdo e, principalmente, qualidade. Possivelmente, até em público.

Nas próximas semanas e meses, postarei aqui comentários sobre temporadas de séries como Hannibal, Arrow, Orphan Black e Bates Motel (quando terminar de ser exibida pelo Universal Channel), entre outras. Quem é meu amigo no Filmow, sabe que de vez em quando gosto de comentar sobre vários episódios que acabei de ver, mas não o farei aqui. Prefiro juntar o conteúdo e resumi-lo numa avaliação sobre a temporada. Ainda não decidi, mas talvez, eu poste também algumas notícias e trailers sobre novas temporadas de séries que eu mais gosto.

Mas gostaria de lembrar que o foco do blog continuará sendo as críticas de filmes.

É isso aí. Espero que vocês gostem da novidade.
E não deixem de explorar as outras seções "Esse É Clássico!" e "Curtas".

PS: Quanto ao nome da nova seção, será temporariamente "Fora de Série", mas pensei em "Na TV" que até gosto mais, mesmo sendo mais simples. Se alguém quiser dar sugestões, fique a vontade!

segunda-feira, 29 de julho de 2013

[Curtas] Only God Forgives / Invasão À Casa Branca

Only God Forgives 
★★☆☆☆
Razoável

Um filme visualmente marcante, mas que falha nas questões mais básicas numa produção cinematográfica. A belíssima fotografia, design de produção e direção de arte não salvam o filme, que tem uma trama desinteressante, personagens sem um pingo de carisma e atuações fracas. O diretor foi de Drive (um filmaço), para isso.

"Only God Forgives" é bonitinho, mas ordinário.
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Invasão À Casa Branca
★★☆☆☆
Razoável

Seria mais legal se fosse um filme da série "Duro de Matar". Os filmes do John McClane são forçados, mas com orgulho. É uma linha de filmes de ação sem compromisso com a realidade, visando apenas o entretenimento. Aí esse "Olympus Has Fallen" quer se levar a sério, forçando a barra, com um tom solene, até épico... Complica.
O McClane no lugar do Mike Banning, e um tom mais leve, faria o filme ser bem melhor.
E de acordo com o filme, os EUA são responsáveis pela paz mundial. Tirando a sua frota do lugar desencadearia um caos nuclear. Menos, né...

Mas, como um filme de ação, é bem decente. O problema mesmo é o complexo americano de Deus e as forçações da história.

domingo, 14 de julho de 2013

O Homem de Aço


★★★★☆
Ótimo

Talvez a maior ironia em relação ao Super Homem, o super herói mais famoso da história, é que sua indestrutibilidade é seu maior ponto fraco na disputa com outros heróis pela preferência do público. Com toda sua força, poderes e praticamente nenhuma fraqueza, o kryptoniano se distancia de heróis mais humanos (no sentido falível da palavra), como o Homem Aranha, um fotógrafo pobre com poderes adquiridos por meios radioativos, e Batman, que, apesar de milionário, é um dos heróis mais humanos, por sua vulnerabilidade física e emocional.

A dificuldade de adaptar o personagem para a telona é percebida só de olhar a carreira de Clark Kent no Cinema. Dos 5 filmes lançados, apenas os dois primeiros, de Richard Donner e Richard Lester, são tidos como relevantes. Portanto, Zack Snyder — diretor com muitos filmes de ação no currículo, como "300", "Sucker Punch" e "Watchmen" (um dos melhores filmes de super heróis já feitos) — sabia do peso da responsabilidade (e das duas centenas de milhões de dólares, diga-se de passagem) que estava em suas mãos. Com o sucesso cada vez maior da Marvel, e com o término da saga do Batman, a Warner Bros. precisava de uma nova "super saga" urgentemente. Falhar não era uma alternativa.

E a boa notícia é que Zack Snyder não decepciona. "Man Of Steel", filme mais sobre Kal-el do que Clark Kent, mesmo com seus defeitos, é um ótimo filme, além de ser diferente de tudo que já vimos em adaptações do Superman para as telas, grandes ou pequenas. Esqueça a famosa trilha sonora de John Williams, o inocente e unidimensional Super Homem de Christopher Reeve, a baboseira de defender o "jeito americano" e tudo referente ao filme de Donner e suas sequências. "O Homem de Aço" é bem mais maduro e sério. E isso já era esperado pela presença de dois grandes nomes envolvidos no projeto: Christopher Nolan e David S. Goyer — ambos vindos da trilogia do Cavaleiro das Trevas. Enquanto Nolan aparece apenas como produtor dessa vez, Goyer é responsável pelo roteiro.


A trama de "O Homem de Aço" apresenta muitos elementos de ficção científica, e essa característica é percebida logo nas primeiras cenas do filme, ambientadas em Krypton. Snyder faz uma remontagem bem curiosa do Planeta natal de Kal-el, com um território aparentemente hostil, visualmente decadente, que contrasta com a tecnologia avançada dos kryptonianos — a própria exploração de recursos naturais condenou o planeta a destruição. Aliás, algo bem interessante no design de Krypton é essa contradição entre o moderno e o arcaico. Ao mesmo tempo em que o povo kryptoniano é muito avançado tecnologicamente, seus habitantes mais importantes usam armaduras de batalhas, como os povos antigos da Terra, e suas máquinas, mesmo com visuais "orgânicos", estranhamente parecem datadas. A concepção de arte e o design de produção do filme parecem ter se inspirado nas obras de H.G. Giger. As armaduras, máquinas e cenários de "O Homem de Aço" remetem às obras do criador do Alien mais temido do cinema.

Possivelmente um dos maiores erros do roteiro de Goyer comece exatamente depois da introdução em Krypton — em que, sabendo que o planeta vivia seus últimos dias, Jor-el manda o seu filho recém-nascido para a Terra, contrariando General Zod, que promete achá-lo de qualquer maneira. De lá, somos apresentados a Clark já adulto, trabalhando num barco pesqueiro, onde pela primeira vez vemos um momento heroico do personagem. O problema é a mudança brusca de ambiente. Das cenas de ação em Krypton, o filme já leva o espectador para uma cena de ação no meio do mar. Não há preparação, naturalidade. A partir daí o filme conta a infância de Clark (Lana marca presença rapidamente) e a descoberta de seus poderes por meio de flashbacks, o que pode não ter sido uma boa escolha, por ser um filme sobre a origem de um herói. Por outro lado, a narrativa sendo linear, implicaria em desenvolver bem mais a infância do menino kryptoniano, e não apenas rápidas sequências. O filme, que já tem 140 minutos, poderia ficar bem maior.


A trama ainda tem outros dois problemas que incomodam: a utilização além do necessário de Jor-el (a sua consciência não serve apenas como guia para Kal-el descobrir sua origem) e o paralelo constante de Kal-el com Jesus Cristo — principalmente na sequência da igreja, onde ele divide um enquadramento com a imagem de Jesus num vitral, de maneira nada sutil.
Entretanto, se o roteiro vacila em alguns momentos, acerta em muitos outros, principalmente na construção de Kal-el como pessoa e herói, mesmo que seja algo diferente do que estávamos acostumados. Como nunca antes, vemos e sentimos Clark como um peixe fora d'água. Sofrendo na sua infância com a descoberta de suas habilidades (a frase "Pessoas têm medo do que não entendem" dita por Jonathan para Clark, vale para o próprio, que não entendia o porquê de ser diferente) e quando adulto, vagando de um lugar para o outro, como um nômade — porém, mais sem identidade do que lar.

Apesar de ser filho de dois mundos, Kal-el é estranho em ambos, já que é um alienígena na Terra e, por ser filho de concepção natural, uma abominação para os Kryptonianos — que nasciam já com uma "classe" e propósito estabelecidos (Jor-el, cientista, e Zod, Guerreiro, por exemplo). Todavia, como tudo no filme, há os dois lados da moeda, pois, ainda que não pertença a nenhum dos dois mundos, ele é o único ser livre de sua raça e um deus na Terra. Até Zod, inimigo mortal do Superman e um dos últimos sobreviventes de Krypton, é escravo de sua predestinação. Ele nasceu para proteger seu planeta e irá até o fim para isso.

E até o fim ele vai. Superman precisa testar toda a sua força para parar Zod e salvar a Terra, nem que para isso leve arranha-céus e todo tipo de construções abaixo. O resultado (meio over, é verdade) são cenas espetaculares de luta e destruição em Smallville, Metropolis e até no Espaço. Sim, se você achou que "Superman Returns" não teve ação o suficiente, já aviso que "Man Of Steel" é um prato cheio. O nível de destruição é capaz de ter levado Michael Bay às lágrimas, de alegria e emoção.


Outra coisa resgatada pelo filme, é o carisma do Superman, graças ao britânico Henry Cavill. Ele consegue passar para o público a solidão e o peso que o kryptoniano tem nas costas, com todas as nuances pedidas pelo personagem. Um exemplo de sua boa atuação é num flashback onde Clark, ainda adolescente, discute com seus pais. Em nada lembra o Clark calado que vemos na maioria do filme. Amy Adams interpreta uma Lois Lane forte e decidida, que foge da donzela que sempre precisa ser salva do vilão. Michael Shannon tem sucesso ao dar a Zod uma aura realmente ameaçadora, já o Jor-el de Russel Crowe representa a figura paterna e sábia. Outra figura paterna muito bem representada é Jonathan Kent. Kevin Costner, o melhor no elenco, não precisa de muitos momentos para brilhar como o pai de Clark Kent. Diane Lane também aproveita seu pouco tempo na tela para esbanjar sensibilidade, especialmente na sequência em que ela precisa confortar o seu filho, assustado com os dons recém-descobertos da super audição e visão de raio x. Os atores Cooper Timberline e Dylan Sprayberry, que fazem Clark com 8 e 14 anos, respectivamente, também fazem ótimos trabalhos.

Outro elemento a se destacar é a belíssima trilha sonora do sempre genial Hans Zimmer. Desde o início com o clima de urgência em Krypton, passando pelos momentos mais dramáticos às lutas de Superman com Zod, a trilha se encaixa perfeitamente e emociona. Percebe-se o tom completamente diferente dos filmes do Batman, por exemplo. Zimmer é um compositor que se adapta muito bem aos diferentes tipos de filmes.
Apesar da trilha ser diferente da trilogia do Cavaleiro das Trevas, Christopher Nolan trouxe para "O Homem de Aço" o mesmo clima sério e épico. Não há espaço para muitas piadas, e as poucas que têm são mais visuais, e até bem inteligentes. Em uma delas, vemos um plano fechado na palavra "ALERT" em vermelho logo depois do Governo Americano descobrir a nave de Zod em direção à Terra. Mas logo a câmera abre o plano e é revelado que é o alerta da falta de papel da impressora que Lois usava. A falta de humor tem sido um dos motivos de críticas ao filme, mas eu acho interessante uma pegada mais séria nos filmes da DC Comics, diferentemente dos filmes da Marvel.


Com todos esses altos e baixos, Zack Snyder faz um filme um pouco problemático, mas divertido e eficiente, conseguindo honrar a grandeza que esse personagem representa para a cultura pop. O diretor desmonta o mito de perfeição do Superman, um herói que precisava se inovar e se adequar ao mundo de hoje — um mundo menos colorido (como sua roupa) e onde fazer o certo pode significar sujar suas mãos (como a decisão que ele toma perto do final). Clark Kent passa a se assemelhar, também, com os dois heróis citados no início da crítica — vivendo com pouco dinheiro e buscando seu lugar no mundo.

Percebe-se que é apenas o primeiro passo para o estabelecimento de uma franquia, pois Kal-el ainda parece não ter chegado à maturidade de seus poderes e de sua personalidade. Esse ainda não é o Superman que daqui a alguns anos veremos liderando a Liga da Justiça. Mas, de qualquer forma, foi um bom primeiro passo, e com o pé direito.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Segredos de Sangue

★★★★☆
Ótimo


Texto com pequenos spoilers sobre a trama do filme.

O cinema coreano tem crescido muito nos últimos anos, inclusive exportando seus diretores para Hollywood. Curiosamente, três deles tiveram filmes programados para 2013. O primeiro da leva foi Kim Ji-woon (conhecido pelo excelente "Eu Vi O Diabo" e pelo terror "Medo") que dirigiu o novo filme de Arnold Schwarzenegger, "O Último Desafio". Bong Joon-ho ("Memórias de Um Assassino" e "O Hospedeiro") roteiriza e dirige "Snowpiecer", uma ficção científica com um elenco estelar, com direito ao Vingador Chris Evans e as ganhadoras do Oscar Tilda Swinton e Octavia Spencer, mas ainda sem data para estrear. E dia 14 chegou aos cinemas brasileiros o suspense "Segredos de Sangue", 10º longa do elogiado diretor Park Chan-Wook, mais conhecido pela Trilogia da Vingança (que tem em "Oldboy" seu ápice), e por seu último filme, o vampiresco "Sede de Sangue".

"Segredos de Sangue" conta a história da família Stoker (nome original do filme). Depois que o pai da introvertida India (Mia Wasikowska) morre, o seu tio Charles (Matthew Goode), que ela nunca soube que existia, vai morar com ela e sua mãe, Evelyn (Nicole Kidman). Charmoso e simpático, ele logo ganha a confiança de sua mãe, mas India começa a suspeitar que ele não é tão perfeito assim. A presença de Charlie irá fazer com que India descubra detalhes sobre o passado sombrio da família Stoker e sobre ela mesma.

Diretor que costuma realizar filmes com personagens excêntricos e bem desenvolvidos, Park Chan-Wook dessa vez aposta em tipos mais normais, ao menos à primeira vista, e concentra seu apreço pelo diferente no visual do filme, que é o que realmente chama a atenção. São planos imprevisíveis, com enquadramentos curiosos que valorizam o filme e ajudam a contar a história, já que a narrativa, dessa vez não é de tão alto nível.


A princípio remetendo ao Hitchcockiano "A Sombra de Uma Dúvida" (até no nome do tio), "Segredos de Sangue" se revela o oposto, já que, ao contrário do suspense de 1943, a sobrinha e o tio acabam tendo algo em comum. Pistas de que há algo de diferente em India vão sendo dadas desde o início do filme, mas só descobrimos (junto com ela) com o desenvolvimento de sua relação com Charles. E o auto conhecimento é tema forte no filme. India está em transição da adolescência para a fase adulta — o longa começa no dia de seu 18º aniversário. Ela sente emoções, ímpetos, que não sabe explicar. Seu tio acaba funcionando como um guia.
Em determinado momento, vemos que o falecido pai de India sabia muito bem o seu "segredo", porém conseguia administrá-lo, funcionando até como um tipo de super ego. O tio Charles tem o objetivo de liberar os impulsos da jovem, se transformando no Id. O resultado desde embate será muito interessante, ainda que não chegue ao nível dos clímax de outros filmes do diretor.

Porém, mesmo que o desenvolvimento da história esteja um pouco abaixo do padrão Park Chan-Wook, o diretor mostra uma exímia sensibilidade na hora de filmar e decupar o filme. Além dos já citados planos originais, ele utiliza, por exemplo, vários belos raccords* tanto para dar noção de elipses (a imagem de India caminhando no caminho que leva a sua casa sobrepõe a dela caminhando sozinha na estrada), quanto de flashbacks (funde os cabelos de Nicole Kidman sendo penteados a um campo onde India e seu pai caçavam).

*Raccord: ligação entre duas cenas por efeito visual ou sonoro, para reforçar ideia de continuidade.


A direção de arte acerta em cheio no clima do filme, utilizando cores sempre harmoniosas, como lilás, azul e laranja, mas sempre com atenção especial no verde e no vermelho em cenas chave. A iluminação e os filtros da fotografia de Chung-hoon Chung ajudam na padronização das cores do filme, como na sequência externa em que India tem um encontro com Whip. Não bastasse o ambiente com muita grama e árvores, percebe-se um cuidado especial no filtro utilizado nas câmeras, inteligentemente dando um tom ainda mais esverdeado à cena, já que é quando a natureza de India é revelada (ou pelo menos aparece mais). Se o verde representa a natureza (bastante explorada no filme), o vermelho forte, quase vinho, o sangue — no sentido de família e da violência que existe dentro da personagem principal.

Na mesma sequência citada de India com Whip no parque, vale citar o belo efeito que a câmera de Chung cria ao filmar India num plano médio girando no roda roda, dando inclusive um certo ar sobrenatural à jovem, que parece estar flutuando. Toda a sequência foi muito bem dirigida e nos dá a noção de uma predadora seduzindo sua vítima. Trabalho notável de Mia Wasikowska.
O diferencial de India é muito bem explorado especialmente em duas outros momentos também. Na sequência dela na mesa da cozinha, escutando o barulho da casca do ovo se quebrando, e a da aula de pintura, em que, enquanto todos pintam o vaso usado como modelo, ela pinta o padrão do lado de dentro do vaso ("Meus ouvidos ouvem o que outros não podem ouvir. Coisas pequenas e longes que pessoas não podem ver normalmente são visíveis para mim.")


Por tudo isso, "Segredos de Sangue" vale mais como um exercício visual do que como narrativo, já que peca um pouco no desenvolvimento da trama, e fica a impressão de que o roteiro de Wentworth Miller (ele mesmo, o Michael Scofield de "Prison Break") não teve o seu potencial máximo aproveitado. Mesmo assim Park Chan-Wook não decepciona em sua primeira empreitada no cinema americano, compensando a fragilidade da narrativa na forma como ele utiliza recursos visuais e metafóricos para enriquecer o estudo de seu personagem principal, India — a aranha, mais um exemplo, simbolizando o despertar de sua sexualidade.

Pelos muitos simbolismos (muitos nem citados nessa crítica), é um filme que vale ser visto mais de uma vez, pois certos detalhes só serão captados e completamente compreendidos depois de uma revisita ao filme.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Novidade no blog: Notas.

Já faz um tempo que eu pensava em implementar um sistema de avaliação para as críticas/comentários do blog. Acho que na maioria das vezes, o texto fala por si e, por ele, dá para perceber se quem escreve gostou ou não do filme, e se vale a pena ou não ver o filme. Por isso eu só colocava notas na seção [Curtas] por serem textos menores em que, por não falar muito sobre o filme, eu sentia que tinha necessidade de completar os comentários com uma avaliação. Porém, admito que grande parte das minhas críticas são escritas mais para quem já viu os filmes, pelo fato de eu gostar de discutir detalhes da trama ou da linguagem cinematográfica do filme que pode vir a ser spoiler.
Além disso, eu sei que nota é algo que as pessoas valorizam numa crítica (até muitas vezes pela preguiça de lê-la).

Dito isso, apesar de eu me sentir mais a vontade com um sistema indo de 0 a 10, decidi por algo mais habitual no campo da crítica cinematográfica: as famosas 5 estrelas. Como eu não costumo escrever críticas de filmes que eu não gosto, salvo algumas exceções, preferi variar mais as notas positivas do que as negativas.

Portanto, assim será:

★☆☆☆☆ = Ruim

★★☆☆☆ = Razoável

★★★☆☆ = Bom

★★★★☆ = Ótimo

★★★★★ = Excelente

Já atualizei todos os posts, e as notas já estão no ar.
Aproveitem para ler os textos novos e os antigos também. =)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A Conscientização Coletiva e o Jornalismo de R$ 0,20

Sabe o que acho interessante nessa onda de protestos em São Paulo (e em várias outras capitais)? Jornais de grandes emissoras que muitas vezes passam vídeos fofos de animais ou bebês que fazem sucesso na internet e ignoram vídeos realmente importantes como os gravados ontem em que policiais atacam os manifestantes, que gritavam "Sem Violência" e jornalistas, que estava fazendo seu trabalho. Jornais que enchem a boca para falar de imparcialidade, quando só quem não quer ver não percebe que eles defendem X partido/ideologia político escondendo ou "suavizando" suas ações, enquanto colocam a culpa no lado mais fraco (que, como vemos, tem se fortalecido).

Enquanto os que têm acesso a internet e se interessam um pouco em saber o que acontece, sabem o que realmente está acontecendo, grande parte da população aceita qualquer coisa que a grande imprensa diz. Essas pessoas não sabem que policiais atiraram em manifestantes que não eram vândalos, em jornalistas e em pessoas em seus apartamentos apenas por estarem filmando.
Mas isso é um processo lento. Acredito (ou, pelo menos, quero acreditar) que nossa passividade vai, aos poucos, ser substituída por um desejo de mudança. Não que todos vão sair para a rua para protestar. Só em se interessar em votar em quem realmente está disposto a defender o povo, e não em quem tem uma cara bonita, já será uma grande vitória.

Os protestos são apenas o início de uma conscientização coletiva. Quando não violentos, são altamente válidos, até porque eles têm exposto a verdadeira face da PM (que responde ao Estado). As atuais gestões têm covardemente reprimido quem protesta nas ruas, mas elas não podem fazer nada quando são vencidas nas urnas.

EDIT 16/06:
Observando e pensando no que tem acontecido, acho que é até provável que uma mudança no governo (ou na forma de governar) aconteça, mas não por causa dos protestos em si, das ações dos protestantes, mas por causa da incrível incompetência da polícia (que atira até em repórteres, inclusive internacionais, e em áreas com mães e crianças aqui no Rio de Janeiro) que está ficando MUITO feio.
O governo e a prefeitura fazendo de tudo para que a ação da sua polícia não seja vista — chegando ao ponto de desligar as câmeras da CET Rio — está pegando mal demais.

Sim, os protestantes causaram isso, mas indiretamente.
Eles estão servindo apenas (não no sentido de "só", pois isso é uma grande coisa) como agentes catalisadores que mostram a verdadeira face daqueles que supostamente deveriam nos proteger.
A culpa principal é do próprio despreparo da polícia e da censura do Estado, que não sabe lidar com a situação e está atirando no próprio pé.


Quantos aos protestantes, está ficando bem claro que faltam duas coisas fundamentais: foco e liderança. Já é sabido, pelo menos por nós, que os protestos já não são mais apenas pelos preços das passagens. O problema é que os protestos englobam muita coisa, como corrupção, gastos na Copa, melhora na educação e na Saúde, e acaba que ninguém se entende, e a mídia continua noticiando que são por causa das passagens — felizmente algo que está começando a mudar.
Até o movimento ter uma real direção, cada um protestará por uma coisa, ninguém se entenderá e todos vão apanhar. Por outro lado, o quanto mais apanham, o movimento se fortalece. 
Não me entendam mal. Admiro e fico feliz de ver o povo finalmente se levantando, mas o movimento precisa evoluir.

_O site http://nomovimento.com.br/ está organizando/compilando as informações sobre os manifestos ao redor do Brasil.

_Tumblr com relatos de pessoas (muitas delas foram feridas) que estiveram no protesto do dia 13/06/2013 em São Paulo: http://feridosnoprotestosp.tumblr.com/

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Homem de Ferro 3

★★☆☆☆
Razoável

Em 2007, a Marvel Studios estreou no universo cinematográfico para revolucionar a maneira como é feito os filmes de super heróis. Começando com um personagem que até então tinha papel secundário nas HQs da Marvel, a produtora lançou "Homem de Ferro", que até hoje é uma unanimidade dentre os fãs de quadrinhos e cinéfilos — um grande filme para ninguém botar defeito. Assim, a produtora mostrou a que veio e, a partir daí, lançou "O Incrível Hulk", "Homem de Ferro 2", "Thor" e "Capitão América", todos passados no mesmo universo e interligados entre si, até culminar no impressionante "Os Vingadores". Esse foi o final da Fase 1 da Marvel Studios.

Por isso, "Homem de Ferro 3" veio com duas grandes responsabilidades: fechar por cima a trilogia de Tony Stark, personagem mais querido da Marvel nos cinemas, e começar a Fase 2 com o pé direito. Infelizmente, o filme falha nos dois quesitos.
É o primeiro filme sem Jon Favreau na direção, que é assumida por Shane Black, criador da série "Máquina Mortífera" e diretor do ótimo "Beijos e Tiros" (protagonizado também por Robert Downey Jr.). Black, que também assina o roteiro (junto com Drew Pearce), faz um filme bobo que é mais comédia do que qualquer outra coisa — esqueça o tom sombrio tão enfatizado nos trailers.

Já buscando se conectar com o primeiro filme, uma das primeiras cenas de "Homem de Ferro 3" mostra o primeiro encontro de Stark com Yinsen, que o ajudou a construir a Mark 1 quando ele foi capturado no Afeganistão. Nesse mesmo evento onde os dois se encontram, Stark também conhece Aldrich Killian, que queria apresentá-lo um de seus projetos, mas acaba sendo ignorado já que o playboy estava ocupado demais com a cientista Maya Hanssen — e não por motivos profissionais.
No presente, um fragilizado Tony Stark tenta voltar a ter uma vida normal depois dos eventos de "Os Vingadores", afinal, conhecer semideuses, monstros verdes e combater forças extra terrestres vindas de um buraco de minhoca, mexe com qualquer um. E, não conseguindo mais dormir e tendo ataques de ansiedade, Stark passa o tempo construindo dezenas de armaduras e aprimorando suas tecnologias.
Enquanto isso, o mundo é assombrado por um terrorista chamado Mandarim, que num dos seus ataques acaba pondo em risco a vida de uma pessoa do círculo de Tony, que leva para o lado pessoal. Aí é onde a aventura começa e a sua vida pode terminar.


Apesar dos muitos defeitos, o filme tem um tema muito interessante: como os acontecimentos do passado moldam uma pessoa. Killian, enganado, e até pode-se dizer humilhado, por Stark no primeiro encontro dos dois, vira o jogo e se torna um brilhante e ambicioso cientista. Já Stark não consegue se livrar de seus medos e se esconde no seu casulo, a armadura. Ele já não consegue se sentir seguro fora dela (s). É impossível não lembrar da frase "A armadura e eu somos um" dita por ele em "Homem de Ferro 2". Só que na ocasião a frase tinha um sentido mais político e científico (de um inventor querendo defender sua invenção enquanto o governo queria confiscá-la). Agora, o sentido é literal, já que o que Stark busca é praticamente um estado de simbiose com a armadura.

O problema é que a resolução desse conflito de Stark não é só decepcionante como chega a trair a mitologia do herói. Aliás, muitas das resoluções das subtramas do filme são um tanto abaixo do esperado (como a do Mandarim, por exemplo, que com certeza deixou muita gente com raiva) e ainda deixam pontas soltas. O final escolhido por Black parece ter preocupado até Joss Whedon, que quando viu o filme comentou "Agora o que eu devo fazer? O que vou fazer em O Vingadores 2?". E realmente é uma "pepino" que passa para as mãos de Whedon, já que percebe-se que Shane Black não fez "Homem de Ferro 3" com uma ideia de continuidade, e sim de conclusão, o que é um erro já que o personagem é parte de um universo muito maior.


Mas se há uma coisa que Shane Black sabe fazer, e faz bem, é filme de ação com elementos cômicos. Você pode até não concordar com as escolhas narrativas que o diretor faz, mas a verdade é que o filme diverte. Não faltam cenas de ação com ótimos efeitos visuais — mesmo que a maioria seja sem as armaduras, ou pelo menos do Tony fora delas — e piadas. A escolha de tirar Tony Stark da sua zona de conforto e fazê-lo ser um herói apenas de carne e osso foi muito corajosa. O problema é que isso transformou o filme em algo muito parecido com a obra pela qual o diretor é mais conhecido. Sim, em determinados momentos, "Homem de Ferro 3" parece ser mais um "Máquina Mortífera" com armaduras e soldados luminosos do que um filme da franquia da Marvel. Há também elementos de filmes de espionagem, como quando Stark invade a mansão de Mandarim. A trilha sonora de Brian Tyler não deixa mentir, já que sua composição nessa sequência parece saída de um filme do James Bond.

Se o primeiro "Homem de Ferro" tentava ser um filme calcado no mundo real, o terceiro filme do herói toma muitas licenças poéticas em relação a HQ e a realidade, se tornando o filme mais fantasioso da saga.
Entre erros e acertos, "Homem de Ferro 3" fecha a trilogia de Tony Stark de forma decepcionante, deixando para "Thor: O Mundo Sombrio" a responsabilidade de ser o primeiro filme relevante da nova fase da Marvel.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

[Curtas] Deus da Carnificina / Coriolano

Deus da Carnificina
★★★★☆
Ótimo
Eu gosto muito de filmes que se passam em apenas um ambiente pois, mesmo superficialmente simples, na prática são bem mais complexos. O roteiro, a direção, a fotografia, a direção de arte... Tudo tem que ser 10 vezes mais preciso porque não há distração. O filme é todo baseado na força dos diálogos, nos personagens e no ambiente. E em filmes com esse estilo, não há como mascarar atuações. O ator tem que dar tudo de si. Fora que o recurso da Mise-en-scène ganha ainda maior importância. A movimentação dos atores tem um papel fundamental no contar da história.

E "Carnage" é um bom exemplo de como a boa execução desses fundamentos e um elenco de peso (dos 4, 3 são ganhadores de Oscar) fazem a diferença.
As atuações são primorosas, com destaque para a sempre excelente Kate Winslet e Christoph Waltz. John C. Reilly não brilha tanto, mas também está muito bem. Já a Jodie Foster tem momentos que parece estar meio "over", mas no geral também não decepciona.

Roman Polansnki conseguiu adaptar muito bem a peça para o cinema, fazendo um filme bem divertido. A maneira como a cordialidade dos pais vai sendo substituída por um certo antagonismo (começando com algumas simples alfinetadas), criando o caos, é sensacional. Mesmo que em alguns momentos os conflitos soem meio forçados, o resultado do filme é ótimo.
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Coriolano
★★☆☆☆
Razoável

Uma boa ideia, mas que não foi executada da melhor maneira.
É interessante ver o Império Romano no século XXI, mas o texto literalmente tirado da obra de Shakespeare acaba soando bem artificial no contexto do filme e nos distancia da obra, não apenas por muitas vezes ser de difícil entendimento, mas por citar coisas que não se aplicam mais ao nosso tempo — como espadas, por exemplo, que são muitas vezes citadas, mesmo não fazendo parte do nosso mundo. Uma adaptação mais moderna do texto, sem mudar a essência da história, ajudaria o filme.

Outra coisa que poderia ter sido melhor trabalhado é o lado "militar". Os exércitos de Roma e Volscos parecem apenas pelotões, nada semelhante a grandeza do exército de um Império. Fica até difícil acreditar como o exército de Aufidius, que mais parece um grupo de guerrilheiros, poderia ameçar um Império do tamanho do Romano.

É um filme interessante, mas que poderia ter sido melhor.