sexta-feira, 3 de julho de 2015

Uma universidade para quem não desistiu de aprender

Criada há 23 anos, UnATI ajuda a melhorar a qualidade de vida de idosos da zona norte

Por Israel Duarte, Guilherme Cunha e Maiara Oliveira

Muitos pensam que quem chega na terceira idade só vive para desfrutar do tempo livre, sem se preocupar com trabalho ou estudo. Mas existe um certo grupo de idosos que, em vez de ficar em casa vendo TV ou ir à praça jogar damas, escolheu voltar a estudar por vontade própria. No Méier, esse grupo se encontra três vezes por semana no terceiro andar da galeria Oxford, onde funciona a UnATI (Universidade Aberta para a Terceira Idade), uma universidade voltada para o público idoso, que oferece estudos dos mais variados temas e atividades (como danças e passeios), promovendo um envelhecimento saudável — mental e fisicamente.

Coordenado pela assistente social e socióloga Leny Arienti, o projeto foi criado em 1992, na Universidade Gama Filho.
— Na primeira turma, já fiquei apaixonada pelo trabalho porque você via pessoas semi-alfabetizadas num crescimento, num estabelecimento de relações sociais, então aquilo me despertou para um outro lado do ser humano já no final… — diz Leny.

Após o fechamento da UGF, a UnATI foi incorporada à Universidade Cândido Mendes do Méier, em outubro de 2013, onde possui cinco salas. Desde então, os idosos do bairro e da redondeza ganharam uma nova opção de aprendizado, atividades e lazer.

Para muitos, a UnATI não é apenas uma oportunidade de voltar a aprender, mas uma forma de voltar à sociedade, de ter algo pelo que esperar. É o caso de Magnólia de Castro, aluna há 16 anos:
— Depois que você se aposenta, só fica arrumando a casa, vendo televisão e tudo mais. E eu queria fazer alguma atividade. Me informaram que tinha a Universidade Aberta a Terceira Idade e eu sabia que já tinha uma na UERJ, mas lá o método é diferente. Aqui são 3 dias por semana, nós temos 9 aulas diferentes, as aulas são muito boas porque a maioria dos nossos professores tem pós-graduação e se dedicam mesmo.


Leny Arienti, coordenadora da UnATI
Segundo a coordenadora Leny, apesar de estar em vários lugares da cidade, não existem unidades da UnATI. Cada uma é independente, com sua direção e seus projetos. A do Méier, que conta com 176 alunos matriculados — entre 50 e 90 anos —, visa um lado mais universitário:
— Os horários eu sigo como se fosse uma universidade, com horários semanais. Toda terça, quarta e quinta tem essas aulas e sexta é o dia do artesanato porque é um grupo que gosta muito de trabalhos manuais. Não é um artesanato comum. É um artesanato mais individualizado, mais de criação e acho que é importante manter essa sua criatividade em funcionamento. É muito bom para o ser humano em qualquer momento da vida, principalmente na terceira idade.


“A aula é tudo”

Ela afirma ainda que a professora de psicopedagogia está dando para uma das turmas o mesmo conteúdo que dava na universidade e os alunos estão conseguindo acompanhar. Quando ela trabalha um tema, aplica, fazendo uma dinâmica, trabalhando a memória. Além das aulas voltadas para psicologia, a UnATI ainda tem aulas de História (do Brasil e da Arte), aulas voltadas à saúde, como Nutrição e Como Cuidar da Saúde, e até noções básicas de Direto. Há também as aulas práticas, para estimular a memória, equilíbrio e criatividade, como o artesanato, dança sênior e o coral, conduzido pelo maestro Geraldo Caputo.
— É um leque que varia muito. Já tivemos até aula de sexualidade humana. E de acordo com os interesses dos alunos a gente vai montando esses horários, como uma universidade mesmo. Só que sem a obrigatoriedade da presença e de provas. A gente não é obrigado, como quem está em uma formação, a seguir aquilo. Aqui é diferente porque pode ser diferente, não tem obrigação da graduação. Então a gente pode ir atendendo aos interesses. — Explica Leny, ainda completando. — A UnATI está sempre mudando e acho que isso é a beleza desse trabalho. Um semestre não é igual ao outro. Semestralmente mudamos as aulas. É um trabalho… Eu peno para montar as aulas. Vocês viram ali o que está escrito? — aponta para um papel no mural escrito “Horário definitivo graças a Deus!” — Foi tão difícil que às vezes você está terminando a grade e um professor diz que não pode mais em um determinado horário. Aí muda tudo. Mas é um trabalho maravilhoso.

Segundo ela, qualquer oportunidade de fazer exercício é importante. Por isso, já é de praxe: uma vez por mês a aula termina mais cedo para que todos possam ir ao show de Márcio Gomes (cantor que interpreta músicas da Era do Rádio), no Imperator.
— Acho que faz parte essa parte cultural também, é importante. Ele canta músicas que elas gostam, é um exercício de memória. Porque quando você vai cantando as músicas antigas, você vai recordando e a memória está funcionando. A aula é tudo. — Afirma Leny.


Regina Alencar: "Entendo que a UnATI é
visionária no sentido de prevenção das
síndromes crônicas degenerativas."
Para Regina Brandão Alencar, professora de psicopedagogia, tanto essa convivência quanto as aulas são vitais para a manutenção da saúde mental dos alunos:
— Aqui é um lugar de interação social. Primeira coisa é isso: você vai interagir com o que não tem mais. Perda de amigos, de status financeiro, familiares… Aqui você reconstrói isso. Eu acho bonito. No caso dessa aula, são exercícios. Os exercícios vão mudando, mas eu foco nessa área da cognitividade. Memória sensorial, paladar, degustar, o lado perceptivo.

População idosa deve crescer nos próximos 5 anos

Segundo o censo demográfico de 2010 (IBGE, 2011), a população brasileira hoje é de 190.755.199 milhões de pessoas, sendo que 51% são mulheres e 49% são homens. O contingente de pessoas que tem 60 anos ou mais, é de 20.590.599 milhões (aproximadamente 10,8 % da população total). E, segundo as projeções recentes, este segmento passará a 15% em 2020. O estudo ainda aponta que, confirmadas as tendências esperadas de mortalidade e fecundidade, a população do Brasil tende a dar continuidade a esse processo de envelhecimento.

Por isso, Regina considera a UnATI visionária no sentido de prevenção das síndromes crônicas degenerativas, como o mal de Alzheimer.
— A UnATI tem o objetivo de integrar essas pessoas da terceira idade numa interação social. Porque elas pensam, divergem das ideias, se atualizam. Então o trabalho aqui basicamente é atenção, memória, linguagem… Eu penso que a UnATI tem uma visão de futuro de prevenção desses quadros hoje, das demências crônicas degenerativas, como o Alzheimer, que é a que mais surge — avalia.

Especializada em psicogeriatria, a professora ainda comenta sobre suas aulas:
— Eles têm uma vivência incrível. Eu procuro trabalhar com essa coisa positiva deles. Isso chama-se Memória Autobiográfica. Porque, se eu posso falar de mim, se eu posso dizer quem eu sou, eu ainda tenho muito de mim em mim mesmo. Então eu estou num grau considerado de envelhecimento que chamamos de senescência, que quer dizer algo normal, não patológico.

A importância da UnATI no Rio de Janeiro fica ainda mais clara ao ser revelado pelo Censo 2010 que a cidade tem a maior quantidade de idosos do Brasil. Nove dos dez bairros brasileiros com maior proporção de idosos encontram-se na capital fluminense. E o Méier é o segundo bairro com o maior número de idosos, apenas atrás de Copacabana, que tem cerca de 3,3 idosos para cada dez habitantes. Para Leny, a UnATI é um local para eles se organizarem e ter uma convivência, para viverem.
— Tem que aprender a viver, não é? Nós temos que ser velhinhos agradáveis, temos que continuar na sociedade simpaticamente, até para não nos isolarem. Aí você não se isola porque sabe das coisas, você conhece, sabe dialogar, tem conversa na família, tem conversa na fila do banco, entendeu? Você tem o que dizer.

Alunos viajam e vão a exposições

A coordenadora conta que sempre promovem viagens e passeios a sítios, pontos turísticos, museus e exposições em geral. Além dessas atividades pela universidade, os próprios alunos se unem para viajar, muitas vezes até para fora do país, como conta Magnólia, aposentada de 72 anos:
Magnólia: "Estou com 72 anos e me sinto
melhor do que muita gente de 50."
— Em 2009, conheci Portugal com umas amigas. E tem muitas meninas que já foram para Itália, França, Inglaterra. — Ela, que se formou na Gama Filho como professora de inglês e português, ainda aponta como a UnATI não a deixa se sentir só. — A pessoa que mora sozinha fica muito segregada porque não faz nada. Aqui se tem uma possibilidade de aprender, dividir e até ser menos crítico; aqui tem muita troca porque você vê mais de 100 pessoas trocando experiências com você. É uma maneira de você nunca se sentir solitário. Eu sou uma pessoa sozinha, mas não sou solitária. Estou com 72 anos e me sinto melhor do que muita gente de 50.

Na contramão da maioria dos alunos, que vem para a UnATI para voltar a ter atividades, a assistente social aposentada Georgina Braga, de 65 anos, até hoje tem uma vida bem movimentada e atuante na área social:
— Sou presidente atual do Lions Club Cachambi e secretária da Associação de Moradores do Méier. Então eu tenho muita atividade, mas também é importante essa atividade, porque as outras são um outro foco. No caso do Lions, servir ao próximo, muita feira de saúde e tudo mais; a associação de moradores é o que busca sempre o melhor para os moradores do Méier, fazendo reivindicações junto aos órgãos onde existem as necessidades dos moradores. E na UnATI é um outro momento que eu vivo, é um momento exatamente meu. Eu tenho minhas amizades. Tenho muitas amigas desde a época da Gama Filho que fazemos grupos de viagens, nos reunimos fora UnATI, comemoramos aniversário, dia das mães, do amigo. Acho que é um momento que você relaxa, faz coisas com outras pessoas, troca ideias, dá sugestões, ouve opiniões e tem apoio de amigos — afirma.

Alunos são mulheres em sua maioria

Apesar de alcançar um grande número de idosos e fazer tão bem a eles, o público da UnATI é majoritariamente feminino. Homens são minoria nas salas. Georgina conta que seu marido, apesar de apoiá-la, não a acompanha por “ter outra cabeça”.
— O homem ainda não aprendeu como é bom viver desse jeito. Não vou dizer que seja um machismo, mas na cabeça do homem, ele se aposenta e o máximo que vai fazer é jogar um buraquinho na praça. Então você vê que as mulheres vivem melhor e mais tempo que o homem porque elas ficam mais dinâmicas, têm uma atividade, fazem um passeio… O homem da nossa geração teve uma formação diferente. “Isso não é coisa para homem. Homem fica em casa, ou trabalha, ou vai conversar com outro homem, ou vai ficar lendo jornal”. Ou seja, aposenta e troca o uniforme ou paletó e gravata pelo pijama. Fica em casa fazendo nada, adoece mais fácil, encuca mais fácil… Você vê que as mulheres estão vivendo muito mais tempo que os homens porque elas saem de casa e vão buscar. Agora, o homem da nova geração quando chegar na minha idade já vai ter uma outra visão — analisa.

Apesar de homens ainda serem raridade nas salas da UnATI, isso pode estar começando a mudar. A professora Regina conta:
— Tem um caso de um senhor que dizia que não queria vir para cá, queria ficar no computador dele. Mas acabou ficando surpreso com o nível dos professores, aprendeu muita coisa e ficou.




O Futuro

Casos como esse motivam ainda mais os professores a continuar o trabalho. E com a prospectiva das pessoas cada vez viverem mais, a UnATI tem tudo para continuar crescendo, levando valor a terceira idade e fazer com que a sociedade reconheça o valor dela. Leny fala que o futuro da instituição é seguir pelo mesmo caminho:
— Estar sempre se atualizando, estar sempre ouvindo o outro, sempre buscando formas de convivência, de discussão também, buscando uma conscientização maior, até política. Eu acho que a pessoa tem que saber do que está acontecendo, para se posicionar, para ser ouvido na família e ser um esteio dela também.

2 comentários:

  1. Gostei muito da reportagem.
    Sou aluna de Canto Coral da UnATI/UCAM - Méier. Aulas ministradas pelo Maestro e Professor Geraldo Caputo.
    Desde criança estudo música e já iniciei o aprendizado de diversos instrumentos, mas, atualmente estou tão motivada que voltei a estudar com afinco.
    Meu marido também frequenta a UnATI e nós achamos que a grade curricular e o conteúdo programático é muito rico e contribui para que nosso envelhecimento seja com muita cultura e autonomia funcional.
    Obrigada a todos que nos proporcionam um convívio tão agradável e produtivo.

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  2. Sou um dos poucos homens a que se referiu a Professora Regina. E foi a primeira aula dela que ao assistir, deu esse impulso e motivação. Hoje frequento mais 3 disciplinas. O primeiro "empurrão" foi dado por minha esposa Lucia, frequentadora mais antiga e assídua. Fiz um resumo do nome UNATI como sendo sigla de UNião e ATIvidade.

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